16.07.2020 | 10h01


POLÍCIA / TRAGÉDIA NO ALPHAVILE

Pai da adolescente que matou amiga assume que foi negligente com armas

A declaração foi dada durante depoimento na delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) no inquérito que investiga a morte de Isabele; Marcelo relatou todos os momentos antes e após a morte da menina


DA REDAÇÃO

Marcelo Martins Cestari , 46 anos, admitiu em depoimento "que sente que foi negligente ao não ter tomado maior cuidado com um adolescente armado dentro de sua casa". A afirmação foi feita durante depoimento do empresário na Delegacia de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) no início da noite da última terça-feira (14), no inquérito que apura a morte de Isabele Guimarães Ramos, 14. A adolescente foi morta dentro da casa de Marcelo, no domingo (12), no condomínio Alphaville 1, Jardim Itália, Cuiabá, por um disparo feito pela arma que estava com a filha dele, também de 14 anos.

A afirmação sobre a negligência foi feita em referência ao namorado de sua filha, que é apontada como autora do disparo acidental da arma de fogo. Foi o jovem quem levou duas armas para a casa da família Cestari no dia dos fatos, onde mostrou para todos que estavam na residência e depois as guardou dentro da case, ainda municiadas.

"Em determinado momento, Marcelo disse que ouviu um barulho “como o fechamento de uma porta de blindex”, não se dando conta que seria um disparo de arma de fogo", diz parte do depoimento

Marcelo e a filha B.O.C. chegaram à unidade policial pouco antes das 14h e os dois prestaram depoimento no mesmo dia. Primeiro foi a adolescente, que deixou a delegacia por volta das 19h. O empresário começou a falar às 18h05 e só terminou às 21h, quando foi embora.

De acordo com o documento, Marcelo disse que estava trabalhando e não observou com muita atenção o momento em que o genro chegou em sua casa, no entanto, em seguida o adolescente foi mostrar as armas para ele.

“Que observou sem muita atenção a chegada dele (namorado da filha). Em momento seguinte o rapaz foi mostrar a Marcelo que havia trazido uma MD1, Imbel prata dizendo que havia ganhado duas competições com o instrumento. A arma foi mostrada aberta, desmuniciada e sem carregado, quando o empresário teria pegado a arma, olhado, feito alguns comentários sobre a arma e devolvido ao genro”, diz trecho do depoimento.

Marcelo foi questionado se tinha interesse em adquirir a arma e se esse seria o motivo pelo qual o menor teria as levado para o condomínio.

“O empresário respondeu que tinha sim o interesse de comprar mais uma arma para a prática (tiro desportivo) de suas filhas, mas que não tinha confirmado que iria comprar a referida arma. Que a pistola apresentada era ‘customizada, ou seja, preparada para o esporte, o que aumentava seu interesse na aquisição, mas que somente estava aventando a possibilidade”, respondeu Marcelo em seu depoimento.

Perguntado sobre o que significa o termo “custumizada”, o declarante “afirmou que essas armas possuem o “alívio de gatilho”, instalação de “bumpers” e apoio de dedos”.

O adolescente ainda apresentou uma segunda arma, uma “Tanfoglio Open”, esta o menor teria pedido para o sogro ‘aliviar’ o gatilho, pedido atendido por Marcelo.  As duas armas estariam no nome do pai do menor.

Após estes fatos, o empresário declarou que voltou a trabalhar em seus afazeres e não prestou atenção em como o adolescente guardou as armas, momento em que foi questionado o porquê de não ter se atentado sobre a segurança das armas, o empresário disse que “sente que foi negligente nesse sentido, acreditando que poderia ter dado mais atenção e ter tido mais cuidado na vigilância de um adolescente armado dentro de sua casa”.

A morte

Marcelo relatou que após o jantar, preparado pelas filhas, o genro se preparava para ir embora, quando o irmão do adolescente foi ao endereço buscá-lo.  No momento em que deixava a casa pediu a Marcelo para deixar as armas na casa com o argumento de que “o irmão era imã para Blitz” e não queria correr o risco de ser penalizado.

O empresário autorizou, mas não questionou “como as armas tinham sido guardadas”. Em seguida falou à família, porém direcionado à filha namorada do rapaz, para que pegasse a case com as pistolas e “levasse para cima” e guardasse no closet, como já era de costume. A ordem não foi atendida no mesmo momento.

Na sequência, o declarante disse que estava na área externa da casa, próximo à piscina, comendo sobremesa. O local estava com as portas fechadas devido ao uso do ar-condicionado. Em determinado momento, Marcelo disse que ouviu um barulho “como o fechamento de uma porta de blindex”, não se dando conta que seria um disparo de arma de fogo.

Ao abrir a porta da área, o empresário escutou gritos da esposa e da filha que repetia “a Bel, a Bel, a Bel”, em ‘verdadeiro pânico na parte superior da casa’, explicou.

Marcelo disse que subiu correndo, seguiu em direção ao banheiro do quarto da filha, quando se deparou com Isabele caída, próximo à banheira, com a cabeça e o tronco inclinados. Mandou que chamasse a mãe da vítima e ligou de seu celular para o Samu, quando passou a ser orientado sobre os primeiros socorros enquanto a ambulância não chegava.

"Que até aquele momento ainda não tinha ciência de que a menina havia sofrido um tiro, não havendo sangue e nem marca de tiro", afirmou o empresário sobre o momento que encontrou a vítima

“Que até aquele momento ainda não tinha ciência de que a menina havia sofrido um tiro, não havendo sangue e nem marca de tiro, acreditando que Isabele tinha caído no banheiro, que a cabeça da adolescente estava em cima do trilho do box. Que ao ajustar a cabeça da vítima, conforme orientação do Samu, sentiu uma ‘bola’ na nuca, tentando identificar como a menina teria ‘batido a cabeça, mas continuou a fazer massagem cardíaca. Que ao proceder nas manobras de reanimação começou a sair sangue de algum lugar próximo à ‘bola’ da nuca”, diz trecho do depoimento.

A mulher do empresário chegou com um médico amigo da família, que constatou a morte de Isabele.

Questionado como descobriu que se tratava de um tiro, Marcelo disse que ainda durante conversa com os profissionais do Samu, a equipe médica perguntou se não seria uma vítima de disparo de arma de fogo, mas que nesse momento ainda acreditava que não. Durante o atendimento dos socorristas, começou a pensar na possibilidade e se lembrou que ‘alguém’ que não sabe quem teria falado que a menor tinha sido atingida por um tiro. Depois, uma das filhas relatou que o tiro que matou Isabele foi de uma das armas que estava com a filha apontada no processo.

Questionado sobre outras possibilidades que poderiam ter ocorrido na casa durante todo o dia, como consumo de bebidas alcoólicas, drogas, brigas, Marcelo negou. Apenas confirmou que os filhos têm o costume de acessarem as armas em casa, mas somente nos dias de treino ou quando autorizados por ele.

Leia mais: Menor admite que pode ter ‘encostado’ no gatilho da arma que matou amiga com tiro na cabeça

 











(1) COMENTÁRIOS

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joana  16.07.20 13h25
Meus sentimentos a familia da menina que faleceu. A trajetoria da bala, a historia da blitz e o fato de um profissional guardar uma arma municiada realmente precisam de respostas, não é? A sociedade também cobra outros casos como da gari que perdeu a perna atropoelao por uma ex procucadora, a medica que atropelou o verdureiro e fugiu, a tenente do corpo de bombeiros, são tantos..... né?

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