08.02.2017 | 18h50


PODERES / ESTELIONATO MILIONÁRIO

Vítimas contabilizam prejuízos e relatam golpe aplicado pelo Grupo Soy

Empresários dizem que grupo do ex-vereador João Emanuel exigiu cheques de valores para que empréstimos fossem liberados; empresa era de fachada


CELLY SILVA

Em depoimento à juíza Selma Arruda, da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, o empresário Gilson César do Nascimento, na condição de vítima, afirmou ter sofrido um prejuízo de R$ 40 mil por conta do golpe que teria sido aplicado pelo grupo supostamente comandado pelo ex-vereador João Emanuel Moreira.

Segundo Gilson, o prejuízo só não foi maior porque conseguiu sustar quatro cheques entregues aos membros do Grupo Soy, que somavam R$ 180 mil.

Proprietário da empresa Material Forte, o empresário contou ao promotor Samuel Frungilo, do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), que foi informado por um amigo que o Grupo Soy estava realizando investimentos em empresas com dificuldades financeiras.

Ele, então, solicitou um empréstimo no valor de R$ 4 milhões para cobrir os passivos que a Material Forte havia gerado, ao longo de dois anos de atuação no mercado.

“Estávamos desesperados e precisávamos do dinheiro. Soubemos que o Grupo Soy estava investindo e resolvemos emprestar dinheiro”, disse.

No entanto, segundo Gilson, o grupo determinou que a empresa depositasse R$ 200 mil nas contas da Soy, que, mais tarde, ele descobriu que se tratava de uma empresa de “fachada”.

Quem também prestou depoimento na condição de vítima foi o técnico em edificações Edson Vieira dos Santos, 49, dono da empresa Criativa Construções.

Segundo ele, em dezembro de 2015, foi procurado por João Emanuel, que se identificou como presidente do Grupo Soy e que teria trazido para Mato Grosso um banco chinês para fazer investimentos no ramo da construção.

João Emanuel também teria apresentado um projeto de construção de apartamentos no Estado do Amazonas, em uma área de 6,9 mil hectares.

O empreiteiro teria participação de 5% no total do empreendimento, o que lhe renderia R$ 170 milhões. Mas, antes, teria que entregar 40 cheques, no montante de R$ 50,5 milhões.

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lázaro moreira

 O advogado Lázaro Moreira, réu e irmão de João Emanuel.

Outro lado

O advogado Lázaro Moreira, que também é réu na ação e advoga em causa própria e também em nome de seu irmão, o ex-vereador João Emanuel e de seu pai, o juiz aposentado Irênio Lima, contestou as informações de Edson Vieira.

“Ficou absolutamente claro que ele inventou muita coisa da cabeça dele. E ele demonstrou que não sofreu nenhum tipo de prejuízo, tudo era favorável a ele. Ele simplesmente se sentiu ofendido porque o contrato foi encerrado por ele mesmo e resolveu dar início a uma saga de perseguição sem precedentes”, disse Lázaro, em entrevista.

O advogad acredita que Edson tenha feito a denúncia apenas para conseguir alguma indenização, o que já foi protocolado.

“A gente acha que é justamente por causa desse pedido de indenização. Acho que ele tentou pressionar o Walter para receber a indenização. Como não houve resposta do Walter, ele resolveu distribuir em cima de todo mundo. Como o João é uma figura pública, sobrou para ele, coitado”, disse. 

Visão do MPE 

Para o promotor Samuel Frungilo, os depoimentos das vítimas confirmaram o que já havia sido descrito na denúncia do Ministério Público Estadual.

“Pelo que nós estamos vendo, estão confirmando aquilo que já foi apurado na investigação e confirmando o teor da denúncia, que essa organização criminosa realmente fez muitas vítimas empresários em valores vultosos, além da questão do prejuízo dos valores que as vítimas sofreram, outras consequências”, disse.

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samuel frungilo

 O promotor de Justiça Samuel Frungilo.

Frungilo explicou que as demais consequências dos golpes teriam atingidos outras pessoas de maneira indireta.

“A ação dos réus gerou inclusive perda de emprego de muitas pessoas. Por conta do golpe sofrido, muitas empresas tiveram que demitir seus funcionários, muitas famílias acabaram perdendo o seu ganha-pão”, afirmou.

Questionado se as vítimas não teriam sido muito ingênuas ao acreditar nas promessas do Grupo Soy, o promotor amenizou a questão e afirmou que estelionatários têm o dom de enganar.

“Olhando de fora, parece até algo espantoso. A gente pensa: como a pessoa se deixou levar numa conversa dessa, em valores tão altos? Mas, o estelionatário tem esse dom. Geralmente a vítima do estelionato é abordada em situação de dificuldade. É muito mais fácil você enganar alguém que está numa situação de desespero, desorientação, dificuldade financeira, não é tão incomum quanto a gente pensa”, afirmou.   

O promotor também foi questionado sobre o lastro que as empresas das vítimas teriam para poder emitir cheques em valores tão altos como mencionaram. No entanto, segundo Samuel Frungilo, iso não chegou a ser alvo de investigação do Gaeco. “Isso não foi apurado nas investigações, se as vítimas tinham essa capacidade financeira, mas é fato que esses cheques efetivamente foram entregues”, disse. 

 

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