04.12.2011 | 06h29


GABRIEL NOVIS NEVES

Solidão protetora



John Cacioppo é considerado um dos melhores psicólogos dos Estados Unidos da América do Norte. Sua especialidade: a solidão. Em recente entrevista, ele trata a solidão como um estado imprescindível à sobrevivência da espécie humana.
 

Diz ele que algumas pessoas precisam de menos companhia do que outras, e a solidão tem forte componente genético. “Nos primórdios da espécie humana, sobrevivíamos apenas porque nos mantínhamos em bando, o que garantia a proteção mútua”.


Segundo Cacioppo, a solidão tem os seus efeitos colaterais. E cita um dos piores: aumenta a timidez das pessoas. A qualidade da companhia é um fator importante. Às vezes, um bom amigo é o suficiente para produzir a felicidade de um número elevado de companheiros.


Cacioppo define a solidão como “ausência de contatos significativos”. O diabo é que, para a maioria da nossa população, por questão cultural, a ideia de felicidade está sempre associada à união amorosa.


“Para manter um bom contato com outras pessoas, é necessário se distanciar delas de vez em quando”.


Quanta sabedoria na simplicidade dessas observações!


No dia a dia do consultório, fico impressionado com o número de clientes que, no início da consulta, já diz logo que o seu problema é solidão. O conceito da presença física, muitas vezes de qualidade duvidosa, não é levado em consideração neste mundo de valores materiais.


O materialismo entrou de tal modo na cultura da nossa gente, que muitos acham que um presente resolverá uma síndrome de solidão que, muitas vezes, funciona como proteção àquela pessoa.


Cobertos de bens materiais são severamente cobrados pela sua “cura”. As pessoas que não tiveram acesso à educação e a outros bens sociais, expressam de maneira diferente a solidão. Dizem que a solidão é o período de espera da saudade - sentimento existente na nossa gente.


Certa ocasião, após muitos anos sem encontrar com um amigo, em um encontro casual, ele me disse:  “Como foi bom viver na solidão da sua presença por todos esses anos, sem uma única notícia! Isso provocou em mim, neste reencontro, o sentimento da saudade de alguém que existe”.


Solidão, não necessariamente, deve estar associado a medicamento de tarja preta. Não se encontra a solidão. Nós a fazemos, diz a escritora francesa Marguerite Duras. 

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