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12.01.2012 | 11h17


OPINIÃO / SÉRGIO MALBERGIER

O sonho virou realidades



O Big Brother, ao final, não foi imposto, mas voluntário. Não nos aprisionou, é libertário. A conexão de tudo com todos o tempo todo transfere poder do grande para o pequeno. E, desculpe a profecia, vai acabar com o Estado nacional como o conhecemos.

Estamos plugados no sistema e queremos cada vez mais conexão, mais velocidade. Os celulares que nos conectam 24/7 são como revólveres que heróis do faroeste sacavam para fazer justiça. Muito mais efetivos.

A Polícia Militar de São Paulo sentiu a força da nova força esta semana.

PMs no campus da USP foram flagrados em vídeo agredindo um estudante gratuitamente, o único estudante negro do grupo, de cabelo rastafári.

Foram tapas e empurrões (que você vê aqui) que passariam impunes como o grosso da crônica brutalidade policial brasileira não fosse o admirável mundo novo da comunicação total.

As imagens da agressão foram rapidamente para a web, ganharam destaque nos grandes veículos da internet como esta Folha.com e acabaram no Jornal Nacional horas depois já com uma pronta reação do governador paulista, que afastou os envolvidos e abriu investigação.

Fulminante!

Se os nóias da cracolândia tivessem câmeras na mão certamente seriam tratados de outra forma pela polícia.

Essa capacidade de comunicação total muda tudo, tudo.

Capacidade de comunicação é capacidade de organização, de defesa, de ataque, de realização. Está óbvio que as redes sociais são o começo de novas formas de organização, que prescindem da intermediação do Estado, transcendem o poder do Estado e ultrapassam as fronteiras nacionais, como na onda de manifestações populares de 2011.

Nem tudo são flores, claro. Os distúrbios na Inglaterra, por exemplo, deixaram claro o lado escuro da força, com gangues se organizando com enorme facilidade, rapidez e eficiência, surgindo, saqueando e sumindo antes de a polícia detê-las. O BBM, o sistema de mensagens instantâneas dos telefones Blackberry, foi o principal organizador desses grupos instantâneos, "flash mobs", convocados viralmente para trazer caos às ruas inglesas.

No seu recém-lançado relatório de riscos globais 2012, o assustado Fórum Econômico Mundial destaca o risco de "fracasso de governança num mundo hiperconectado".
O relatório vê a capacidade de governança ficando para trás diante da complexidade crescente das sociedades, com instituições do século 20 vulneráveis às novas forças populares e incapazes de responder aos novos sistemas do século 21. Imagine então o Estado nacional, modelo parido no século 18.

A formação de governos tecnocráticos ou submissos ao mercado em países em crise econômica como Itália, Grécia e Espanha mostram como esse sistema civil, global, pouco controlável, suplanta as forças políticas tradicionais de forma cada vez mais explícita.

Outros sistemas e outras organizações estão surgindo em detrimento dos poderes estatais estabelecidos. Já era hora. Passamos séculos demais bovinamente transferindo recursos e poderes para burocratas ineficientes, corruptos ou no mínimo distantes.

O mundo agora é nosso. A ser construído. O sonho hippie da vida em comunidade evoluiu. Virou realidades.

*Sérgio Malbergier é jornalista e colunista da Folha de SP.

Os artigos assinados são de responsabilidade do autor, não apresentando, portanto, a opinião do site ReporterMT.











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