10.11.2019 | 07h55


'MACHONARIA'

Cristãos se reúnem em evento para resgatar masculinidade perdida

Encontros como a Machonaria não são novos e vêm sendo reeditados nas últimas décadas, inclusive no campo progressista, para discutir o lugar do homem nessa sociedade em movimento.



O feminismo do século 21 é definido pela tecnologia, como escreveu a jornalista Kira Cochrane em "All the Rebel Women: The rise of the fourth wave of feminism" (em tradução livre: "Todas as mulheres rebeldes: O surgimento da quarta onda do feminismo"). Mas em alguns rincões deste vasto campo nas redes sociais, há quem defenda que só a masculinidade forte pode salvar uma sociedade fragilizada.

O discurso ganhou relevância no domingo (3). No dia anterior, o ator Juliano Cazarré publicou o vídeo de um gorila, protegendo sua família no Instagram. Na postagem, o ator usou o gesto primata para ironizar a ideia, muito discutida em círculos acadêmicos, de que a masculinidade é uma construção social: "Só que não", escreveu na legenda. "Prover e proteger: a masculinidade faz do mundo um lugar mais seguro."

A reação nas redes sociais foi ruidosa. "[Quem] 'faz do mundo um lugar seguro' são os que matam, estupram, roubam, abandonam", observou uma seguidora, entre tantos outros que exigiam retratação. No entanto, muitos endossaram o pensamento. "Bem-vindo a selva trans moderna, baby! É proibido ser homem", escreveu o pastor Anderson Silva, diante da repercussão. "Seja homem e não peça desculpa por isso."

Silva é líder da Igreja Vivo por Ti, com sede em Brasília, e idealizador do evento "Machonaria", um encontro de homens que acontece pela segunda vez na cidade, de 14 a 17 de novembro. O foco principal é apresentado em letras garrafais na divulgação do Facebook: resgatar a "masculinidade patriarcal".

O TAB entrou em contato com Silva para ouvir mais sobre esse resgate. Ele topou dar entrevista, mas não respondeu mais as mensagens para agendar o bate-papo. A descrição do evento, porém, dá pistas sobre essa busca: "O mundo moderno tentará de todas as formas tirar sua honradez em meio de vícios e desejos que todos nós possuímos. Mas os justos são fortes e ímpares. Resistiremos às tentações que nos rodeiam e no fim seremos homens honrados lutando juntos em prol de um lugar melhor".

Patriarcado contemporâneo

Com 34 anos e tatuagens espalhadas por todo o corpo, o pastor é exemplo da onda neopentecostal, que se vale de uma abordagem mais contemporânea em suas atividades e pregações. Na Vivo por Ti, por exemplo, há um programa para a inserção de LGBTs na igreja e, durante o culto, citações a artistas pop se misturam às passagens da Bíblia. As mulheres da igreja ganharam desta vez uma versão do evento, "Femmenaria", com a promessa de discutir "feminilidade e empreendedorismo", diante das "ideologias humanistas ateístas, as frustrações e a masculinidade disfuncional".

Essa falha de caráter dos homens é, na visão do pastor, a razão para muitas famílias desestruturadas, filhos abandonados e mulheres violentadas. Para resolver a questão? "Precisamos de uma ressurgência do patriarcado! Precisamos de uma masculinidade forte que é pautada pela responsabilidade e pelo sacrifício", escreveu em seu Instagram. "Sem homem, sem família, sem igreja, sociedade enfraquecida, caos. Seja homem! Lidere!"

Os discursos de Silva e Cazarré sugerem que o resgate dos valores desse homem forte e provedor é a resposta para uma sociedade em colapso, o que o pastor Ariovaldo Ramos, coordenador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e presbítero da Comunidade Cristã Reformada em São Paulo, entende como equívoco.

Para a antropóloga Isabela Venturoza, doutoranda na Unicamp e pesquisadora do Núcleo de Estados de Gêneros (Pagu), esse modelo de masculinidade passa por um momento de colapso, causado, em certa medida, pela mudança em termos de direitos das mulheres e da ampliação dos papéis delas na sociedade, não mais restritos ao de esposas e mães. "Enquanto isso, os homens não alteraram esses modelos de masculinidade, não encontraram outros papéis e ficaram mais apegados à questão de retomar esses valores, ou então entraram em crise, ficaram paralisados: 'o que faço agora?'", afirma.











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