31.03.2012 | 09h23


GABRIEL NOVIS NEVES

Memória curta



Dizem que o brasileiro tem memória curta, esquecendo facilmente dos seus “benfeitores”, razão pela qual está sempre à procura de um.

Se alguém estiver sem fazer nada, e fizer uma rápida revisão nos últimos anos da nossa história, irá se surpreender com estrelas que apareceram e desapareceram, sem deixarem o mínimo de rastro no firmamento.

O espada de ouro, o homem da vassoura, o corvo, o cabo que comandava almirante, o cunhado que não era parente.  O castelo, o costa, o radinho no ouvido, o alemão, o cheiro de cavalo. O ex que foi titular, o caçador de marajás, o topete, o PhD, sapo barbudo, e tantos que rapidamente caíram no esquecimento.

O Ibope ajuda a esquecer dessas figuras, que um dia se julgaram  queridas, inesquecíveis, imortais.

Isso para ficar, com os principais, pois a fila é longa.

Quantos se lembram de alguns feriados nacionais, que foram banidos do nosso calendário cívico, edifícios públicos que tiverem o nome dos seus personagens mudados, assim como de ruas e avenidas?

Bem antigamente na ex-Cidade Verde, esse troca-troca de nomes em logradouros públicos, era chamado de oportunismo administrativo.

Agora, ninguém está mais ligando pra nada.

Indago aos habituais frequentadores dos desfiles cívicos militares do comemorado 31 de março, se não sentem saudades dessas festas?

Esqueceram da data, que lhes propiciou muitas conquistas pessoais, e durantes anos foi  uma data tão cara a eles.

Alguém se lembra do nome do prefeito de Cuiabá, que sancionou a lei mudando o nome de uma avenida de nome tão cuiabano, para 31 de Março?

O tempo é um apagador da memória histórica, só que no Brasil é movido à energia nuclear, tamanha a sua velocidade e poder de destruição.

Estevão de Mendonça foi perfeito, quando cunhou a frase - “Morre duas vezes, quem  morre em Cuiabá, da morte física e da morte do esquecimento.”

Jamais esquecerei o dia 31 de março de 1964. Não havia completado 29 anos de idade, estava casado há menos de três meses. Era uma terça feira, dia do meu plantão no Hospital Souza Aguiar, equipe Catta-Preta no Rio de Janeiro.

Ao vestir o uniforme para o plantão, o serviço de alto-falante do hospital me convoca e ao saudoso Augusto Paulino Neto, para comparecer com urgência, ao gabinete do diretor Dr. Brito Cunha.

O ambiente que encontramos era de guerra, e a orientação foi pesadamente passada a nós.

“Não sei o que acontecerá no Rio de Janeiro. Montamos vários hospitais de campanha em pontos estratégicos da cidade, para a iminente guerra civil. Vocês ficarão no hospital, dentro do Palácio Guanabara.

Sairão daqui com um colete para proteção do tórax, deitados no piso de uma ambulância particular. Boa sorte, e que Deus nos proteja”.

Olhei para o Augusto, ele para mim onde não trocamos uma palavra. Nosso pensamento era idêntico - seguir o Juramento de Hipócrates.

Um rápido filme passou pela minha cabeça - mulher, família distante, e aquela situação.

No palácio Guanabara, assisti atos de desprendimento  pela vida, assim como as fragilidades humanas.

31 de março será uma data inesquecível para quem no palco dos acontecimentos assistiu grande parte da verdadeira história da briga entre militares e civis pela tomada do poder.

Já li muita “estória” escrita sobre essa fatídica terça feira. A realidade foi bem diferente.

Não tenho memória curta, apenas me divirto com as deformações dos fatos históricos, que abomino.

 

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