24.03.2020 | 09h03


OPINIÃO / ROBERTO FREIRE

Uma doença que pode trazer a cura

Que estranho ficar trancado em casa, quase um prisioneiro, não fosse o fato de ser uma opção diante da falta de opções que o vírus nos impõe. Mas, estar recluso ainda que no aconchego do lar, e tenho um lar bem agradável, tem um gosto amargo de impotência diante dos inconvenientes da convivência humana.

Estamos absolutamente sós porque não estamos a sós, porque o contato é uma constante de nossa existência, mesmo porque é através dele que nos afirmamos como somos e nos afirmam como queremos ser.

Viver é estar entre homens, e homens tem afetos, tem simpatias, tem prazeres e tem doenças. Também tem problemas.

Livremente escolhemos não exercer o direito de ir e vir. Livremente escolhemos sermos coautor da solução e não ser do problema da disseminação. Protegermos a nós mesmos e aos demais, um gesto de civismo, de civilidade, de participação na coletividade se restringindo a insignificância do nosso lar. É dos pequenos gestos que se criam as grandes soluções e mobilizações.


É cada um fazendo a sua pequena parte que as grandes ocorrências frutificam, é o cidadão tomando consciência de sua participação coletiva que faz a comunidade se proteger e crescer.

O mal da doença está fazendo surgir uma discussão sobre a participação de todos, senão na cura, na mitigação dos males do vírus. De certo modo, estamos desenvolvendo uma consciência de vida comum, social, cívica, a necessidade de se juntar pelo bem comum, a ser solidário, fraterno, humanitário.

O que está em jogo não é apenas dinheiro, bens, empregos, direitos, e tantas outras coisas importantes, mas a sobrevivência civilizada, onde temos que nos organizar para atravessar as dificuldades que devem ser divididas entre todos. Devemos nos preparar para também dividir os custos sociais e culturais que o surgimento dessa ameaça trouxe aos contemporâneos. Devemos nos preparar para desfrutarmos de menos recursos e de realizarmos maiores contribuição para o bem comum.

Uma coisa boa esse vírus já promoveu, a consciência de que somos uma comunidade, e que todos devem dar sua cota pelo bem geral. Tem mostrado a força da comunidade dos homens superando suas individualidades, gosto e prazeres pessoais, e se submetendo a um regime comum, a ricos e pobres, a velhos e jovens, a mulheres e homens, a todos independente de sua orientação sexual, religiosa, filosófica, política ou cultural. Somos todos igualmente reclusos, aguardando o pior passar, tentando não colocar em colapso a saúde pública.

E se aprendermos a agir em comum, e percebermos a força que temos em conjunto, que podemos nos unir pelo bem comum, pelo interesse geral, por questões políticas e culturais, temos a possibilidade de realizar ações ainda maiores. São as crises que trazem aprendizados e fazem surgir a inteligência terapêutica dos males; enfrentando os problemas é que surge a criatividade humana, na tentativa de facilitar a vida ou tirar mais proveito das coisas. São os desafios que atiçam a genialidade humana.

Que esses dias não sejam só para se lamentar, mas para refletir sobre nossas ações, nossos gestos, nossas escolhas. Deve ser um tempo para se dedicar a nos melhorar, pois isso é uma das poucas coisas que só nós mesmos podemos realizar para a melhora do mundo: que cada um se torne melhor após esse calvário! E que aprendamos a nos unir para outras empreitadas, por exemplo, por uma educação digna e civilizada, por algum tipo de unidade política, e não pelas inimizades e lutas constantes.

Roberto de Barros Freire é professor do Departamento de Filosofia da UFMT.

Os artigos assinados são de responsabilidade do autor, não apresentando, portanto, a opinião do site ReporterMT.











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