19.08.2019 | 10h42


RELATO

Durante seis meses, namorei o cara que me assaltou

Acostumada a se envolver em romances complicados, a comerciante carioca Carolina Maranhão, de 36 anos, zerou sua vida amorosa quando, em 2002, se envolveu com o bandido que a assaltou na volta do trabalho.



“Tive uma infância e juventude muito humilde, marcada por grandes traumas, medos e aventuras. Tudo isso acabou refletindo demais no meu destino. Desde muito nova, sempre atraí amores bandidos, loucos e até gays já pintaram na minha vida. Costumo dizer que tenho o ‘dedo podre’ pra escolher homens. Talvez ter sofrido um abuso sexual aos sete anos tenha influenciado o fato de eu me tornar uma pessoa viciada em homens errados, relações tóxicas e também em sexo. Na verdade, sou viciada em sexo até hoje, embora evite fazer para não me machucar mais.

Minha mãe se separou do meu pai quando eu tinha seis anos. Ele sempre foi ausente e tinha várias amantes. Nunca tive uma referência masculina na minha vida. Minha mãe era rígida comigo, botava horário para tudo.

Em 1997, quando já estava com 14 anos, um primo de meu pai foi preso e, como éramos muito apegados desde pequenos, ele passou a se comunicar comigo por cartas. Ele era mais velho, tinha 27. Retribuía cada cartinha dele, mesmo com desaprovação dos meus pais. Um ano depois, ele saiu da cadeia e logo me procurou. Começamos a namorar escondido e, quando meu pai descobriu, me surrou até eu quase desmaiar. Para me defender, meu namorado partiu pra cima do meu pai e eles brigaram feio. Ele fugiu e, meses depois, soube que o mataram e nunca mais fui a mesma pessoa. Fiquei rebelde e revoltada.

Com 16 anos perdi a virgindade com um carinha que ficava havia poucos dias. Ele era lindo! Alto, loiro, olhos azuis. Mas não durou muito. Para minha infelicidade, o babaca contou para todos do bairro onde morávamos que havíamos transado. Com medo de uma possível retaliação dos meus pais, fugi de casa. Naquela noite, não voltei pra onde morava, no subúrbio, em Bonsucesso, e fui parar na praia de Ipanema, onde tinha um grupo de pessoas bebendo e fazendo luau. Fiquei por ali fazendo hora. Acabei sendo enganada por um dos rapazes que estavam no local e fui estuprada por eles nas pedras do Arpoador.

Quando me acharam, me levaram para a casa de uma das meninas que estava no grupo e morava no mesmo bairro que eu. No dia seguinte, meus pais me encontraram, depois de terem ido à delegacia, ao IML e à casa de vários amigos meus. Choravam muito e me perguntavam o tempo todo se eu havia me ‘perdido’. Com muito medo, disse que não. Até que me perguntaram se fugi porque usava drogas. Preferi mentir e afirmar que sim. Com isso, me meti numa superenrascada. Fui obrigada a frequentar, diariamente, um grupo de ajuda para viciados. Um verdadeiro martírio! Deixei meus pais sem chão com essa mentira, mas optei por não contar toda a verdade. Seria mais uma decepção. Nesse grupo, conheci todo tipo de pessoas. Dois meses depois, tive uma enorme hemorragia e a tal mentira veio à tona.

Estava em casa dormindo com minha mãe e irmãos. Acordei sentindo muitas dores e sangrando muito. Na mesma hora, minha mãe acordou com meus gritos e logo me levou para o hospital. Chegando lá, fui examinada e o médico disse que eu havia sofrido um aborto. Gente, mas eu nem sabia que estava grávida! Foi aí que minha mãe descobriu que não eu era mais virgem, e me colocou pra fora de casa.

Em 2001, com 18 anos, conheci o Fábio numa sala de bate papo. Ele dizia que era vendedor e marcamos um encontro. Fomos até sua casa dele no morro onde ele vivia e, chegando lá, descobri que ele era vendedor de lança-perfume – e sua casa, uma fábrica desse entorpecente.

Logo em seguida, chegaram os bandidos. Eles conversavam baixinho, e ouvi a parte em que ele dizia ter buscado a mercadoria e falou o nome do meu bairro. Quando eles saíram, Fábio pediu que eu esperasse. Com o pouco de juízo que ainda me restava, joguei os sapatos pela janela, pulei e desci aquele morro correndo. Nunca mais quis vê-lo ou saber dele.

No ano seguinte, já com 19 anos, trabalhava numa padaria e morava numa kitnet alugada. Tinha acabado de terminar um namoro e estava despedaçada. Até que, um dia, voltando do trabalho tarde da noite, vi um homem vindo em minha direção, um cara de moto. Passou por mim uma, duas vezes e voltou. Depois, disfarçou e me perguntou onde ficava uma determinada rua. Como naquela área que eu estava era normal ter assaltos de moto, logo imaginei que seria a próxima vítima.

Não deu outra. Nervoso, ele não parava de olhar para os lados com a mão por dentro da blusa. Revoltada, gritei: ‘Se tu vai me assaltar, anda logo com isso porque não estou com paciência hoje’. Ele disse pra eu passar o celular, o dinheiro e tudo que eu tivesse. Falei que só tinha dez reais, quando ele soltou a pérola: ‘Você é uma assaltada linda’. Comecei a rir, não acreditei no que estava ouvindo. Ele perguntou se queria dar uma volta na sua moto e lhe recordei que havia acabado de ser assaltada por ele. Aí ele retrucou: ‘E se eu devolver seu célula?’. ‘Posso pensar no assunto’, respondi. Pois ele devolveu meu aparelho e subi em sua moto sem nem pensar na vida.

Claudio tinha 32 anos. Era moreno, alto, magro, tinha um cavanhaque que eu achava um charme. E não é que transamos a noite toda? Ele me dava de tudo, altos presentes maneiros, até porque roubava cargas também. Nem sei como isso aconteceu, mas acabei apaixonada por ele.

Namoramos por seis meses, os mais loucos e cheios de aventuras da minha vida. Foi um dos melhores sexo que já fiz na vida. Não chegamos a morar juntos, mas passamos muitos dias sem nos desgrudar, na minha casa. Na época, morava sozinha e ele me ajudava fazendo as compras do mês. Ele morava na comunidade Vila do Pinheiro, no bairro de Bonsucesso, no Rio.

Soube depois que ele fazia roubo de cargas e, por isso, me presenteava com perfumes importados, eletrodomésticos e até alimentos perecíveis. Ele me contou que tinha acabado de sair da cadeia, estava em liberdade havia dois meses. Tinha sido preso por assalto. Precisava recomeçar, mas, lamentavelmente, optou por voltar a roubar. Óbvio que eu tinha medo, ainda mais porque ele guardava a arma no banco do carro, na parte do quebra-sol.

Nunca contei a ninguém que ele era assaltante, morria de vergonha! Até porque minha família adorava ele. Achavam que ele era mecânico e uma boa pessoa. Ele era um amor comigo e com todos me cercavam. Só depois que terminamos, contei para duas primas muito próximas a mim.

Terminamos porque ele queria que eu o ajudasse a assaltar um empresário e que fingíssemos que estávamos namorando no portão da casa do cara, enquanto o primo dele esperava no carro para entrar no local. Não concordei com isso, tinha medo de ser presa. Nunca quis essa vida pra mim, não queria me envolver de jeito nenhum com essas coisas. Brigamos e terminei com ele, mesmo a gente ainda gostando um do outro.  Por sorte, ele nunca mais me procurou depois disso. Em seguida, soube que arrumou uma nova namorada que participava dos assaltos com ele. Seis anos depois, me contaram que ele morreu ao assaltar um carro e o motorista era um policial. Vida de bandido dura pouco. Infelizmente, todos já sabíamos o final dessa história.

Meses depois, conheci meu marido, Cesar. Era alto, moreno e muito gato. O vi passando na rua e foi amor à primeira vista. Começamos a namorar uma semana depois até que, após um mês juntos, descobri que era casado e tinha dois filhos. Mesmo arrasada e sem saber que já estava grávida dele, terminei tudo. No dia seguinte, ele apareceu na minha casa com todas as suas roupas e se mudou para lá. Tudo parecia um conto de fadas até descobrir que ele era viciado em drogas. Apanhando muito, me vi sem rumo e sem saída, quando Cesar começou a roubar coisas da minha casa e da minha família para sustentar seus vícios. Foi um verdadeiro caos.

Com 23 anos, resolvi me separar e cuidar do meu filho sozinha que, na época, tinha dois anos. Tivemos uma recaída e engravidei da minha segunda filha. Reatamos e voltei a apanhar. Quando minha filha completou um ano, sumi de casa e me separei de vez.

Depois disso, traumatizada, passei sete anos sem querer saber de homem nenhum nem me envolver com mais ninguém. Tinha medo que aparecessem bandidos, malucos, viciados, agressores. Até que comecei a trabalhar numa empresa como operadora de caixa e logo fui promovida a gerente. Isso me incentivou a ser uma pessoa melhor e uma profissional mais motivada.

Em 2014, aos 31 anos, conheci José, um homem de 45 anos que mudou minha vida para sempre. Me tratava como uma princesa. Era educado, alto, careca, um verdadeiro pedaço de mal caminho. Mas também descobri que era casado e, além disso, ainda tinha outra amante na rua. Outro ‘boy lixo’ disfarçado de ‘príncipe encantado’. 

Em 2016, conheci Amadeu, 44 anos. Por sorte, não era bandido nem era casado. Era ótima pessoa, tranquilo, honesto e gentil. Parecia perfeito. Mas, como aparentemente não tenho mesmo sorte no amor, dois meses depois descobri que ele era gay. Foi um balde de água fria. Sai de casa e passei a morar só com meus dois filhos. Acredito que eles me deram o juízo que nunca tive na vida. Ele está com 15 anos e ela, 12. São a razão da minha existência, meu freio e minha calmaria.

Depois da separação, o pai dos meus filhos sumiu e nunca mais nos ajudou em nada. Meu segundo marido, José, largou a primeira mulher, e se casou com a amante. O Amadeu está feliz da vida com seu novo namorado. E eu? Ah, prefiro mesmo estar sozinha. Aprendi que posso e devo ser feliz sem homem. Nenhum vai preencher meu vazio nem curar meus traumas e feridas do passado. Fiquei tão traumatizada com todos esses malucos que passaram pela minha vida, que se eu vir a conhecer alguém de novo, logo pedirei para levantar sua ficha criminal. Aí, depois de muitas investigações, vou pensar se devo ou não aproveitar um pouquinho.”











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