11.01.2013 | 07h42


OPINIÃO / MOACYR FREITAS

O porto desprezado do Rio Cuiabá



Quanta saudade nos traz as partidas de lanchas de passageiros do nosso porto cuiabano.
Verdadeiras tardes festivas no bairro, para onde convergia muita gente para o bota-fora de seus familiares ou amigos.

As fotos desses vapores ainda são vistas por aí (clique aqui e veja), testemunhando esse tempo saudoso. Hoje, não temos mais a visão panorâmica do nosso rio Cuiabá. Somente das pontes sobre ele podemos apreciá-lo. É pena que haja tanto desprezo ao rio que dera o nome a nossa Capital.

Detritos de esgoto “in natura” são despejados nele sem a mínima consideração. Esquecem ou ignoram que tanta alegria esse rio nos dera no passado.

Como cuiabano nato, espero que nosso novo prefeito demonstre seu amor a nossa Cuiabá libertando nosso rio dessa incompreensiva ingratidão que vem sofrendo.

A falta de respeito ao rio, certamente, é daqueles que talvez nunca tenham lido a história da cidade, ou não tenham conhecimento do que vem ocorrendo com ele. Se tivessem conhecimento dos fatos históricos, acredito, não o desprezariam tanto.

Para os que ainda não sabem, o rio Cuiabá foi o caminho da histórica penetração na imensa e rica região de domínio espanhol pelos bravos brasileiros, ainda formados de mamelucos, índios e descendentes de portugueses.

Nesta ousada penetração pelo rio Cuiabá, certamente houve muitos desembarques em terra firme pelos mais variados motivos. Entretanto, neste lugar, muitos desembarcaram cheios de esperanças, porque buscavam o enriquecimento fácil, acima de tudo, o ouro cuiabano.

Em diferentes épocas da história, vários desembarques e embarques nesta margem esquerda de nosso rio Cuiabá registraram-se, fixando para a memória fatos históricos muito significativos para todos os cuiabanos e mato-grossenses que amam esta região.

Vamos lembrar, pela ordem de antiguidade:

- A chegada do Capitão General Rodrigo César de Menezes, em 15 de novembro de 1726. Ele elevou o Arraial de Cuiabá a Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Pertencíamos à Capitania de São Paulo;

- A chegada solene da imagem do Senhor Bom Jesus, em 1729;

- A chegada do primeiro vapor ”Corsa”, procedente do Rio de Janeiro, em 20 de fevereiro de 1857;

- A partida da tropa de Voluntários Cuiabanos para a retomada de Corumbá, no século XIX, sob o comando do Tenente Coronel Antônio Maria Coelho;

- A chegada da imagem de São Gonçalo, em 1781, trazida do Arraial de São Gonçalo Velho, foz do rio Coxipó. Chegou em solene procissão fluvial para sua nova capela próximo do porto;

- A chegada do primeiro automóvel FIAT, em 1919, e também, antes deste, em 1914, o primeiro caminhão ORION, registrado no Álbum Gráfico de Mato Grosso;

- A chegada de passageiros pelo hidroavião da Condor, o primeiro que amerrisava neste rio na década de trinta do século passado, inaugurando a linha aérea comercial para Cuiabá;

- A partida dos “Pracinhas” cuiabanos para compor a Força Expedicionária Brasileira, na 2ª Guerra Mundial, na década de quarenta do século passado;

- Vários outros embarques e desembarques de passageiros e também de cargas importantes aconteciam festivamente neste porto cuiabano. Muitos destes viajantes foram ilustres nomes da nossa história mato-grossense, que não cabe aqui enumerá-los, sem o risco de sermos traídos por nossa memória.

Assim, é tão importante este lugar, uma lembrança, como um marco histórico de nossa Capital.
Portanto, vamos aguardar com ansiedade a recuperação do nosso rio. Que venha logo essa possibilidade de podermos contemplar novamente as águas limpas do nosso querido rio Cuiabá.
 

Arquiteto Moacyr Freitas é membro do Instituto Histórico  e Geográfico de Mato Grosso.

 

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(3) COMENTÁRIOS

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Airton Reis  11.01.13 15h01
Esquecido Rio Cuiabá “É preciso não esquecer nada: Nem a torneira aberta, nem o fogo aceso, nem o sorriso para os infelizes, nem a oração de cada instante. É preciso não se esquecer de ver a nova borboleta, nem o céu de sempre. O que é preciso é esquecer o nosso rosto, o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. O que é preciso é esquecer o dia carregado de atos, a idéia de recompensa e de glória. O que é preciso é ser, como seja não fôssemos vigiados pelos próprios olhos, severos conosco, pois o resto não nos pertence”. (“É preciso não esquecer nada” - Cecília Meireles). Esquecemos de ti pátrio rio Cuiabá. Esquecemos das suas veredas outrora verdejantes. Esquecemos dos ribeirinhos privados do seu manancial mais do que pesqueiro. Esquecemos de quem nos move em mais de uma travessia iluminada pelo mesmo Cruzeiro. Esquecemos dos remos que nos conduzia. Esquecemos a abundância do peixe no pão nosso de cada dia. Esquecemos dos pescadores privados dos remansos em suas baias. Esquecemos do que é belo por natureza. Esquecemos até mesmo das pedras submersas em sua correnteza. Esquecemos das dragas e dos bueiros a céu aberto. Esquecemos dos curtumes cruciais. Esquecemos das nascentes sem vazão. Esquecemos das águas represadas para gerar energia vendida para a população. Esquecemos das matas ciliares capituladas em legislação. Esquecemos do por do sol no mesmo horizonte outrora azul por inteiro. Esquecemos dos assoreamentos continuados em degradações. Esquecemos dos legisladores equivocados em suas atribuições legais. Esquecemos dos nossos ancestrais. Esquecemos a origem da nossa cultura. Esquecemos o princípio da nossa cidadania. Esquecemos dos portos mais do que comerciais. Esquecemos dos peixes fisgados aquém dos festivais. Esquecemos de te enaltecer e te conservar. Esquecemos de te agradecer e te amar... Não nos esqueceremos de te salvar. Não nos calaremos como as esquecidas lontras brilhantes. Não nos omitiremos como os sucessivos governantes. Não nos venderemos por míseros trocados. Avistaremos além dos seus córregos condenados pela modernidade. Cantaremos em lâminas mais do que uma fatalidade de cunho ambiental. Cumpriremos o desígnio de um rio destituído em sua função vital: Saciar a nossa sede, amenizar a nossa fome, fomentar a nossa pesca artesanal. Banhar repleto de vida aquém e além dos limites urbanos desta Capital! Airton Reis é poeta em Cuiabá-MT. airtonreis.poeta@gmail.com

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Jomax Faria  11.01.13 13h01
Arquiteto Moacyr é fenomenal, sabe tudo. Entre a Av. Beira Rio e o Rio Cuiabá não deveria haver construções. Existia ou de repente ainda existe uma lei municipal da década de 70 que proibia qualquer construção nesse espaço, em virtude de enchentes, etc. Acontece que algum prefeito de lá pra cá, digamos...esqueceu dessa lei e permitiu que se fizesse esse crime público. Ou seja, as evidências insinuam que venderam indevidamente toda essa área para a iniciativa privada e aí houve essa invasão imobiliária em terreno probido. Entre a avenida e o rio era um espaço destinado a população em seu lazer, para realizar feiras, passeios, no máximo algum museu ou algo semelhante, com total vista para o rio. Hoje, incrível, tem até edifícios lá dando as costas para o rio. E o CREA aprovou essa aberração. Como pode isso!

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Jandira Maria Pedrollo  11.01.13 11h01
Como sempre o Arq. Moacyr Freitas foi brilhante. Só ama e cuida quem conhece e com tantas barreiras já está até difícil visualizar o rio, quanto mais usufruí-lo. Chega de privatização de suas margens. Vamos resguardar o pouco que resta dos espaços vazios para uso público. Vamos nos virar DE FRENTE PARA O RIO CUIABÁ e não de costas como estamos desde meados dos anos 1970. Ainda é tempo.

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