01.04.2012 | 11h04


AIRTON REIS

Millôr do Brasil (1923-2012)



“Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus. A gente só morre uma vez. Mas é para sempre. Há colcha mais dura que a lousa da sepultura? Cada ideologia tem a inquisição que merece. Inúmeros artistas contemporâneos não são artistas, e, olhando bem nem são contemporâneos. Probleminhas terrenos: quem vive mais morre menos?

A girafa, calada, lá de cima vê tudo e não diz nada. Qualquer idiota consegue ser jovem. É preciso talento para envelhecer. Eu sofro de mimfobia, eu tenho medo de mim mesmo e me enfrento todo dia. Entre o riso e a lágrima há apenas o nariz. Todo homem nasce original e morre plágio. Errar é humano. Botar a culpa nos outros também.

O que este país precisa é realmente de alguém que apague a luz do fim do túnel. Tem cautela; ajuda o Sol com uma vela. Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados. Nada tem nexo, tudo é apenas um reflexo. Cada um tem o Cirque du Soleil que merece. Você pode evitar descendentes. Mas não há nenhuma pílula para evitar certos antepassados.

O tempo não existe, só existe o passar do tempo. E convém não esquecer que bitributação é quando arrancam seis vezes o dinheiro do cidadão. Pois o normal já é tributação. Toda lei é boa, desde que seja usada legalmente. Estranho é que o cérebro, feito essencialmente para produzir idéias, exulte quando tem uma. Trabalho não mata. Mas vagabundagem nem cansa.

Amor ao próximo é folgado, difícil é se dar com o homem ao lado. O desespero eu agüento. O que me apavora é essa esperança. Sexo causa gente. A natureza, ao fazer um ser humano competente, por acaso consulta alguma universidade? Dito e feito, tudo foi dito e nada foi feito. Uma pessoa feliz não tem o melhor de tudo; ela torna tudo melhor. Apenas companheiros de estrada, ruas, valas, alguns quintais, dias, noites, noites e dias, Sol e chuvas ocasionais. Vamos onde as paralelas se encontram, lá nos separamos.

Viver é desenhar sem borracha. Viva o Brasil onde o ano inteiro é primeiro de abril. Olha, entre um pingo e outro a chuva não molha. Capacidade de saber cada vez mais sobre cada vez menos, até saber tudo sobre nada. O tirano pode evitar uma fotografia, mas não pode impedir uma caricatura. Nada é mais falso do que uma verdade estabelecida. É meu conforto: da vida só me tiram morto. Sim, irmão, o dinheiro não é tudo. Mas o que é tudo? Nunca soube por que tanta gente teme o futuro. Nunca vi o futuro matar ninguém. Nunca vi o futuro roubar ninguém. Nunca vi nada que tivesse acontecido no futuro. Terrível é o passado ou, pior, o presente!

Que foi isso, de repente? Nada; dez anos se passaram. Não diga! Se somaram? Se perderam? Algumas relações se aprofundaram? Se esgarçaram? Onde estávamos? Onde estamos? E... aonde vamos? O tempo, em lugar nenhum e em silêncio, passa. É inegável - todos temos mais dez anos agora. Ainda bem, poderíamos ter menos dez. Tudo nos aconteceu. Amamos, disso temos certeza. E fomos amados - onde encontrar a certeza? Avançamos aqui materialmente, ali não, nos realizamos neste ponto, em outros queríamos mais, algumas coisas tivemos mais do que pretendíamos ou merecíamos - mas isso é difícil de reconhecer.

Perdemos alguém - "Viver é perder amigos". No meio do feio e do amargo, no tumulto e no desgaste, tivemos mil diminutos de felicidade, no ar, no olhar, na palavra de afeto inesperado, que sei? Espera, eu sei. É a única lição que tenho a dar; a vida é pequena, breve, e perto. Muito perto - é preciso estar atento”.

AIRTON REIS é poeta em Cuiabá.
airtonreis.poeta@gmail.com

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