18.10.2010 | 09h30


POLÍCIA

Santa Casa de Cuiabá sofre com penúria financeira e problemas estruturais



Tânia Hauber
da redação

Próximo de completar 200 anos, a Santa Casa da Misericórdia, entidade filantrópica mais antiga de Cuiabá, tenta lidar com 2 graves problemas: manter os atendimentos com a defasada tabela do Sistema Único de Saúde (SUS) e a falta de recursos para renovar a estrutura, que é muito antiga e apresenta deformidades.

O telhado está comprometido e, com o início do período chuvoso, o hospital teme novos problemas. Há muitas goteiras nos corredores e enfermarias. A direção da entidade aguarda o início das obras para troca de toda a estrutura, que será feita em duas etapas.

Segundo o coordenador Belarmino Leite de Oliveira, responsável pela ala do Sistema Único de Saúde (SUS), a verba foi liberada pelo Governo do Estado e a licitação já foi realizada. "Esperamos que o telhado seja trocado antes das chuvas ficarem mais intensas, porque senão vamos ter sérios problemas. Quando chove lá fora, também chove aqui dentro". O forro mofado ainda tem as marcas do período chuvoso do início do ano.

As 20 enfermarias, cada uma com 6 a 8 leitos, recebem pacientes de todo o Estado e até de fora dele e também estão sendo reformadas com apoio de entidades e clubes de serviço do município. "Cada entidade patrocinou a reforma de uma ou duas enfermarias. Tivemos apoio do Lions e Rotary Club, Clube da Terceira Idade, Sala da Mulher e tantos outros".

Porém, todo este trabalho pode ser perdido caso o telhado não seja recuperado. "Já temos o caso de uma parede que precisa ser pintada novamente por que foi danificada por uma chuva".

E não é só isso. Além da estrutura, o hospital padece em outras áreas e, apesar de mais de 90% de seus atendimentos serem realizados pelo SUS, a Santa Casa não recebe nenhum recurso do poder público para melhorar sua estrutura. "Estamos precisando de camas novas, lençóis, equipamentos. Muitas coisas que temos aqui são antigas e já não têm mais condições de uso".

Referência - A Santa Casa é uma unidade hospitalar referência no Estado. Diariamente, realiza em média 25 cirurgias nas diversas especialidades, ficando de fora apenas as neurológicas e cardíacas.

Nas alas de enfermaria, metade dos leitos é ocupada por pacientes do interior, muitos que são encaminhados para a entidade porque precisam passar por cirurgias e acabam ficando dias, semanas e até meses internados.

O técnico de manutenção Silvano Ramos, 38, foi encaminhado para a unidade porque precisava passar por uma cirurgia nas pernas. Ele mora em Barra do Garças, mas lá não é realizado este tipo de procedimento. "Eu sofri um acidente e fui para o hospital de lá, mas como não fazem esta cirurgia me mandaram para cá".

Por muito tempo, a Santa Casa também foi a única referência para pacientes portadores de câncer, realizando tratamento de radioterapia e quimioterapia. Hoje divide esta missão com o Hospital do Câncer e atende tanto adultos quanto crianças.

Desde que descobriu que estava com câncer de colo de útero, há um ano, Ana Dias dos Reis, 42, realiza o tratamento de quimioterapia na entidade. Ela mora em Poxoréu e todo mês precisa se deslocar até Cuiabá para se tratar. "Eu deixo meus filhos lá e venho com coração apertado. Todo mês passo 4 dias aqui e agradeço muito aos profissionais porque são eles que me animam e dão forças".

A demanda de atendimentos a pacientes vindos do interior também ocorre nos leitos de UTIs. Segundo a direção, 70% são ocupados por pessoas de outras cidades.

Serviços - Além de referência na clínica cirúrgica, a Santa Casa oferece atendimentos em 20 especialidades. Também realiza hemodiálise e possui um banco de sangue. Nos últimos 10 anos realizou 59 mil cirurgias e 80 mil internações.

Inutilizado - Se por um lado faltam leitos de internação nos hospitais que atendem na Capital e no interior, a falta de investimentos na Santa Casa faz com que seus espaços fiquem ociosos. Na ala da pediatria, segundo o provedor Luiz Felipe Sabóia Ribeiro Filho, existem 60 leitos que não são utilizados por falta de camas, equipamentos e profissionais. "Falam por aí em construir um hospital da criança. Porque não utilizam o que já temos e investem na Santa Casa? Seria muito mais rápido".

Ele explica que o SUS faz o repasse de acordo com o número de pessoas atendidas. "O SUS paga pelo serviço, não podemos colocar mais gente para trabalhar porque não temos como bancar isso sozinhos. Mesmo assim, hoje mantemos 500 funcionários com carteira assinada. O número é muito grande".

Alegria - A ala pediátrica é a única que não tem problemas estruturais. Isso porque passou por uma ampla reforma há pouco tempo e a direção conseguiu mantê-la em bom estado de conservação até agora. A coordenadora Uilma da Silva Oliveira conta que são 64 leitos onde ficam internadas crianças com vários tipos de problemas.

O pequeno Victor Gabriel, 4, foi internado na unidade há quase 3 meses após ter pneumonia. A mãe Joseli Rodrigues, 24, conta que eles moram em Comodoro e não está sendo fácil ficar tanto tempo em um hospital. Foi depois que Victor conheceu a brinquedoteca que ele se animou.

"Pensamos nisso porque algumas destas crianças passam semanas e até meses aqui e quem está em idade escolar acaba perdendo muito com isso. Então, além de serem medicados, eles têm espaço para brincar e aprender com as professoras. Quando saem daqui e voltam para a escola conseguem acompanhar os trabalhos", detalha a coordenadora.

Curiosidade - A Santa Casa foi construída em 1817 pelo ultimo governador da Província do Mato Grosso, capitão general João Carlos Augusto Uynhersen de Grevemburg, como requisito para que Cuiabá pudesse adquirir o status de cidade, de acordo com as exigências da comunidade européia.











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