06.09.2010 | 12h04


Flanelinhas dominam espaços Faixa Verde na Capital



RAQUEL FERREIRA

Centenas de guardadores de carros disputam espaço e dinheiro com os funcionários da prefeitura que atuam no Faixa Verde - sistema de estacionamento da Prefeitura de Cuiabá - durante o dia e tomam conta do espaço no período da noite.

É difícil não perceber a ação dos "flanelinhas" que estão nos locais mais movimentados da cidade, sempre pedindo para cuidar de carros em troca de uma quantia em dinheiro. A forma de abordagem intimida e amedronta a maioria dos motoristas, que se sentem coagidos a pagar para deixar o veículo estacionado em via pública.

Uma funcionária do Faixa Verde, que preferiu não se identificar, comenta que também se sente ameaçada pelos guardadores, que costumam abordar os motoristas ainda na porta do veículo. Ela destaca que alguns deles se intitulam como "os donos do pedaço". "É complicado mexer com essas pessoas. Sou mulher e trabalho exposta na rua, me sinto ameaçada. Eles abordam os motoristas antes mesmo de terem chance de comprar a cartela obrigatória".

A estudante Ana Carolina Fernandes, 22, conta que sempre fica em dúvida sobre quem pagar quando é abordada pelos flanelinhas em estacionamentos de responsabilidade do Faixa Verde. Ela comenta que sempre pergunta: "Eu pago para quem?". "Não dá para pagar o estacionamento e o flanelinha. Aqui em Cuiabá é difícil parar o carro e não ser abordada por esse pessoal".

É também em uma área de Faixa Verde que diversos guardadores de carros terminam espantando os clientes da Panificadora Los Angeles, na avenida Historiador Rubens de Mendonça. O proprietário do comércio e de uma banca de revistas, Deolino Velato, 80, mais conhecido pelo apelido de "Gringo", comenta que cada dia é maior o número de meninos nas ruas.

Gringo conta que na semana passada abriu a padaria por volta das 6h e pelo menos 8 rapazes apareceram para abordar os clientes que pretendiam comprar pão. "Teve gente que nem desceu do carro e foi embora com medo. Tive que chamar a Polícia, porque não tinha condição".

Embora enfrente os guardadores de carros, Gringo afirma que teme alguma reação deles e reclama que até mesmo os bancos de jardins usados por leitores da revistaria são arrastados para longe pelos rapazes durante à noite. "Eles são abusados, fazem de tudo aqui. Vivem sujos, são mal encarados e usam drogas. Todo mundo sabe e tem medo".

O comerciante não é o único a sofrer com esse tipo de problema na avenida Historiador Rubens de Mendonça. Rudney do Espírito Santo, 45, gerente de uma farmácia, localizada quase em frente à padaria, destaca que é comum ouvir reclamações de clientes por conta da abordagem constante dos guardadores de carro. "À noite piora. Já teve caso de cliente que tromba com a porta de medo dos flanelinhas. Eles vão em cima das pessoas. Às vezes, 2 deles abordam o mesmo motorista".

O gerente afirma ainda que a rotatividade dos flanelinhas é grande em frente à farmácia, além de destacar a falta de confiança que sente com a presença dessas pessoas rondando o local. "Não são confiáveis, praticam assaltos e está na cara deles que esse dinheiro é para droga".

A dona-de-casa Maria de Fátima Cruz, 44, estacionou o carro na farmácia e quando voltou foi abordada por um adolescente que queria receber. "Eu voltei na farmácia porque achei um absurdo ter que pagar esses guris, sendo que estacionei na vaga do lugar que eu estava comprando. Geralmente eu pago porque tenho medo deles".

O comandante da Companhia Comunitária da Polícia Militar do Bosque da Saúde, capitão Wilson Campos Martins, destaca que existe bastante chamada da população por conta dos flanelinhas, principalmente à noite.

Martins comenta que recolhe quem está incomodando e comenta que a maioria tem passagem pela Polícia e usa drogas. "Encaminhamos para a delegacia ou para o serviço de Abordagem Solidária, mas eles voltam para as ruas. É cômodo não ter um emprego e viver pedindo. O que eles consideram trabalho é, na verdade, uma diversão. Fazem o que querem, não respeitam ninguém e ainda ganham".

Um ponto abordado pelo capitão é a desistência das vítimas em representar contra os guardadores de carros. A maioria das pessoas chama a Polícia, mas se recusa a representar contra quem a ameaçou ou intimidou. "Geralmente ficam com medo de a pessoa voltar".

As mulheres costumam ser as principais vítimas por sentirem-se ameaçadas. "Eles já chegam de um jeito intimidador, como quem diz: posso cuidar ou vai querer que eu risque o seu carro?".

Para a PM, a avenida do CPA é um ponto estratégico para esses guardadores de veículos, que arrecadam dinheiro e seguem para o Pedregal ou Canjica, onde compram drogas para consumir.

Coxipó - Outro ponto de atuação intensa dos flanelinhas é a avenida Brasília, no bairro Jardim das Américas. Eles ocupam os locais de maior movimento: na frente do shopping e comércios. O taxista Edmilson Almeida conta que por 6 meses ocupou um ponto no local e cansou de ver esses jovens comprando bebida e usando drogas. "Direto eles tentavam vender para os taxistas aparelho de toca CD e celulares. Acho roubavam dos carros".

Outro taxista reforça a afirmação e garante que viu diversas vezes os próprios guardadores de carros quebrando os vidros dos veículos.

Para Ana Miranda Lins, 63, que estava no shopping para buscar um medicamento, somente um dos flanelinhas é confiável na região. Ela destaca que conhece Reginaldo Silva de Almeida, 30, há bastante tempo e nunca teve problemas. "Eu paro somente onde ele está. Tenho medo dos outros rapazes que ficam aí, eles costumam ficar bravos quando não temos dinheiro". Ana comenta que prefere pagar para Reginaldo que dar o dinheiro para o shopping. Reginaldo garante que não se incomoda com as pessoas que falam que estão sem dinheiro. "Eu já tenho a minha clientela e nunca peço nada. Se me der, tudo bem. Mas eu respondo somente por mim, sei que algumas pessoas ficam bravas quando isso acontece".

Defesa - Há mais de 1 ano cuidando de carros na avenida das Cerejeiras, no Bosque da Saúde, o flanelinha Helton Siqueira Campos, 21, afirma que procura ser sempre educado com os motoristas e nunca se alterou diante do não pagamento. Ele comenta que as pessoas terminam achando que todos os guardadores são iguais. "Tem gente que usa droga e muda de lugar direto, por isso acham que todos são assim".

Embora receba em torno de R$ 40 por dia nas ruas, Helton garante que trocaria a informalidade por um trabalho com carteira assinada, o que renderia um saldo médio de R$ 18 diário.

O pensamento de Helton é bem diferente do lavador de carros Cristiano Antunes, 32, que deixou a vida de caminhoneiro para cuidar de veículos nas ruas de Cuiabá. "O dia que tiro menos é R$ 50. Já cheguei a receber até R$ 120 num único dia".

Embora atue em uma região de domínio do Faixa Verde, Cristiano afirma que não compete com as pessoas que vendem o bilhete. "Eu estou aqui para lavar carros e ajudar os motoristas a encontrarem uma vaga".

Ele também garante não ficar chateado quando não recebe de quem estaciona e destaca que cuida do mesmo jeito. "Não quero que nada aconteça aos veículos, por que muita gente confia em mim e aqui é um ponto que estou há bastante tempo".











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