12.10.2019 | 07h55


RELATO EMOCIONANTE

Minha sobrinha foi morta por um tiro de fuzil e espero que o culpado seja punido

A dona de casa Daniele Félix, 24 anos, estava em casa no dia 21 de setembro quando uma mensagem no grupo de WhatsApp da família contou que uma criança da comunidade onde viviam, o Complexo do Alemão, tinha sido baleada.



“Ágatha era muito esperta, alegre, estudiosa. E era criança mesmo, no sentido de brincar de boneca, essas coisinhas. Além de ser muito inocente. Brincava com os primos em casa, ia para escola, para o balé às quartas, para o inglês aos sábados e tinha bastante regras em casa. Adorava os animaizinhos dela: aqui tem gato, cachorro, calopsita e passarinho. Ela passava o dia com a minha mãe, porque o pai dela e a mãe dela iam trabalhar. E aqui (ela morava em cima da casa da minha mãe e eu moro no quintal), fazia o dever de casa e cuidava dos bichinhos dela, boatava água e comida, separava briga dos gatos e por aí vai.

 

Por gostar muito de animais, Ágatha falava que quando crescesse seria veterinária. Como gostava muito do balé, também dizia que ia ser bailarina. E modelo! Ela adorava tirar foto, fazer vídeo para o YouTube... Era uma menina cheia de sonhos.

Há duas semanas, ela não ia à aula de balé. A aula era na entrada do morro — não chegava a ser dentro, era em Inhaúma. E nas últimas duas quartas-feiras, teve tiroteio por causa de operações aqui. Ela fazia aula de noite, seis horas. A essa hora nem estava mais dando tiro. Mas, por segurança, a gente preferia não levá-la. Esses confrontos atrapalhavam também a escola, pois quando começavam, a gente não ia arriscar sair para estar no meio da rua com os tiros. Na dúvida, ninguém saía, ficava todo mundo dentro de casa.

Tenho dois filhos, um de três anos e o outro de seis. Os tiros são uma preocupação constante. Porque tem tiro praticamente todos os dias. Do nada. A gente não está esperando e acontece. Pode estar tudo bem, daí você sai para comprar um pão e, de repente, ocorre. Do mesmo jeito que foi com ela, que estava voltando de um passeio e veio um tiro que pegou nela. Foi uma coisa bem do nada.

Na sexta-feira, dia 20 de setembro, eu estava em casa. Já estava preparada para dormir, assistindo a novela. O meu filho mais novo é bem alérgico e o tempo não estava muito bom, por isso preferi não sair com meus dois filhos para lugar nenhum. Por volta de nove e meia, dez da noite, começou a circular no grupo de WhatsApp da família: ‘Uma criança foi baleada na comunidade.’ Todos ficamos meio espantados. Até então não sabíamos quem era. Minutos depois, um outro irmão meu bateu na porta do quarto e disse: ‘Dani, a criança que foi baleada é a Ágatha!’.

Na hora que eu soube que era ela, tive medo de acontecer o pior, porque já tinha visto a mesma situação com conhecidos. O meu maior medo era ocorrer o pior. Ao mesmo tempo, eu acreditava muito na possibilidade da bala ter batido na Kombi e ter perdido a força. Depois, quando soube que a mala da Kombi estava aberta, foi desesperador.

Meu irmão pegou os documentos e foi para o hospital. Eu troquei de roupa e fui em seguida também. Peguei um mototáxi e fui. Acho que não eram nem dez e meia da noite quando cheguei. Ficamos aguardando notícias lá fora. Havia outras pessoas lá, familiares da mãe dela, parentes daqui de casa — eu sou tia dela por parte de pai.

Logo a gente soube como tudo tinha acontecido. O motorista da Kombi, que era um conhecido nosso, foi ao hospital para ter notícias dela e nos contou. Desde o primeiro momento, acreditamos na palavra dele. Porque, se tivesse ocorrido algum confronto, nós saberíamos. Quem vive na comunidade sabe, o barulho do tiro lá dentro é muito alto. Acredito que se tivesse tido uma intensa troca de tiros lá embaixo, da minha casa eu conseguiria escutar. Mesmo que fosse do outro lado do morro. Um, dois tiros a gente não ouviria.

Eram mais ou menos duas da manhã quando um tio da mãe dela que é pastor e tinha conseguido entrar para ver a Ágatha saiu e falou com o avô dela. Da cadeira onde eu estava sentada na recepção do hospital, vi o avô dela chorando. Então, pela reação dele, entendi o que tinha se passado. Dali em diante foi só tristeza, desespero. Uma criança tão linda, acontecer uma coisa dessas!

Adegilson e Vanessa, meu irmão e minha cunhada, estão muito abalados. Desde o ocorrido, não voltaram para casa. Vanessa estava de férias, não sei se precisará de mais alguns dias para voltar. Meu irmão trabalha por conta própria, tem um comércio pequeno. Ele conseguiu abrir algumas vezes desde que mataram a Ágatha. Mas não está conseguindo ter a mesma rotina. E aqui também é muito difícil, porque minha mãe cuidava dela para eles poderem trabalhar. Para o meu filho de seis anos também está muito complicado. Ela tinha oito, ele seis, e eles eram criados no mesmo quintal, como se eles fossem irmãos.

A sensação de insegurança é total. Mais que nunca, vivemos pensando que a qualquer momento algo pode acontecer. Tento continuar tocando a vida, levando meu filho para escola — no futebol, que ele faz também, não levei ainda, mas pretendo voltar.

A gente vai tentando sobreviver, esperando não ser o próximo. E, do fundo do coração, a gente espera também que alguma coisa mude. Que os policiais que estão dentro da comunidade sejam psicologicamente preparados para lidar com ela, porque ela é não só isso que aparece na mídia. O Alemão é uma comunidade imensa, acho que tem 100 mil habitantes [segundo o último censo, de 2010, tem pouco menos de 70 mil]. E mais de 90% das pessoas são trabalhadores de bem que tentam levar sua vida em paz. Só que a polícia não nos trata apenas como moradores. Para eles, todo mundo é conivente com o tráfico. Então, para eles, a gente aqui não vale nada. Tanto que aconteceu o que aconteceu com a Ágatha, que ocorreu com outras pessoas aqui dentro e que se passa em outras comunidades. Porque a polícia simplesmente atira e ainda alega que foi atacada, que teve confronto ou que foi bala perdida. Simples assim. Eles atiram sem medo de punição.

Queremos ver os policiais presos, pagando pelo crime que eles cometerem. Nós acreditamos, sim, que tenha sido um policial, que tenha vindo da arma de um deles. Não sei se ele se assustou, ficou com medo, o que ocorreu com o atirador. Porém, ele tinha que ter a consciência de que, ao atirar, se algo assim acontece, tem que assumir. Não ficar falando que não foi ele, que teve confronto, que foi atacado, essas coisas que eles disseram. Não sei se ele tem filha, mas poderia pensar na filha dele também e, se tiver, não ficar inventando coisas para se safar. Eu espero justiça.  

A Polícia Civil está fazendo um trabalho muito bom. Acredito que vão solucionar o caso. Eles estão sendo muito atenciosos. Nada traz ela de volta, mas acho que deve ser um conforto para a gente pensar que pelo menos quem fez isso está pagando.”

Em nota, a Polícia Militar lamentou a morte de Ágatha. Segundo a PM, por volta das 22h, equipes da UPP Fazendinha foram atacadas em diversas localidades da comunidade ao mesmo tempo. Os policiais revidaram e houve confronto. De acordo com eles, após a troca de tiros, os policiais receberam a informação de que um morador havia sido baleado. Dois dos policiais já ouvidos pela polícia disseram que um homem na garupa de uma moto atirou contra eles.











COMENTÁRIOS

Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Repórter MT. Clique aqui para denunciar um comentário.

INFORME PUBLICITÁRIO

TV REPÓRTER