19.08.2019 | 11h00


GIANA BENATTO

Sentir-se velho

Você leitor, saberia responder?

Para fazê-lo mais confiante, vou falar da minha experiência pessoal. Sempre tive ‘olhos de lince’, enxergava tudo, longe, perto, tanto faz. Usei óculos para descanso na época do vestibular, nada mais. Entretanto, antes do Diário de Justiça ser digital, éramos, nós advogados (as) obrigados a ler as publicações diariamente.

Se tivesse um estagiário, secretária, filho, até confiávamos (desconfiando) o trabalho a eles, mas conferindo depois, pois perder uma publicação sempre acarreta um grande dano para um escritório. Na época com 42 anos, comecei a desconfiar que os editores do Diário de Justiça estavam diminuindo o tamanho da fonte – já minúscula – para caber mais informações por página.

Que nada, era a presbiopia chegando. Para quem não sabe, presbiopia é aquele distúrbio de visão em que você mais depende mais dos braços do que dos olhos para poder ler. Como era comum brincar que a velhice chegava quando, para ler, se necessitava mais dos braços para dar foco no texto, afirmo com certeza, que no momento em que ler o DJ virou problemático, o ‘peso da idade’ bateu. A crise que eu não tinha tido até então deu leves soquinhos na porta da minha vida. E, desde então, cá estou eu usando óculos. Não somente usando, mas totalmente dependente deles. Sem, entretanto, que isso me doa como doeu naquela semana.

Unicamente uma contingência do destino, cujas lentes me auxiliam agora. Muitas vezes, este ‘se sentir velho’ independe da idade cronológica. É um momento do espírito; velho de alma; velho de coração. Como encontrar com aquela amiga resmungona, desmotivada e rabugente, que para falar de alguma situação do passado utiliza a expressão no meu tempo. Bom, o meu tempo é agora. Eu tive meu tempo de infância, de juventude, mas o meu tempo continua sendo o hoje e espero que perdure muito ainda.

Às vezes, suponho que eu deveria me sentir velha, afinal tenho filhos adultos. Todavia, me sinto apenas mãe deles, na idade correta para ter filhos da idade deles. Se eles se sentirem velhos, então serei mãe de velhos, nada mais que isso. Eu não sei sentir a idade que tenho, pois é a primeira vez que a tenho. Embora algumas vezes mais lenta, mais preguiçosa, mais pensativa, estou longe de ser de ser uma pessoa lenta, preguiçosa e pensativa. Se puder escolher, não vou mais esperar para ver um espetáculo em pé, ainda que com um grupo animado. Prefiro me sentar e aguardar o artista entrar para então sair tresloucadamente dançando até os pés cansarem ou aparecerem as bolhas, como sempre aconteceu.

Som alto, me desculpe, mas o que não tenho mais é paciência e não ‘idade de sobra’. Sempre fui calma, apreciadora do ambiente, de um livro, de música. Permanecia horas vendo a vida passar pela calçada, sem tédio. Assim, o tempo foi se depositando em mim lentamente e sem trazer junto os atributos da chamada velhice. Fazia tricô e crochê na adolescência e hoje, se meus futuros netos dependerem de mim para fazer um sapatinho de crochê, vão ficar descalços. Mas, com certeza, poderão contar comigo para ir à pracinha, à praia, ao cinema e a parques de diversão. Pode ser que a qualquer momento eu me sinta velha de verdade.

Por enquanto sou nada além uma pessoa envelhecendo e buscando viver meu futuro com melhor qualidade de vida, rodeada de amigos, boas conversas, filmes, livros, direito à rede na varanda e a silêncios interiores. No momento sou uma senhora de agenda cheia – de sonhos, de planos e de projetos – novos e em andamento. Se a agenda está vazia, agradeço e assisto um filme. Santa Internet! Assim, continuo a provocação: Em que momento você se sentiu velho? E, continua se sentindo assim? (Nota: Presbiopia – distúrbio da visão, que ocorre aproximadamente aos 45 anos, em que, por perda da elasticidade e do poder de acomodação do cristalino, o indivíduo não percebe mais com nitidez os objetos próximos; vista cansada, presbiopsia, presbitia, presbitismo).

Giana Benatto Ferreira é advogada, membro da Comissão do Direito do Idoso da OABMT

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