28.02.2012 | 16h03


WILSON CARLOS FUÁ

A luta contra o câncer; "Adeus irmão Altair, ou Lau..."



Existem pessoas de luz que passam por está existência, e nos deixam exemplos de vida,  depois da sua passagem, as pessoas vêem e contam histórias maravilhosas  citando  sementes de bondade, ou ações em forma de caridade que eles fizeram, quantas vezes suas mãos foram estendidas em forma de ajuda, em forma de doação, em  forma de amizade e em forma de amor.

Ele já tinha construído sua obra, mas continuava a distribuir luz e esbanjar uma vontade de viver, ele gostava muito da vida. Acordar para ele era como comemorar a existência, ele tinha muita pressa, parece até que o seu subconsciente estava a lhe passar, que seu tempo aqui na terra estava chegando ao fim.

Mas em 2010, veio o diagnóstico, o médico confirma na sua cara, o que o seu espírito já sabia: você tem um tumor maligno.

Ele como um forte recebeu o diagnóstico, com a mesma serenidade e tranqüilidade de um monge que sabe enfrentar a morte, não teve depressão e não chorou,  apenas sorriu do seu acompanhante que passou mal.

Não quis saber se era câncer do tipo 1, ou 2 ou 3, ou 4. Tumor linfático, alojado no pescoço, aceitou como um lutador que não mede o poder do adversário.  Começou o tratamento, de 21 a 21 dias, ele viu  aquele veneno entrando nas suas veias, até torná-la totalmente escura. A quimioterapia mata o mal específico e também parte da resistência  do próprio corpo, tem um efeito devastador, trás o pior mal estar que um ser vivo possa ter. Às vezes, as dúvidas quanto à própria capacidade de resistência é que leva a baixa da auto-estima,  e que também levam à depressão e o começo da mendicância pela vida.

A partir do diagnóstico a pessoa passa a ser um dependente, na primeira aplicação da quimioterapia faz do paciente um dependente. A ânsia de vômito, o enjôo através do cheiro, todo o sabor vira dissabor,  o alimento que nos dá vida fica em último plano, parece que a morte aproxima rapidamente anulando todo prazer pelo amanhã, começa a irritação com tudo que está em volta: o canto de um passarinho, o latir do cachorro do vizinho, as conversas altas e as vezes até as visitas com perguntas inconvenientes.

Li uma história, de uma pessoa que por não querer depender de ninguém, foi tomar a 1ª quimioterapia sem acompanhante, e ao sair desacompanhada do hospital, sentindo a ânsia de vomito, parou o carro no meio-fio e ficou a vomitar, uma médica passava ao ver aquela cena, disse-lhe: porque você não vem com um amigo para ajudá-la. E ela disse: os meus amigos não são médicos ou enfermeiros.

Mas a médica passou a ela a seguinte reflexão: quando você era pequenininha, e machucava o seu dedinho, quem lhe socorria era sua mãe, ela aplicava apenas um beijinho no dodói, e as suas dores desapareciam, porque você estava recebendo uma grande aplicação do remédio  do amor, e o amor cura.

Deus coloca em nossas vidas sempre as pessoas que possa  nos socorrer,  às vezes aparece pela vida, um verdadeiro filho, com o nome de Tercinho que pode dar o amparo a um pai sem um filho verdadeiro.

No transcorrer do tratamento, as dores, o mal estar permanente, a invasão de sua privacidade, na dependência para se fazer as necessidades  míninas, expor a sua nudez aos olhos de pessoas que você nunca viu, lavar o corpo mal lavado, e ficar retraído ao abraçar as pessoas por estar com um mau cheiro escondido, mas o que mais o doente   necessita é um abraço, um aperto de mão ou uma palavra amiga: “Você vai sair dessa” ou “Você é forte, vai vencer mais essa”.

Vendo o seu corpo apodrecer, as feridas tomando conta do seu corpo, logo o doente começa a sentir a aproximação da morte, e nesses momentos é que o paciente mais precisa  de carinho, de compreensão e de amor. É chegado o momento mais difícil que é passar para as pessoas de confiança, o que vai ser da sua família sem você. Apesar de deixar a família amparada com vários patrimônios, um seguro de vida, todas as dívidas pagas, o que fica mesmo é a dor da despedida.

Não interessa programar o funeral, pois você não estará lá para receber as críticas ou receber os convidados, ou saber quem foi ou quem faltou, nada disso lhe  interessa,  ficará apenas  o vazio de uma presença que se foi e o fim de um corpo, ou apenas  um nome que fica, o Altair Soares da Silva no RG, ou Lau para os parentes e amigo, Tuque para nós os irmãos e para a mulher amada “meu preto”, e o mais importante de tudo é que fica uma história de um homem sem nódoa, um exemplo de vida, e no seu livro da vida estará escrito para sempre várias páginas de alguém que distribuiu humildade e passou para aquele que mereceram o seu convívio, grandes momentos de felicidades.

Tenho certeza que antes de partir, já em espírito, despediu de cada dos irmãos, visitou  cada casa dos amigos e abençoou sua família, e deve ter ido visitar o seu sítio maravilhoso que ele amava tanto, subiu a Serra de Acorizal,  passou pelo  córrego, andou pela varanda, quartos da casa,  e olhou  os animais, deu um abraço no amigo e caseiro. Depois pegou nas mãos de Santa Barbara e saiu voando em busca do Pai eterno, seu cachorrinho Ciborg foi bem à frente abrindo passagem (como num cortejo final), e antes de partir na última viagem em busca do  Altíssimo, e ele deu um sobrevôo planando sobre a Serra e Matas, depois subiu, subiu,  até sumir nas nuvens.

Adeus irmão Altair, ou Lau,  ou Tuque,  fique com Deus.

Economista Wilson Carlos Fuá – É Especialista em Administração Financeira e Recursos Humanos
Fale com o Autor:  fuacba@hotmail.com
 

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(3) COMENTÁRIOS

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a  01.03.12 09h03
Embora triste o artigo, nele contém uma verdadeira historia de vida, que deus nos abençoe.

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Izi   29.02.12 09h02
Penso que a verdadeira felicidade vem da humildade e do reconhecimento que sozinhos somos muito pouco ou quase nada, e a vida somente se completa com o real sentimento de amor ao próximo. Acredito que essa é a mensagem que este artigo passa e que o mundo poderia tbem.

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Mari  29.02.12 08h02
que homenagem linda...que mensagem maravilhosa..embora triste...mais uma lição de vida...já para muitos quando recebem um diagnóstico de "resfriado"... pensa que o mundo vai acabar...Deus não prometeu uma vida sem obstáculos, porém a forma que encararmos os problemas é que faz a diferença...e seu irmão com certeza foi um guerreiro..a família que ele ganhou aqui, foi um presente de Deus na vida dele!

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