12.09.2019 | 09h29


RELATO

Perdi minha perna direita por tomar anticoncepcional

A artesã mineira, Lydyany Palladino Furbino, de 42 anos, tomou anticoncepcional oral desde os 17 e, duas décadas depois, teve uma trombose intensa que quase a levou a morte e ocasionou na amputação da sua perna direita



“Comecei a tomar anticoncepcional oral [Microvilar] aos 17 anos e, nas duas décadas seguintes, segui usando sem interrupções. Também fumo desde os 20 anos, um maço de cigarro por dia. Me casei aos 18 anos e, em 1998, tive minha primeira filha, Michelle. O pai dela e eu ficamos casados por cinco anos e nos separamos por excesso de ciúmes [dele] e por oposição religiosa. Lara, minha segunda filha, nasceu em 2009. 

Em abril de 2014, deixei minha cidade, Coronel Fabriciano, em Minas Gerais, e me mudei para São Paulo em busca de melhores oportunidades de trabalho. Na época, trabalhava como cabeleireira e também vendia roupas. Minhas filhas tinham 5 e 16 anos e as deixei com minha mãe em Minas. Fazia 20 dias que estava em São Paulo, quando comecei a sentir uma forte dor no pé direito. Fui ao hospital público mais próximo e, chegando lá, fui diagnosticada com trombose aguda. A cada minuto, a dor piorava e, em pouco tempo, eu gritava de desespero. Chorava dia e noite, sem parar.

Foi então que os médicos me alertaram para o uso do anticoncepcional, falando como se o medicamento fosse uma droga pesada. Não entendi muito bem o que eles queriam dizer, até porque não conseguia me concentrar em nada que não fosse a minha dor. Pouco tempo depois, meu pé ficou gelado: ele estava 'morrendo'. Fiquei apavorada! As enfermeiras me deram morfina, único medicamento que aliviava a dor. O próximo passo, foi a necrose: meu pé ficou inteiramente preto. Entrei em choque.

Meu estado de saúde estava muito delicado. Quase morri. Tomei mais de 100 injeções na barriga. Acompanhei os médicos tentarem salvar minha perna, mas não teve jeito. Em 2 de maio de 2014, os médicos me disseram que ela teria de ser amputada abaixo do joelho. Chorei por horas a fio. Estava desolada. Eu tinha só 37 anos, estava cheia de vida e ainda tinha duas filhas menores de idade para criar. Tive medo de ficar inválida para sempre. Minha irmã e minha prima estavam comigo naquele momento e me deram muita força e coragem para enfrentar a situação.

A cirurgia de retirada da perna foi realizada naquele mesmo dia. Só eu e Deus sabemos como sofri e o que passei no hospital após essa amputação. Os médicos chegaram a conclusão que, de fato, o que levou a trombose foi o uso ininterrupto do anticoncepcional oral junto ao fato de ter sido fumante por 18 anos. Cinco meses antes da amputação, eu tinha parado de vez de fumar e nunca mais coloquei um cigarro na boca. Mas o mal já estava feito. Se as mulheres soubesse como o anticoncepcional pode ser um veneno, escolheriam outra forma de prevenção.

Dois meses depois, meus amigos e familiares fizeram uma campanha na internet e conseguiram comprar minha prótese. Me adaptei muito rápido. Em 2016, acabei engravidando do meu namorado na época e tive uma gestação de alto risco. Comecei a tomar inúmeras injeções novamente, um verdadeiro martírio! Felizmente, correu tudo bem. Meu bebê, Anthony, nasceu três anos após eu amputar a perna, exatamente na mesma data. Ele é lindo: loirinho e muito fofo!

Após seu nascimento, a médica veio me dizer que ele tinha Síndrome de Down e, ao contrário do que ela esperava, reagi com muito tranquilidade, dizendo: ‘Doutora, em 2014, amputaram minha perna devido ao uso do anticoncepcional. O que meu filho tem não é nada perto do que passei’. Hoje, Anthony, tem 2 anos e é um menino muito esperto, amável e veio para iluminar as nossas vidas.
Atualmente, trabalho como artesã, fazendo roupas de crochê. Levo uma vida normal dentro do posível: arrumo minha casa, cozinho e cuido sozinha dos meus três filhos. Sou totalmente independente. A única coisa que não consigo fazer, e parte o meu coração, é carregar meu filho no colo, porque tenho receio de cair.

Depois de tudo que passei, dou um valor danado à vida. Não reclamo de nada! Sempre que posso, alerto outras mulheres sobre o perigo do uso contínuo de anticoncepcional, principalmente às fumantes. Meu desejo é que toda a minha história e minha luta sirvam de alerta a outras."











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