15.07.2020 | 07h49


OPINIÃO / JOÃO EDISOM

Para além das fake news

Não há mentira que dure para sempre. Assim como não ha verdade que um dia não apareça

Como será viver em um mundo sem mentiras? O século XXI, com um celular na mão, fez as lorotas de boteco e pontas de esquina saírem das calçadas e alcançarem o planeta através de um toque. Usando essas mesmas ferramentas, merchandising politica, produzida nos gabinetes (de ódio) fez as pessoas confundirem notícia com opinião e, assim, o campo do “deixa que eu invento” tomou conta dos compartilhamentos entre amigos e conexões.

Aplicativos e redes sociais substituíram as espadas, metralhadoras e facas dos gangsters das milícias e dos piratas de outrora com o objetivo único de saquear e destruir a realidade posta. Para isso apelaram para a reinvenção da história, a negação do passado, e passaram a recriar as verdades (pós verdades) e destruir reputações.

O coronavírus, e mais especificamente a Covid-19, que é uma pandemia em meio a pandemia da ignorância, trouxe à baila a realidade, dura, cruel e implacável: não adianta inventar soluções. Ela assusta, ela fere, ela mata, ela desmente os pseudocientistas de whatsapp e redes. A realidade é assim; você nega, inventa, disfarça, mas ela volta e te pega na outra esquina. Negacionistas, torcedores apaixonados, simulados fiéis, infiéis, sínicos, bondosos ou malvados... Não importa, realidade uma hora te pega.

Friedrich Nietzsche afirmou que “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que das mentiras”. A coisa está tão séria que poderíamos afirmar com tranquilidade que para os negacionistas, apaixonados por políticos de estimação, contar mentiras nas redes sociais é regra. Por isso a verdade, ou opiniões fundamentadas, virou provocação.

Há uma massa considerável que leva ao pé da letra à aceitação superficial do que lhes dizem sem fontes e sem estudo sério. São pessoas que apenas repetem as frases que leram nos aplicativos de conversa ou viram nas redes sociais. Dai vem a facilidade da verborragia escrachante da rotulação. Sim, é mais fácil colocar apelido que estudar o nome verdadeiro das coisas.

Parafraseando Umberto Eco, entendemos que nem todos os ouvidos estão preparados para ouvir questionamentos lógicos, principalmente aqueles que trocaram o conhecimento e as evidencias cientificas pelo apego e pelas paixões. O castigo é que quem nega a realidade sofre mais depois que a luz da verdade acende, pois sofre pela traição em si, pela vergonha do que falou e por si mesmo.

Não há mentira que dure para sempre. Assim como não ha verdade que um dia não apareça. Daí que vem a questão de como será o mundo no pós fake news? Como será a ressaca das convicções? Pois fácil é ouvir a cantilena que toca. Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.

Uma coisa é certa: existe um mundo real e moderno para além das mentiras, para além das fake news e para além das verdades inventadas. É o mundo que cura, o mundo que vive e que teima sem ofender, pois jamais sentirá vergonha do que pensa ou do que diz.

 

JOÃO EDISOM é Analista Político, Professor Universitário em Mato Grosso.

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