06.02.2011 | 10h54


POLÍCIA

Várzea Grande: violência e criminalidade em potencial

DIÁRIO DE CUIABÁ 09h48

Enquanto de um lado do rio Cuiabá a Capital conseguiu reduzir em 3% o número de homicídios em 2010, segundo dados da polícia, na margem várzea-grandense as ocorrências aumentaram em 11%. Com menos da metade da população cuiabana, a Cidade Industrial presenciou em 2010 maior proporção de assassinatos e, em janeiro deste ano, já foi responsável por 16 dos 35 homicídios registrados nas duas cidades.

O cenário desconcertante demonstra aos mato-grossenses em que medida a situação econômica de uma cidade e a falta de qualidade de vida - pela ausência do poder público - potencializam a criminalidade. Embora as condições de vida em Cuiabá nunca tenham sido das melhores, uma comparação de indicadores municipais com a cidade vizinha revela, pelo menos recentemente, onde é que se encontra o descompasso no ritmo de crescimento da criminalidade nas duas maiores cidades do Estado.

Com uma geração de riqueza pelo menos três vezes inferior à de Cuiabá e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) menor (0,79 em comparação com 0,821 de Cuiabá), Várzea Grande experimentou um crescimento populacional anual, de 2000 a 2010, de 1,62%, segundo relatório do Acompanhamento Municipal dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. O ritmo supera o de Cuiabá no mesmo período, que foi de 1,33%.

É mais gente para desfrutar dos mesmos serviços públicos de saneamento básico, saúde, infraestrutura, educação. E, se quem sofre mais são os que dependem exclusivamente do poder público para ter uma mínima qualidade de vida, também ganha peso o fato de que em Várzea Grande há maior proporção de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Conforme o Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil, 24,3% dos várzea-grandenses vivem em famílias cuja renda, dividida pelo número de integrantes, é inferior a meio salário mínimo. Na mesma situação estão 18,8% dos cuiabanos.

Foi neste contexto que o ano de 2010 produziu maior proporção de homicídios por habitantes em Várzea Grande que em Cuiabá. Foram 199 casos para pouco mais de 551 mil pessoas em Cuiabá (uma execução para pouco mais de 2,7 mil pessoas) e 111 para cerca de 252 mil no município vizinho, o equivalente a um caso para cada 2,2 mil (os dados populacionais estão de acordo com o último Censo).

BAIRROS - E, se o contexto sócio-econômico vale para comparar cidades, vale também para explicar por que a criminalidade surge nos bairros várzea-grandenses responsáveis por 17 dos assassinatos no ano passado - Jardim Eldorado e São Mateus. Afastados do Centro e do precário alcance dos serviços públicos, os bairros penam com baixa qualidade de vida, a maioria de suas ruas não tem asfalto, a água chega às caixas duas vezes por semana e não há rede de esgoto.

Para a comerciante Celina dos Santos, 35, a falta de qualidade de vida no bairro Jardim Eldorado (que também não tem escola pública, creche nem posto de saúde) deixa os jovens vulneráveis ao apelo das drogas, impulsionando a criminalidade. Ela mesma foi assaltada no primeiro mês morando no bairro e sempre escuta alguma história na vizinhança. Dona de um bar, ela estranha qualquer pessoa diferente que chega para jogar sinuca ou beber cerveja e fecha as portas todo dia muito cedo, às 20h. "Até hoje não me sai da cabeça o dia do assalto".

Já no São Mateus, mães como Denise Pedrosa dos Campos, 29, preferem nem deixar as duas filhas e as crianças que vão à sua casa brincar na rua, em plenas férias escolares. Isso porque, quando elas voltarem à escola, as aulas não significarão muita coisa. Denise reclama que, além de muita evasão, as escolas são tanto palco de violência quanto as próprias ruas, devido aos jovens que nasceram em meio à cultura da criminalidade, das drogas, e que perpetuam um ciclo.

 











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