14.07.2020 | 08h28


OPINIÃO / GONÇALO ANTUNES

Verdade e consequência

A verdade é necessária ou contingente. O que isso significa?

A verdade é necessária ou contingente. O que isso significa?

É comum se aceitar a ideia de que a verdade é uma só, individualizada, autônoma e pode afastar a aplicação do princípio de não contradição e o da identidade. Essa verdade é necessária, obrigatória, como a proposição de que Deus (Deus da ciência filosófica e não O das religiões) existe necessariamente, ou seja, Nele existência é o mesmo que essência. 

Diferentemente, as coisas criadas são contingentes, vale dizer, não inferimos suas essências pela só existência, portanto, a apropriação de uma dada verdade sobre elas pode ser infirmada pelo princípio de não contradição e de identidade. 

Então, com isso se pode concluir pela relatividade das verdades contingentes? Em absoluto, significa que elas, por carecerem sempre de conhecimento quanto a sua própria conformação e extensão, e serem dinâmicas em face das consequências quando confrontadas pelos citados princípios, não são apreendidas no todo, como resultado final incontestável, mas como possível. 

Relatividade é outra coisa, própria da noção unificada de espaço/tempo de Einstein em oposição à herança de Newton e seu conceito de espaço e tempo de forma independente, significando dizer que os movimentos do universo seriam absolutos. Nem seria preciso lembrar que a relatividade desses movimentos ganhou a conformação científica. 

Somente para uma melhor compreensão, e de forma resumida, o princípio de não contradição significa que duas afirmações contraditórias não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Assim, há contradição na proposição: ‘A é B’ e ‘A não é B’. Impossível ser e não ser ao mesmo tempo.

Já o princípio da identidade foi formulado por Parmênides, ‘todo objeto é idêntico a si mesmo’. Portanto, a = a e b = b é válido mesmo se se afirmar que a = b, pois, ainda assim se pode confirmar que a = a e b = b.

E por que isso tudo soa importante para este artigo?

É simples a resposta. O artigo começa com o conceito de verdade necessária e verdade contingente, sendo que as ações humanas têm a curiosa característica de ser contingentes, isto é, não são determinadas, sendo as pessoas livres (Aristóteles, Retórica) até para errar. Deus atua com a verdade necessária; absoluta, pode-se afirmar. 

As ações (criação, ideias e proposições) das criaturas (coisas criadas) podem não resistir em se confrontando com os citados princípios, tendo como resultado a falsidade e não a verdade. Se do confronto, ainda que ‘temporariamente’, vencer, subsistir, ser possível, são verdades contingentes.   

Essas verdades contingentes permitem a pergunta do por que das ações e sobre as preferências que a antecederam pelo processo de escolha. Visto isso, partindo do resultado para a origem, num movimento dialético de teses e antíteses, objetivando descortinar a preferência (por que preferiu tal ação e não aquela outra?) do agente no processo de escolha de caminhos, se chega à verdade (contingente) sobre suas reais intenções. 

Resumidamente, todos sabem com quem estão lidando na política, na vizinhança, os amigos, os membros da família etc. Aqui não há lugar para inocentes, e muito menos para mentirosos: eu não sabia!

É por aí...

Gonçalo Antunes de Barros Neto é graduado em Filosofia e Direito pela UFMT.

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