13.07.2020 | 08h11


OPINIÃO / RENATO DE PAIVA PEREIRA

Rouba, mas faz

A maioria dos adultos de hoje por certo nunca ouviu falar do famoso Adhemar de Barros

A maioria dos adultos de hoje por certo nunca ouviu falar do famoso Adhemar de Barros (1901-1969), que foi prefeito da capital paulista, governador do estado de São Paulo por três vezes e candidato à Presidência da República. Durante os seus mandados, repletos de obras grandiosas, foi acusado de corrupção diversas vezes.

Diziam na época que o Dr. Adhemar de Barros era um esperto desviador de recursos públicos para o bolso próprio. Mesmo assim ele continuava a ganhar eleições, pois os eleitores internalizaram uma ideia que se espalhou por todo o País: “o Adhemar rouba, mas faz”.

Esta frase, que muitos atualmente conhecem mesmo sem saber quem era o Adhemar, ajudou a eleger prefeitos e governadores corruptos no Brasil inteiro, posto que ela legitimava os roubos desde que acompanhados de eficiência administrativa.

Alguns anos depois o Paulo Maluf, hoje condenado, seguindo a cartilha do velho Adhemar ganhou diversas eleições em São Paulo (governador, prefeito, deputado) montado nas mesmas obras de grande efeito popular e nos mesmos desvios éticos, tolerados pelos eleitores.

Conforme esse discurso, uma boa qualidade compensa um defeito e absolve os políticos que embolsam dinheiro público, desde que apresentem um saldo positivo entre realização e roubo.

Esse viés deletério perdeu um pouco de força no Brasil, principalmente depois da Lava-Jato, que colocou na cadeia uma série de políticos e empreiteiros, seguidores da filosofia Adhemar/Maluf.

Mas se por um lado o ladrão competente está em baixa, cresce o apoio ao honesto, mesmo incompetente, como vimos na última eleição para Presidente da República.  Sem nenhuma qualidade administrativa visível ou comprovável o Sr. Jair Bolsonaro conquistou milhões de votos dos brasileiros simplesmente pondo-se contra a roubalheira que a cúpula do PT instalara no País.

Ser contra a desonestidade é unicamente um dever dos mais básicos de qualquer pessoa, mesmo dos que não governam. Mas para governar é necessário unir essa virtude obrigatória a uma qualidade indispensável que é a competência para governar.

Vamos dar de barato que o atual Presidente seja realmente honesto e que nada tenha a ver com os deslizes dos filhos. Isso, entretanto não ameniza sua absoluta falta de aptidão para gerir a nação.

A democracia tem o defeito de escolher seus dirigentes muito mais pela emoção que eles despertam do que pela análise de suas qualidades. Assim foi com o falastrão Fernando Collor com sua caça aos marajás. Depois com o Lula que ficou oito anos no poder e ainda nos deixou de herança a Dilma Rousseff. O primeiro foi cassado, mas o povo de seu Estado nunca o abandonou. O segundo, apesar de condenado, mantém um invejável capital político.   

Agora vivemos o momento honesto/inapto, enquanto esperamos encontrar uma pessoa que reúna a indispensável probidade com a necessária aptidão administrativa. Só que esse candidato probo e capaz precisa ter a capacidade de empolgar os eleitores, posto que eles priorizam o carisma em prejuízo dos valores necessários ao desempenho do mandato.

Assim é a democracia:  poderemos eleger no futuro um que “rouba e não faz”, desde que seja suficientemente carismático.

Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor.

 

 

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