09.06.2019 | 10h18


SAÚDE DO BEBÊ

Uso prolongado de chupeta pode até estimular vícios

As chupetas ainda são consideradas potenciais reservatórios de infecção, podendo afetar o sistema imunológico da criança.



A chupeta causa polêmicas na criação das crianças e, para muitos, ainda é motivo de dúvidas. De um lado, pais desejam acalmar seus filhos na correria do dia a dia e, de outro, pediatras e dentistas enfatizam a lista de malefícios do bico de plástico. Entre eles, até a compulsão alimentar e vício em cigarro na fase adulta.

Para acirrar ainda mais a discussão, a AAP (Academia Americana de Pediatria) indica, a partir do 1o mês de vida, a chupeta na hora de dormir, baseada em pesquisas que mostram que o seu uso seria capaz de reduzir em até 90% o número de mortes súbitas --quando um bebê saudável morre repentinamente, sem muita explicação.

Mesmo com a recomendação, a AAP informa também sobre o risco dos efeitos colaterais sobre a amamentação e a dentição e que o uso deve ser iniciado após a mamada estar bem estabelecida. Já SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) e a OMS (Organização Mundial da Saúde) não recomendam a chupeta.

"A decisão final é sempre dos pais e a nossa intenção não é julgar, mas é papel do pediatra informar que a chupeta é o principal responsável pelo desmame precoce em crianças abaixo de seis meses, além de alertar sobre os inúmeros prejuízos causados pelo seu uso prolongado a curto, médio e longo prazo", diz o pediatra Moises Chencinski, do Departamento de Aleitamento Materno da SBP.

Outros prejuízos, além de prejudicar a amamentação

Um estudo publicado em 2009 pelo periódico científico BMC Pediatrics afirma que a chupeta atrapalha a imitação dos sons e pode provocar trocas articulatórias na linguagem. De acordo com a SBP, ainda há uma ocorrência 33% maior de otite média nas crianças menores de 18 meses que utilizam chupeta.

As chupetas ainda são consideradas potenciais reservatórios de infecção, podendo afetar o sistema imunológico da criança. Seu uso está associado com maior incidência da doença diarreica, aftas e candidíase oral. Além disso, o uso prolongado da chupeta, principalmente após os dois anos de idade, provoca modificações esqueléticas, causando problemas como mordida cruzada e mordida aberta.

"A chupeta não só entorta os dentes como deforma os ossos da boca. Ela faz pressão no céu da boca, empurrando os ossos para cima e para frente e ainda atrapalha a posição de repouso da língua. Aos 3 ou 4 anos, a criança vai precisar de aparelho e, sem ele, a situação só piora na fase adulta", alerta o odontopediatra Gabriel Politano, diretor do departamento de odontologia para gestantes e neonatos da Aboped (Associação Brasileira de Odontopediatria).

Em longo prazo pode estimular vícios orais

O uso prolongado da chupeta durante a infância pode ser substituído ao longo da vida por fumar, comer excessivamente ou outros transtornos compulsivos. A criança irritada fica calma com o bico de plástico, já o adulto nervoso fuma para aliviar a tensão.

Estudo recente constatou que o uso prolongado (mais de 24 meses) de chupeta na infância pode favorecer o início do uso do cigarro na adolescência. Essa relação pode ser explicada em função dos mecanismos de introdução do hábito de usar chupeta e de fumar serem bastante semelhantes: ambos são mecanismos externos utilizados, em geral, com o intuito de acalmar.

"A chupeta causa, inclusive, dependência física na criança. É como se fosse um objeto de transição, só que prejudicial. Excessos cometidos na fase oral (fase em que os bebês usam a boca para descobrir o mundo e buscar o prazer) são repercutidos tardiamente. O adulto que chupou chupeta em excesso e por tempo prolongado tende a descontar a tensão no cigarro e na comida", explica o pediatra Moises Chencinski.

Afeta até a parte cognitiva da criança

Outro ponto é a inteligência. Segundo um estudo divulgado pela SBP, os usuários de chupeta apresentaram desempenho 16% menor em testes de inteligência na vida adulta do que os que não usaram a chupeta na infância. A explicação está na satisfação que a chupeta proporciona. Sem ela na boca, os bebês são mais curiosos e tendem a ser mais estimulados.

"A criança só tem a ganhar sem uma chupeta na boca", afirma a pediatra Daniela Tulio Dias Tescari, consultora de amamentação pelo IBCLC (International Board Certified of Lactation Consultant). Segundo ela, o bebê sem chupeta fica mais estimulado e curioso, portanto mais inteligente. Com a chupeta na boca, ele tende a ficar satisfeito e procurar menos estímulos para conhecer o mundo.

Como minimizar, então, os efeitos da chupeta?

Sucção é um reflexo primitivo do bebê e que deve ser saciado, primordialmente, com o seio da mãe. A partir dos 6 meses, a criança reduz a necessidade de sucção por causa da introdução dos alimentos, necessitando cada vez menos da chupeta para se acalmar. Mesmo assim, se optar pelo uso do bico, Gabriel Politano e Moises Chencinski dão dicas de como reduzir os danos:

Evitá-la, principalmente, no primeiro mês de vida. Porém, o ideal é não oferecer; Tirar o quanto antes para minimizar os prejuízos. De preferência até 1 ano de idade ou, no máximo, 2 anos;Usar com moderação. Apenas para dormir e tirar da boca assim que o bebê adormecer. Dar apenas em situações de grande irritação; Preferir bicos ortodônticos, pois sua inclinação posiciona melhor a língua; Deve ter bico de silicone (menos poroso) e não de látex, já que suportam mais esterilizações sem deformar. Além disso, o escudo da chupeta deve ser furadinho, segundo a Associação Brasileira de Normas Técnicas, para evitar asfixia caso a criança o engula; Nada de comprar duas ou mais chupetas e muito menos prendê-las em fraldas ou correntes, pois só estimula o uso e ainda provoca acidentes, como asfixia;Chupetas com pedrinhas brilhantes ou outros recursos chamativos como brilhar no escuro são desaconselhados, para não estimular o uso.











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