27.02.2017 | 12h00


DESVIOS NA ASSEMBLEIA

Ex-servidora revela empréstimos em nome de 'laranjas' no Banco Real

MPE aponta que o dinheiro de 2 dos 166 empréstimos consignados feitos pela Assembleia junto ao Banco Real, em 2001, beneficiaram então coordenador financeiro da AL.


DA REDAÇÃO

O depoimento da servidora aposentada da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) Maria da Glória Garcia, é uma das 166 pessoas que teriam sido “usadas” pelo grupo criminoso, supostamente liderado pelos ex-deputados José Riva e Humberto Bosaipo, no esquema de empréstimos consignados junto ao Banco Real, em 2001, o que gerou um desvio de R$ 3,7 milhões.

“Me chamaram para endossar um cheque, eu fui, endossei e entreguei. O valor eu não me recordo. Deixei lá, o que eles fizeram eu não sei”, disse a servidora aposentada.

Ela é irmã do ex-chefe do setor financeiro da Assembleia, Guilherme Garcia.

Durante audiência de instrução e julgamento da Operação Arca de Noé, na tarde desta quarta-feira (22), a servidora aposentada relatou que, em 2001, estava com vários salários atrasados e fez o empréstimo consignado sob orientação do setor de Recursos Humanos, cujo responsável era Agenor Clivatti, réu em ação separada.

No entanto, mesmo o empréstimo sendo para pagar salários atrasados, Maria da Glória endossou o cheque e entregou para Clivatti, a pedido deste, o que ela não soube explicar ao promotor Sérgio Costa.

“Me chamaram para endossar um cheque, eu fui, endossei e entreguei. O valor eu não me recordo. Deixei lá, o que eles fizeram eu não sei”, disse.

Maria da Glória afirmou que nunca recebeu qualquer valor do empréstimo e que também não teve nada descontado de sua contão.

"Só com ela, a gente prova a existência de dois financiamentos do banco Real que nunca existiram na realidade, era apenas uma simulação”, explicou o promotor de Justiça.

Em seguida, o promotor perguntou por que um cheque no valor de R$ 17 mil foi depositado na conta dela naquela época, por José Lopes de Moraes Filho. Ela disse não conhecer esse senhor, mas, em outro depoimento prestado por ela mesma ao Ministério Público, em 2003, ela disse que a única explicação para o depósito é que ela fez empréstimo para o irmão dela, Guilherme Garcia.

Na audiência da tarde desta quarta-feira (22), Maria da Glória disse que não se recorda da transação, mas reconheceu as assinaturas nos documentos mostrados a ela pelo promotor.

“Além dela ter o nome usado indevidamente para fazer um desses empréstimos que nunca existiram, ela também teve a conta usada para outro cheque de outro servidor, ou seja, ela ‘emprestou’ R$ 17 mil do banco Real, endossou o cheque e esse cheque foi parar na mão não se sabe de quem e ela também teve a conta dela usada para outros R$ 17 mil, que é de empréstimo de outro servidor. Só com ela, a gente prova a existência de dois financiamentos do banco Real que nunca existiram na realidade, era apenas uma simulação”, explicou o promotor de Justiça ao , afirmando que os valores teriam beneficiado o irmão da testemunha, que seria membro do grupo criminoso.

Dinheiro serviu para compra de carros

Outro ex-servidor, apontado como membro do esquema na Assembleia, que teria se beneficiado com os empréstimos fraudulentos é Juracy Brito.

Em depoimento prestado nesta quarta-feira (22) pelo dono da loja de automóveis D’Ângelo, Herbert Becker, um cheque administrativo do Banco Real, cuja depositária era servidora da Assembleia Legislativa, foi parar em sua conta, mas ambos nunca teriam feito negócio ou sequer se conheciam.  

No entanto, Becker afirmou que o ex-servidor Juracy Brito, réu no esquema da Arca de Noé, efetuou, em 2001, a compra de três veículos em sua loja, dos quais ele se recorda de um VW Gol e de um Ômega. Becker afirma que o tal cheque teria origem dessa venda.

O depoimento do dono da loja de automóveis vai de encontro com as declarações do ex-gerente do Banco Real, Célio Carlos dos Santos, que disse que nem todos muitos servidores que contrataram os empréstimos consignados alvo da investigação foram até a agência para descontar os cheques administrativos. Ele acredita que muitos distribuíram tais cheques no mercado, conforme já foi apresentado por outras testemunhas da ação penal.  

Movimentações suspeitas

De acordo com o depoimento de uma ex-tesoureira do Banco Real ao Ministério Público, na época dos fatos apurados, havia um casal que, frequentemente, se dirigia até uma agência na Avenida Getúlio Vargas, em Cuiabá, com cheques endossados pelos beneficiários dos empréstimos e fazia os descontos na boca do caixa.

Isso teria ocorrido diversas vezes até que um cliente do Banco no Tocantins se viu vítima de estelionato por parte do esquema criminoso da Assembleia e denunciou o caso, trazendo à tona a Operação Arca de Noé.   

Sob questionamento do promotor Sérgio Costa, o ex-gerente Célio Carlos ainda negou que tenham aparecido cheques de José Riva e Humberto Bosaipo nas transações, mas afirmou que ambos fizeram empréstimos consignados, um como avalista do outro. 











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