10.12.2019 | 08h15


ROBERTO DE BARROS FREIRE

O inevitável processo civilizatório

A vida vai acrescentando coisas e desejos à nossa existência

Há muito tempo tento resistir às tentações da vida tecnológica, aos supostos prazeres e as irreais ou aparentes facilidades que ela proporciona. Sempre considerei que a expansão de horizontes que permiti é um tipo de aprisionamento em coisas encantadoras, mas efêmeras; belas, mas descartáveis; miúdas, mas vistas como grandes.

Sei que muitos viciam na internet, nos smartphones, e vivem virtualidades como se fosse realidade. Vivem personagens, adquirem uma personalidade digital, por vezes, com uma existência de influenciador, de sucesso, de fama. Nada que dure por mais de uma temporada, até que alguém novo caia no gosto comum, que é volúvel e mutante.

Naturalmente, por ser uma pessoa antiga (jamais velha!), gosto dos encontros face a face, de debater ideais, valores, gosto, princípios, enfim, as coisas que nos eletrizam para a vida. Ainda que se possa trocar ideais sentado na frente de computador ou do smartphone, quando se está junto a um outro, se constrói junto, algo que brota espontaneamente no contato direto, sem passar pelo filtro do pensamento para elucubrar o que dizer e escrever, que dá tempo de mudar, antes de publicar. Por isso, não deixo de estranhar 4 marmanjos numa mesa de bar, e ao invés de estarem conversando, estão todos digitando nos celulares.

Mas, o mundo está se transformando de tal modo, que a única forma de se inserir na sociedade contemporânea é via smartphone; a sua ausência te transforma, no mínimo, num estranho do ninho. Estão desaparecendo os telefones públicos, locais onde se compra cartão telefônico. Há uma série de acessos desenvolvidos para códigos que só podem ser lidos pelas telas e câmaras dos smartphones. Enfim, assim caminha a humanidade, e se quer continuar a acompanhar os demais, é preciso se render aos instrumentos tecnológicos.

Como quase sempre estou com minha mulher ou com conhecidos que se utilizam dos smartphones, nunca havia sentido a falta dele. Bastou uma viagem por alguns dias sozinho e não conseguir telefonar para casa por não haver telefones públicos, nem conseguir um Uber ou taxi, pois tudo se solicita por esses aparelhos, para se perceber que dificulta muito a vida não estar “plugado” na rede por tempo integral.

Assim, cedi ao antigo apelo familiar, de possuir um smartphone. A coisa é sem dúvida muito encantadora e facilita a vida atual, feita para aparelhos. Dá uma autonomia e permite buscar a verdade em qualquer lugar, se bem que haja mais mentiras ou falsidades, pois a verdade é uma só, mas a mentira e as falsidades são infindas. Amplia nossa inserção no mundo e permite o acesso as informações em tempo integral, porém também nos tornando presente em tempo integral, recebendo mensagens e recados, cobrando atitudes, vigiando os gestos, controlado e controlando.

Uma coisa é certa, agora que adquiri um, a partir desse momento se tornará algo que não poderei mais viver sem, pois só se pode sentir a falta de algo, quando se tem esse algo. A partir de amanhã, pensarei como pude viver antes sem um smartphone, e em breve nem me lembrarei como era a vida sem ele. A vida vai acrescentando coisas e desejos à nossa existência, e a partir do momento que os conhecemos se tornam necessários e obrigatórios. A humanidade viveu milênios sem luz elétrica e hoje é um artigo de primeira necessidade, e parece que a vida seria impossível sem ela. Descobrir coisas novas acrescenta necessidades na nossa existência.

ROBERTO DE BARROS FREIRE é professor do Departamento de Filosofia da UFMT.

Os artigos assinados são de responsabilidade do autor, não apresentando, portanto, a opinião do site ReporterMT.











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