17.07.2019 | 13h57


GRAMPOLÂNDIA

Cabo da PM responsável por grampos jogou provas no rio após esquema ser descoberto

Esta é a terceira vez que o militar presta depoimento à Justiça Militar no caso das escutas ilegais.


DA REPORTAGEM

O juiz Marcos Faleiros, da 11ª Vara Especializada da Justiça Militar de Cuiabá, continua a ouvir os réus no processo da denominada “Grampolândia Pantaneira”, que apura crimes militares relativos ao esquema de escutas telefônicas clandestinas, operado em Mato Grosso desde 2014. Na terça-feira (16) foram ouvidos, pela segunda vez, o ex-comandante da Polícia Militar no Estado, coronel Zaqueu Barbosa, e o ex-secretário da Casa Militar, coronel Evandro Lesco.

Nesta quarta-feira (17) começa a ser interrogado o cabo da PM Gerson Corrêa, que presta seu terceiro depoimento à Justiça Militar.

Gerson Corrêa

O cabo da Polícia militar Gerson Corrêa, o terceiro a prestar depoimento entre os réus no caso dos grampos, narrou que tenta fechar um acordo de delação premiada desde 2017 para detalhar o esquema de grampos no Estado, porém, disse ter sido prejudicado por meio de manobras jurídicas.

Ele revelou, assim como Evandro Lesco, ter prestado depoimentos aos delegados da Polícia Civil Flávio Stringueta e Ana Cristina Feldner, mas as tratativas foram interrompidas depois que o processo subiu para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), devido ao foro privilegiado, após o então governador Pedro Taques (PSDB) pedir para ser investigado no caso.

Ao subir para a instância superior, Gerson disse ter iniciado uma negociação junto ao Ministério Público Federal (MPF), porém, não houve avanço. Quando o caso retornou ao Ministério Público Estadual (MPE) buscou o promotor Allan Sidney do Ó Souza e também ao procurador Domingos Sávio, mas disse que seu advogado foi esculachado por envolver membros do órgão. 

“Quando disse que a minha tratativa passou a ter envolvimento do MPE, imediatamente não conseguiu, meu advogado saiu esculachado de dentro do gabinete do doutor Alan”, revelou.

Operação contra deputado

Entre os fatos novos, o cabo da PM revelou que uma operação do Gaeco contra o então prefeito de Sinop Juarez Costa (MDB), atualmente deputado federal, foi por questões políticas. Ele também foi alvo de barriga de aluguel em 2016.

Gerson explica que foi usada uma decisão judicial alheia a investigação contra o então prefeito, às vésperas da eleição a prefeito da cidade, para atingir a vice de Juarez, Rosana Martinelli (PR), à época candidata ao cargo e apoiada pelo emedebista. 

“Esse fato é para mostrar que isso é corriqueiro e continua da mesma forma. Não é exclusividade deste réu, esse fato chegou ao meu conhecimento por esses dias, chegou de uma fonte idônea de dentro do Gaeco”, revela.

Ameaça à juíza

Enquanto depõe, o militar apresenta papéis que supostamente podem subsidiar suas falas e cita documentos internos do MPE solicitando escutas clandestinas.

Em uma das afirmações, Gerson revela que a prática de barriga de aluguel ocorre de longa data dentro do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco). O PM citou como exemplo uma suposta falsa ameaça de morte contra a então juíza Selma Rosane Arruda, hoje senadora pelo PSL.

Segundo o cabo, a suposta investigação não passou de uma estratégia para "bisbilhotar” o ex-governador Silval Barbosa, o empresário Antônio Barbosa e o empresário de comunicação Antônio Carlos Millas, entre outras pessoas.

"No relatório de informações realizei várias pesquisas em que nada guarda relação com o que a Selma relatou. Cito que pessoas que supostamente teriam envolvimento com essas ameaças tiveram sua privacidade violada nesse relatório fantasioso com o subsídio fático do doutor Marco Aurélio [ex-coordenador do Gaeco]", apontou.

Operação Arqueiro e Ouro de Tolo

Sobre as operações Arqueiro e Ouro de Tolo, o cabo da PM relatou que teria ocorrido seletividade para evitar que o processo subisse ao Tribunal de Justiça do Estado (TJMT) porque teria desembargador que vazaria informação ao ex-governador Silval Barbosa. 

“O Gaeco utiliza mais uma barriga de aluguel para deflagrar a Ouro de Tolo, com a decisão da Vara de Cáceres, foi realizado o monitoramento telefônica do filho do Silval, Ricardo Barbosa, Roseli e de Silval, ou seja, a família Barbosa foi alvo antes mesmo do pleito [da investigação]. Isso foi realizado pelo Marco Aurélio e Samuel”, detalha Gerson Corrêa.

O cabo também acusou o Gaeco de divulgar áudios de uma conversa entre Silval e o desembargador do TJMT Marcos Machados. À época, o áudio mostrou uma conversa via telefone celular onde supostamente o desembargador Marcos Machado atuaria para soltar a ex-primeira-dama, Roseli Barbosa que havia sido presa na operação. 

“Gaeco ao identificar essas ligações solicita o recorte dos áudios e coloca num pen drive e foi coletado dentro do sistema e repassados em mãos ao promotor Marco Aurélio”, disse.

O conteúdo dos áudios e videos eram vazamentos para imprensa, segundo Gerson, era para resguardar o Gaeco em ações futuras.

Entre os fatos novos, o cabo da PM revelou que uma operação do Gaeco contra o então prefeito de Sinop Juarez Costa (MDB), atualmente deputado federal, foi por questões políticas. Ele também foi alvo de barriga de aluguel em 2016. 

Gerson explica que foi usada uma decisão judicial alheia a investigação contra o então prefeito, às vésperas da eleição a prefeito da cidade, para atingir a vice de Juarez, Rosana Martinelli (PR), à época candidata ao cargo e apoiada pelo emedebista. 

“Esse fato é para mostrar que isso é corriqueiro e continua da mesma forma. Não é exclusividade deste réu, esse fato chegou ao meu conhecimento por esses dias, chegou de uma fonte idônea de dentro do Gaeco”, revela.

Em seguida, Gerson apresenta documentos que provariam mais de 15 operações onde ocorreu barriga de aluguel. 

De acordo com o militar as operações Xeque-Mate, Chacal, Rêmora, Seven, entre outras.

Falsificação de documento

Gerson Corrêa trouxe à tona outro fato novo. Conforme militar, um promotor Marcos Fernando teria falsificado a assinatura de um policial militar para dar continuidade numa investigação contra pessoas que inseridas numa investigação sobre tráfico de drogas ente Brasil e Bolívia. No entanto, segundo o cabo, os investigados não relação com o crime. No entanto houve solicitação do promotor, sem qualquer tipo ação preliminar para manter os grampos.

“Esse colega relatou que não via verossimilhança entre o objeto de investigação e as conversas captadas pelo sistema e sugeriu o fim das investigações, mas o promotor mandou prolongar as investigações”, declarou. 

“O promotor falsificou a assinatura do analista para continuar a investigação. Chegou à decisão judicial com a prorrogação da investigação. O interesse dele em acompanhar essas pessoas, é fato a ser investigado. Nós não sabemos por que ele queria grampear. Esse grave fato não foi investigado ao que tudo indica pelo MPE, não sei nem se é de conhecimento do órgão”, acrescentou.

Verba secreta

O cabo Gerson também falou sobre a chamada “verba secreta” do Gaeco. Ele voltou a afirmar o que já havia dito na tentativa de acordo delação premiada com o Ministério Público Estadual.  

Ao juiz, o militar narra que existem sobra de verbas que são apropriadas de forma fraudulenta desde a chegada do ex-procurador-geral de Justiça Paulo Prado ao comando do órgão.

“No Gaeco essas condutas, na verdade, se arrastam há muito tempo”, afirmou.

Entre os casos, de acordo com Gerson, uma assessora do coordenador do Gaeco, promotor Marco Aurélio, procurou militares para assinar prestação de contas retroativas. Um dos casos ocorreu com o coronel Evandro Lesco, que a época atuava no grupo. Ele teria prestado todas as contas e por isso o pedido causou estranheza.

O policial declarou ainda que a sobra da verba era depositada na conta de um promotor e usada caso houvesse novas operações. Entretanto, há relatos de que um promotor comprou cão com dinheiro da suposta verba secreta e outro usou a verba para consertar uma moto.

Irônico, o promotor Vinicius Gahyva que acompanha o caso perguntou qual a ração do cachorro. 

O militar comparou a verba secreta do Gaeco com a verba de suprimento da Assembleia, que resultou na operação Metástase, em 2015, onde os policiais encontraram no forro de um dos gabinetes da Assembleia diversas notas fiscais com os gastos da verba de suprimento que não eram declarados.

Quem teria usado a verba para consertar a motocicleta, segundo Gerson, foi o promotor Célio Wilson. Já o promotor Marcos Regenold comprado o cachorro, enquanto o ex-coordenador do Gaeco Marco Aurélio gastou com rastreadores.

Destruição de provas

Gerson Corrêa revelou também como destruiu  parte das provas referentes aos grampos ilegais. Ele narrou ao juiz Marcos Faleiros que “destruiu todos os HDs e jogou em um rio quando o esquema foi descoberto por Mauro Zaque, promotor de Justiça”.

“Queria um, mas não tenho. Joguei no rio todas as informações do alvo, nunca vão vir à tona, exceto alguns pen drives repassados ao Paulo Taques”.

O esquema foi encerrado em outubro de 2015, quando o Zaqueu mandou parar com as escutas porque tinham sido descobertos. 

“Depois disso fui incumbido de destruir as provas”, contou Gerson.

Depoimentos dos coronéis

No reinterrogatório de segunda, Zaqueu confirmou que Pedro Taques e seu primo, o ex-secretário-chefe da Casa Civil, Paulo Taques, teriam mandado grampear adversários políticos em 2014, com objetivo de elaborar estratégia durante a campanha eleitoral.  Naquele ano, Pedro Taques seria eleito governador.

Segundo ele, o esquema teria continuado após as eleições e foi assim que o grupo político de Pedro Taques soube que Janete Riva seria indicada para uma vaga de conselheiro  no TCE. A família Riva era um dos principais adversários políticos dos Taques (leia mais).

Já o coronel Lesco disse ao juiz Marcos Faleiros que o ex-procurador-geral de Justiça Paulo Prado, do Ministério Público Estadual (MPE), foi o responsável por doar duas placas eletrônicas, que compõem o sistema Wytron, usadas para grampear políticos, advogados, jornalistas durante o Governo Taques.  De acordo com Lesco, foi a partir dessas placas que o esquema de escutas ilegais começou no Estado (leia mais). 

O esquema

O esquema de grampos teria sido realizado entre o período eleitoral de 2014 e o final de 2016. A deputada estadual Janaina Riva (MDB), o advogado eleitoral José do Patrocínio, o desembargador aposentado José Ferreira Leite, o jornalista José Marcondes “Muvuca”, a publicitária Tatiana Sangalli, entre outros, tiveram seus números de telefone incluídos indevidamente em operações policiais.

RepórterMT

Cabo Gerson Corrêa

Cabo apontou em tentativa de acordo de delação premiada nove fatos novos que deve detalhar a Justiça nesta quarta.

Em depoimentos anteriores, o cabo Gerson Corrêa Júnior já havia confessado sua participação nas interceptações telefônicas ilegais e afirmado que o ex-secretário-chefe da Casa Civil e o então governador Pedro Taques (PSDB) seriam os “donos” do esquema. Gerson prestou vários depoimentos ao juiz Murilo Moura Mesquita, na 11ª Vara Militar de Cuiabá.

Gerson afirmou que foi convocado pelo coronel Zaqueu Barbosa, ex-comandante da Polícia Militar, para participar de um projeto que investigaria policiais militares com o intuito de “limpar” a instituição, em 2014. Logo depois, o coronel teria pedido ao cabo que o sistema fosse instalado em um local fora do prédio da PM, e Gerson então alugou uma sala comercial por R$ 1,2 mil.  

Em agosto daquele ano, o cabo afirmou que foi a Chapada dos Guimarães acompanhado do coronel Evandro Lesco para encontrar uma terceira pessoa. No local, Gerson e Lesco teriam se reunido com o então futuro secretário da Casa Civil, Paulo Taques, que à época trabalhava na campanha eleitoral do ainda candidato Pedro Taques. O objetivo seria descobrir possíveis escutas realizadas contra Pedro Taques a mando do ex-presidente da Assembleia Legislativa, José Riva, que tinha sua esposa, Janete Riva, concorrendo ao Governo do Estado.

De acordo com o depoimento do cabo, Paulo Taques ficou responsável por bancar todas as despesas das escutas telefônicas e entregou R$ 50 mil em um segundo encontro, realizado no bairro Consil, em Cuiabá.

O coronel Zaqueu teria fornecido os números a serem interceptados e em setembro de 2014 os grampos teriam tido início. O coronel teria informado a Gerson que o número do jornalista José Marcondes “Muvuca” teria de ser interceptado por ele ser uma ameaça ao então candidato Pedro Taques. O ex-vereador Chico 2000 e o advogado José do Patrocínio teriam sido interceptados com o objetivo de descobrir crimes eleitorais possivelmente cometidos por eles.

Os telefones da deputada Janaína Riva e da jornalista Larissa Malheiros também teriam sido incluídos nos grampos a pedido de Paulo Taques.

O cabo afirmou que nunca escutou os áudios colhidos e que repassava os arquivos ao coronel Zaqueu Barbosa. Na segunda remessa de números também teria sido incluído o telefone da publicitária Tatiane Sangalli, ex-amante de Paulo Taques.

O esquema, conhecido como “barriga de aluguel”, teria continuado até 2015, quando o coronel teria dado a ordem para sua interrupção. A razão seria a descoberta das escutas por parte do promotor Mauro Zaque, que era secretário de Segurança Pública à época.

Todas as declarações do cabo foram confirmadas por Zaqueu e Lesco.











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