18.05.2019 | 07h55


ALECY ALVES

Maternidade

Maternidade não é um mar de rosas.

Minha mãe, Alzira, não foi aquela doçura, tipo aquelas mães que enchem os filhos de beijos e diz o tempo todo o quanto os ama. Por algum tempo eu até senti falta daquela doçura descrita nos textos dos livros sobre maternidade e nas poesias assinados especialmente pelos pais. Era dura e exigente. 

Mas o brilho dos olhos nos fitando e o sorriso, gargalhadas, que nos dirigia ou dava junto com os filhos eram o seu manifestar, principais sinais de amor, de aprovação das nossas atitudes. 

Retirante nordestina que saiu de seu estado natal, Bahia, fugindo da violência paterna, ela chegou em Mato Grosso ao lado da mãe, de dois irmãos e dos avós e tios maternos. 

A mãe dela, grávida de quase sete meses, havia sobrevivido a uma tentativa de homicídio praticada pelo marido, o avô que nem conheci. O crime levou ao nascimento de uma criança com deficiências múltiplas – intelectual e física. 

Já em Mato Grosso, casada e com um filho recém-nascido, minha mãe ficou órfã. A mãe dela morreu no parto. Além de dor, essa morte trágica a impôs a responsabilidade de ajudar a cuidar do irmão deficiente e dos outros que nasceram do segundo casamento da mãe. 

Como milhares de mães que viveram e vivem Brasil afora, dona Alzira teve uma vida dura. Pariu e criou 12 filhos. Não teve tempo para ela mesma. Enquanto preparava o café da manhã já estava pensando no que fazer de almoço, no lanche da tarde, no jantar, no banho, na montanha de roupa que tinha para lavar, no remédio que teria de administrar, no chá da dor de barriga... Ufa! Cansei! 

Não sei como, mas ela e tantas mães conseguem. Guerreira! É assim que a tenho. O dicionário informal atribui a essa palavra o seguinte significado: "pessoa forte e capaz, aquela que não desiste e vence os desafios". Mãe é bem isso, ninguém melhor que elas representariam essa palavra. Mesmo porque, até na guerra propriamente dita há rendição, representada pela bandeira branca erguida pelo adversário. 

É importante ter um grande homem, um guerreiro, ao lado da mulher dividindo as atribuições de criar filhos. Minha mãe teve e eu tenho. Dividindo mesmo, sem essa história de ajudar a mulher. Só há duas coisas que o homem não pode fazer: parir e amamentar nos seios. 

Pelo exemplo de maternidade eu poderia ser uma mãe doce e permissiva, daqueles que idolatram e passa a mão na cabeça mesmo quando estão errados. Ou a mãe durona, que acha que quando o filho acerta, faz algo bom, não fez mais que obrigação. 

Preferi o meio termo. Não sei dizer se a palavra certa é preferi, mas acho que me tornei uma mãe que exige, porém acolhe, admira, ensina pelo exemplo e, principalmente se orgulha por ter contribuido para a formação de seres humanos cujas atitudes se sustentam mais no Ser do que no Ter. 

Maternidade não é um mar de rosas. É mais responsabilidades que louros, mas vale muito cada dor, preocupação, sobressalto, noite sem dormir... Faria tudo de novo e não trocaria o que construí como mãe por nada, nem o prêmio acumulado da Mega Sena. Com os três que tive, certeza que de 12 não daria conta. 

Alecy Pereira Alves é jornalista e estudante de Assistência Social 

Os artigos assinados são de responsabilidade do autor, não apresentando, portanto, a opinião do site ReporterMT.











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