27.03.2011 | 11h31


Projeto ajuda agricultor a se adequar à legislação ambiental

GLOBO RURAL 10h30

O projeto Lucas do Rio Verde Legal tem mudado a rotina dos agricultores de Mato Grosso, uma das regiões que mais produzem grãos no país. A ideia é fazer com que as fazendas cumpram determinações da legislação ambiental. Além de soja, milho e algodão, os produtores estão plantando árvores nativas.

O objetivo é fazer com que as fazendas do município cumpram as determinações da legislação ambiental.

Esta história começou em uma viagem que o prefeito de Lucas do Rio Verde, Marino Franz, fez em 2005 à Europa. "Vimos a campanha liderada pelo Greenpeace no mercado europeu boicotando os produtos do estado do Mato Grosso, principalmente da nossa região, ligados à questão ambiental".

O município de Lucas do Rio Verde integra o médio-norte de Mato Grosso, uma região muito próspera, importante produtora de grãos. O prefeito, que também é agricultor e empresário, entendeu logo que uma campanha como a do Greenpeace, organização não governamental de prestígio internacional, não traria bons ventos.

Marino Franz passou a temer os estragos que um possível boicote aos produtos da região poderia causar e decidiu agir. "Ficou muito claro que nós deveríamos mudar o jeito de trabalhar. Não é só mudar o jeito, mas também mudar a imagem".

Lucas do Rio Verde é um daqueles municípios de colonização recente, que surgiram no rastro da abertura da BR-163, que liga Cuiabá a Santarém, no Pará. As primeiras famílias chegaram ao lugar no começo da década de 80, quase todas vindas da região Sul do país.

O lema era "Ocupar para não entregar". Grandes áreas de cerrado e floresta foram abertas. Não demorou e Lucas do Rio Verde ganhou importância na produção de soja, milho e algodão. Atualmente o município pratica uma agricultura de ponta, com alta produtividade.

Mas os tempos mudaram e junto com a fama de grande produtor veio também a de desmatador. Foi nesse cenário que nasceu, em 2006, o projeto "Lucas do Rio Verde Legal".

Com dinheiro da iniciativa privada, o projeto é fruto de uma parceria entre prefeitura, produtores rurais e a ONG norte-americana The Nature Conservancy, também chamada TNC. O objetivo central é ajudar o agricultor a regularizar sua propriedade e adequá-la à legislação ambiental.

"O produtor sem o licenciamento e sem a adequação ambiental da propriedade rural não atinge os mercados novos. Ele não consegue acesso a recursos e não consolida o próprio mercado do produto que está vendendo ou produzindo. É fundamental fazer isso hoje", diz Gina Timótheo, representante da TNC no estado em Mato Grosso.

Em princípio, todos os produtores foram convidados a cadastrar suas propriedades em um banco de dados da prefeitura. Com as informações em mãos e a ajuda de imagens de satélite, os técnicos do projeto mostravam ao agricultor as áreas degradadas das fazendas. O segundo pasos é ir a campo e demarcar as áreas, principalmente as Áreas de Preservação Permanente, chamadas APPs, que ficam principalmente em beiras de rios e nascentes. É a mata ciliar, que protege as águas.

A primeira estaca cravada em Lucas do Rio Verde está na propriedade do agricultor Hilário Piccini, que hoje já está com as APPs bem recuperadas. Quem o convenceu a entrar para o projeto foi Luciane Coppetti, que na época era Secretária de Agricultura e Meio Ambiente do município. Hoje, ela é coordenadora de projetos da TNC.

"Não foi difícil convencer o homem. Eu acho que o mais importante do projeto todo é mostrar ao produtor como a legislação deve ser cumprida. Então, nada mais é do que aplicar a legislação na propriedade. O seu Hilário foi prontamente adepto à ideia e acabou isolando suas áreas", explica Luciane.

O fazendeiro conta que demorou um pouco para entender o processo. "Eu fiquei meio receoso. Fiquei meio ressabiado dessas ONGs. Tem que se cuidar um pouco. Tem muita falta de informação. Então, parece um bicho de sete cabeças. Essas ONGS vem aí pra atrapalhar, mas, felizmente, a TNC ajudou. Orientou a dizer onde tinha problema das áreas, e mostrou e mapeou".

Hoje o município de Lucas do Rio Verde se orgulha de ter todo o território mapeado. As imagens de satélite mostram com precisão cada cantinho que tem de ser recuperado. A realidade, muitas vezes, surpreende.

Foi o que aconteceu com o agricultor Clovis Cortezia, que descobriu que para recompor a mata ciliar da sua propriedade teria que reflorestar 24 dos cinco mil hectares onde cultiva soja, milho e algodão.

"Ninguém gosta de escutar que está errado. Tem certa rejeição. Mas quando você é obrigado a escutar e vê que está errado, tem que corrigir. O produtor sempre tinha esse receio de que não gostava nem de falar. Hoje Lucas do Rio Verde percebe que o produtor está muito consciente", diz Cortezia.

O agricultor gastou para plantar as mudas de árvores nativas e ainda deixou de ganhar com a área reflorestada, mas acha que valeu a pena. "Todo mundo falava que nós acabávamos com a floresta. Hoje, as pessoas que vem de fora nos veem com outros olhos. Ela vem ver e copiar como é feito. Isso é muito prazeroso para nós".

O cadastramento de 100% dos produtores e o mapeamento de toda a área do município é um feito inédito no Brasil, segundo a ONG que cuida do projeto.

"Nenhum município tem as informações que a gente tem. Nós sabemos quem está, qual é o produtor rural, quem é a família que ali está, quantas pessoas são, o que produz, quanto produz, e, principalmente, qual a vegetação remanescente em cada propriedade. Ou seja, um relatório completo de cada propriedade rural, dos 363 mil hectares de Lucas do Rio Verde", explica a coordenadora do TNC.

O trabalho possibilita um retrato muito preciso do município. Hoje sabe-se que quase 70% da área total de Lucas do Rio Verde já foi explorada. Os outros 30% são de vegetação nativa remanescente.

Lucas do Rio Verde tem 754 nascentes e um curso d'água de 2.077 quilômetros. O município tem pouco mais de 24 mil hectares de Área de Preservação Permanente. Destes, quase cinco mil hectares estavam degradados. Depois do projeto, cerca de 60% dessas APPs já se encontram recuperadas ou em processo de recuperação.

"O objetivo maior é a conservação da água. Nós avaliamos como extremamente positivo", avalia Luciane. Os esforços continuam. O município quer a regularização de todas as propriedades para, no futuro, buscar algum tipo de certificação.

"O projeto Lucas do Rio Verde Legal dará condições aos agricultores de acessar os mercados internacionais, certificando a produção com sustentabilidade. Esse é o grande diferencial que buscamos", diz Eduardo Pascoski, secretário municipal de Agricultura e Meio Ambiente.

O projeto Lucas do Rio Verde Legal deu resultados tão bons que outros municípios decidiram seguir pelo mesmo caminho.

Há muitas iniciativas, mas nem todas ligadas a TNC. Sob os cuidados da ONG estão sete municípios no Pará e outros 11 em Mato Grosso. Dentre eles, Sorriso, o maior produtor de soja do país.

 











COMENTÁRIOS

Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Repórter MT. Clique aqui para denunciar um comentário.

INFORME PUBLICITÁRIO

TV REPÓRTER