13.12.2010 | 20h19


POLÍCIA

100 mil pessoas sofreram violência em MT no ano de 2010



CAROLINE RODRIGUES

Cerca de 100 mil pessoas foram vítimas de algum tipo de crime em Mato Grosso entre os meses de janeiro e outubro deste ano. O número elevado de ocorrências leva a população ao sentimento de insegurança, que segundo uma pesquisa do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) atinge 90% dos brasileiros. As pessoas também mostraram a falta de confiança nos órgãos de segurança pública, sendo que a Polícia Militar (PM) tem a desconfiança total ou parcial de 70,7% dos entrevistados e a Polícia Civil desperta desconfiança em 69,9% dos cidadãos.

Apenas 29,3% das pessoas entrevistadas disseram que confiam na PM e 30,1% afirmaram que acreditam no trabalho da Polícia Civil. O atendimento das instituições são qualificados como lentos, ineficientes, desrespeitosos e preconceituosos por mais da metade dos entrevistados.

O comandante da PM em Mato Grosso, coronel Osmar Lino Farias, assegura que o problema não é só da Polícia e sim da sociedade, que é violenta. As pessoas costumam não respeitar o trabalho dos policiais que, por atuarem sob estresse, acabam tento uma postura mais "enérgica".

Farias afirma ainda que nos locais com maior índice de violência, onde o PM precisa ser mais cautelosa devido ao risco de reação, o desrespeito é maior.

A falta de efetivo é um dos fatores que contribuem para a ampliação da carga de estresse. Hoje, a PM tem 6 mil servidores, enquanto o ideal seriam 12 mil.

O comandante esclarece que o cenário faz com que os PM"s fiquem sobrecarregados. De acordo com o oficial, cerca de 4 flagrantes são encaminhados para as delegacias de Cuiabá em cada plantão. "Não defendo a truculência e como comandante exijo a investigação das denúncias. Mas, acredito que a sociedade precisa ajudar o trabalho dos policiais".

Frustração - A falta de confiança na Polícia, segundo o comandante, é causada por todo sistema de segurança pública brasileiro. Farias analisa que os policias prendem o criminoso, que fica pouco tempo na cadeia e volta a trazer problemas para a comunidade. A situação é vista pelo cidadão como falta de eficiência e ele culpa a Polícia porque é a instituição que tem contato direto.

A população fica descontente e o policial acaba frustrado, aumentando o estresse.

O delegado geral da Polícia Civil, Paulo Rubens Vilela, acredita que os últimos acontecimentos na cidade do Rio de Janeiro e em particular no estado de Mato Grosso, referente aos assaltos a bancos e caixa eletrônicos, acabam aumentando a sensação de insegurança da sociedade. Ele diz que os governos tanto do Estado quanto o Federal estão tomando medidas para estruturar os órgãos de segurança, no aparato físico, humano e formação policial, para salvaguardar o cidadão e diminuir a sensação de medo, consequência maior da criminalidade.

História - O sociólogo Naldson Ramos da Costa, coordenador do Núcleo Interinstitucional da Violência e Cidadania da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), explica que o sentimento de insegurança da população está ligado à impunidade dos criminosos. Ele explica que muitos casos são registrados na Polícia, porém deixam de ser investigados. A situação acontece principalmente com os roubos e furtos, cujas vítimas são das classes mais carentes.

Costa esclarece que a desconfiança da Polícia é uma questão histórica e está relacionada com o posicionamento da instituição na comunidade. "A atual função da Polícia é ser o braço armado em defesa do estado, o que contradiz a sua atribuição constitucional, que é garantir a cidadania e aplicação das leis".

A Polícia é vista como defensora das classes mais ricas, explica o sociólogo. O que reforça na população os sentimentos de injustiça e exclusão.

Outro problema é o corporativismo que atua nos setores que investigam os delitos e crimes cometidos pelos policiais.

Para o especialista, a solução do problema está no Estado, que deve exigir a mudança de comportamento. O fato, segundo ele, pode prejudicar a minoria, que gosta e defende os "privilégios" conseguidos por meio de poder político. Porém, dá legitimidade ao Estado.

Conforme a análise, a sociedade também precisa mudar e exigir a melhoria do atendimento. Ele conta que algumas pessoas infringem a lei e depois tentam pagar propina para os servidores ou solicitam a intervenção de políticos e autoridades para não responderem pelo erro. "Temos que acabar com o jogo da mediocridade. Não é porque algumas pessoas fazem errado, que não tem solução e precisamos aceitar a situação".

Tipos de crimes - A estatística mostra que 90,4% da população têm medo de ser vítima de assassinato. A mesma quantidade teme os assaltos à mão armada. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou um pesquisa em setembro, na qual Mato Grosso alcançou o 5º lugar no número de assassinatos. Os números mostraram que a cada 100 mil habitantes, 53,5 são vítimas do crime.

Os dados do Ipea mostram ainda que 88,6% têm receio de ter a casa arrombada e 69,9% sentem-se expostos a uma possível agressão física.

Soluções - O comandante da PM explica que serão contratados 1 mil novos PM"s em 2011 e que a mesma quantia será inserida no quadro nos próximos 4 anos até que a demanda de profissionais seja suprida. Ele relata que o trabalho é demorado devido a preparação dos servidores. "Não adianta ter muitos policiais na rua se eles estão despreparados".

Farias explica que a corporação não forma o caráter do PM, ele também é um reflexo da sociedade e traz parte da agressividade do convívio familiar e pessoal.

Quanto as soluções para a insegurança, o coronel defende a necessidade de um trabalho conjunto com os setores de educação e assistência social. Ele cita que existem projetos voltados aos jovens, como a PM Mirim e também o Projeto Mão Amiga. O problema é que as iniciativas são poucas, devido as limitações estruturais, e precisam de apoio.











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