19.01.2013 | 08h24


OPINIÃO / GABRIEL NOVIS NEVES

Solidão

“Solidão é uma ilha com saudade de barco.”



Há algum tempo escrevi um artigo denominado “Solidão Protetora”. Fazia uma apologia da solidão, mirando apenas os seus aspectos pragmáticos.


A proteção a que me referia era uma defesa contra os neuróticos que povoam este país. A burrice institucionalizada. A chatice insuportável. A mesmice. O consumismo desenfreado. A inversão de valores.


Ficar só, em um ambiente que gosto e livre dessas aporrinhações, chamei de proteção.


Em termos materialistas, sim. Mas, onde fica o nosso emocional se fomos feitos para viver em coletividade?


Também somos seres unos - emoção e matéria. Impossível essa divisão egoística e sem alma.


Um colega médico da turma de 1960 leu o artigo e me respondeu indagando se “Solidão Protetora” era a minha carta de despedida. Pediu que não me suicidasse antes da sua chegada em Cuiabá para uma última conversa.


Reconheço que carreguei na pintura da exaltação da solidão, assim como dou toda razão ao meu colega.


A solidão não faz parte da história saudável da humanidade. Mesmo na vida intrauterina temos a proteção da nossa mãe. Assim que nascemos procuramos a felicidade, que nunca está na solidão. E como é difícil encontrá-la!


Por estar nas pequenas coisas, começamos a sofrer precocemente. A criança recém-nascida precisa do aconchego dos pais e estes, para dar todo conforto ao seu filho, paga uma secretária para ficar vinte e quatro horas por dia com ela.


A solidão, mesmo conscientemente transmitindo conforto, nunca fez bem, tampouco é uma acertada escolha de vida.


O ninho vazio hoje é matéria obrigatória de compêndios médicos. É o momento em que os filhos partem deixando a casa vazia para construir novos ninhos.


O emocional do casal é alterado diante do aparecimento da solidão que a ausência produz em certos casos.


Aceitei a sugestão do meu colega para rever essa comodidade ilusória da solidão protetora, que só existe devido a uma proteção do nosso consciente.


Acredito que no misterioso e, às vezes, inacessível inconsciente, um ponto de conflito de emoções aguarda para ser liberado.


As nossas experiências negativas ficam como que arquivadas em uma pasta, aguardando o momento de serem deletadas para que não produzam lesões orgânicas que podem nos levar a tratamento médico.


“Solidão Protetora” é filha da minha solidão nascida em um momento de paz, e não uma necessidade de vida solitária, achando-me protegido.


Quem nos protege da solidão é gente com permuta de emoções.


“Solidão é uma ilha com saudade de barco.” (Adriana Falcão).

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