19.09.2019 | 09h45


ALIMENTAÇÃO

Estressadas, as pessoas passam a comer mais gordura

Tem mais: a comida muito gordurosa, por si só, eleva a quantidade de substâncias inflamatórias no organismo.



O que o estresse faz de maldade com o coração não tem precedentes. O excesso de cortisol, entre outras substâncias que esse estado derrama na circulação,  é um bullying constante aos vasos sanguíneos, que se acuam, ficando contraídos. E, quando esse aperto acontece, já sabe: a pressão vai parar lá no alto. Mas muita coisa pode piorar a vida de um hipertenso, além do próprio nervosismo. A alimentação desequilibrada é uma delas. E aí você vai apostar, como eu, que tascar sal na comida seria o único problema, certo? Não é bem assim.

De fato, o excesso de sódio na dieta é de lascar. Mas, esmiuçando o prato de pacientes com pressão alta, pesquisadores do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul notaram um outro ingrediente que pesa demais — ou até mais — quando os indivíduos estão estressados. Não, não pense no açúcar em exagero, nem sequer nos ultraprocessados — os quais, concordo, merecem mesmo ficar na berlinda. Durante períodos de estresse, o que as pessoas fazem é comer mais gordura. Dá-lhes petiscos com cara de botequim, frituras no prato principal, óleo a ponto de acabar com o barato da mais saudável das saladas, uma montanha de manteiga ou margarina no pão, receitas que capricham em cremes e natas.

Parece que é desse jeito, esbaldando-se em banha e companhia, que elas enfrentam suas crises. Nem os profissionais de saúde tinham tanta clareza disso até o momento. Coordenadora de Nutrição do Ambulatório de Hipertensão do instituto gaúcho, Aline Lopes Dalmazo vinha reparando que o estresse mudava o padrão alimentar dos pacientes. "Muitos deles, além de sedentários, já são indivíduos com sobrepeso e obesidade. Será que daria simplesmente para eu me contentar em dizer que, estressados, eles tendem a fazer escolhas alimentares erradas? Acho que não", me disse a nutricionista.

Ela e seus colegas decidiram conhecer a fundo o que estava se passando. Ora, sem conhecer onde o bicho estaria pegando, fariam mais uma campanha genérica, daquelas que mal tocam no ponto. Uma surpresa veio logo no primeiro momento da investigação: "Procurei o que havia de pesquisa sobre estresse e consumo alimentar e, para meu espanto, achei muito pouco. Detalhe: em geral, eram trabalhos antigos", contou a nutricionista. Ou seja, eu, ela, você, todo mundo até tem a intuição de que as pessoas não comem direito quando estão estressadas, mas pouco se sabe sobre o que escolhem colocar no prato no meio do seu turbilhão emocional.

O ambulatório onde Aline atua é um lugar diferente desde seu surgimento, em 1996. Todo paciente do SUS que chega ali, geralmente encaminhado com uma pressão arterial na estratosfera, é acompanhado durante um ano inteiro passando, a cada dois meses, por uma consulta que, na verdade, é uma maratona: cada indivíduo é atendido por um enfermeiro,  um médico, um nutricionista, um psicólogo, um fisioterapeuta… O propósito é mudar hábitos e tratar a hipertensão de um modo não farmacológico. Claro, às vezes os remédios para domá-la são indispensáveis e, aí, o trabalho do grupo é também no sentido de ajudar na adesão ao tratamento, para que o paciente não deixe de engoli-los. Infelizmente, , o abandono da medicação (e dos bons hábitos) é comum, já que a pressão nos píncaros não dói,  nem nada. Age silenciosamente no corpo.

A equipe avaliou o número redondo de 100 pacientes com idade média de 55 anos.  Todos  com a pressão estourando, acima de 18 por 9.  Os psicólogos do ambulatório aplicaram um teste que já é considerado um clássico nos meios de saúde, avaliando tanto sintomas como ansiedade e angústia até sinais físicos, como dores pelo corpo. Resultado: só 14 pessoas pareciam livres do estresse. As outras 86… Pior: 57 participantes estavam em uma faixa de estresse considerada resistente, quando o organismo continua reagindo nas 24 horas do dia como se estivesse diante de uma ameaça, mesmo que ao seu redor esteja tudo mais ou menos em ordem. "Essa gente está a um pulinho do que chamamos de pré-exaustão", define Aline.

E então veio a pergunta: mas o que exatamente essas pessoas estariam comendo? "Analisamos o que estavam ingerindo, dividindo os alimentos em ricos em carboidratos ou em gorduras ou, ainda, em proteínas, sem contar alimentos in natura e ultraprocessados", explica Aline Dalmazo. Estranhei, confesso, a divisão, porque alguns alimentos ultraprocessados também são gordurosos. Então entendi que, no estudo, os cientistas focaram mais em temperos prontos e outros itens ricos em sódio nas gôndolas dos ultraprocessados. Já por alimentação rica em gordura, os pesquisadores entenderam aquele óleo, manteiga e creme de leite, entre outros, que usamos nas receitas.

"No final,  notamos uma forte associação entre os sintomas psicológicos de estresse e o consumo maior desse tipo comida gordurosa, mais do que de carboidratos ou até mesmo de ultraprocessados", resume Aline. Atenção: não significa que esse tipo de comida não é consumida em excesso pelos hipertensos. O que o resultado aponta —  e ele acaba de ser publicado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia — é que as pessoas aumentam ainda mais as porções de gordura quando se sentem estressadas.

"É claro que a gente precisa de mais estudos para entender por que isso acontece", diz a nutricionista. "Mas a nossa hipótese é de que as pessoas estressadas usam mais gordura na panela ou no prato porque esse ingrediente aumenta a palatabilidade das preparações. Ou seja, é mais fácil sentir o sabor da comida se ela está cheia de gordura e, talvez, sob estresse, os pacientes busquem sensações mais intensas à mesa, quase como um mecanismo de compensação", especula.

Nem preciso dizer no que essa saída acarreta. Os pacientes ganham quilos. Sem contar que certas gorduras colaboram para a formação de placas, as quais deixam a passagem do sangue ainda mais estreita. Ele então pressiona de vez as paredes do vasos ao transitar.

Tem mais: a comida muito gordurosa, por si só, eleva a quantidade de substâncias inflamatórias no organismo, que por sua vez  irão agredir as paredes das artérias. "É uma cascata de reações que culmina na hipertensão. E tudo junto coloca a saúde cardiovascular em perigo", afirma Aline.

Ela e seus colegas já estão cuidando elaborar estratégias que vão desde criar receitas que maneiram nos óleos até aconselhar os pacientes para que, ao menos, usem uma gordura mais saudável, como o azeite de oliva. Talvez valha a pena falar uma pitadinha a menos de sal e aumentar as porções de conversa sobre a comilança gordurosa. Agora sabemos, o  assunto gordura precisa ser discutido à mesa de quem vive nervoso e com a pressão nas alturas.











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