10.06.2012 | 09h27


CLÓVIS ROSSI

Mais aspirina contra o câncer



A Europa está preparando mais uma aspirina para tentar estancar o câncer que a corrói: informa o "Financial Times" que a União Europeia quer ajudar os bancos espanhóis em acelerado processo de naufrágio sem, no entanto, impor ao país a contrapartida de um pacote de austeridade tão rígido como o que sufoca Grécia, Irlanda e Portugal.


Acima de tudo, não haveria a constrangedora supervisão externa, que acrescenta humilhação à dor do ajuste.

A Europa já despejou € 4,5 trilhões nos bancos, desde o início da crise, entre injeções diretas e garantias estatais, sem conseguir desentupir as veias do setor financeiro.

E olhe que € 4,5 trilhões dão uns dois Brasis, o que demonstra que a banca cavou um buraco tão fundo que os Estados não conseguem tapar e, ainda por cima, endividam-se para fazê-lo e passam a ser açoitados pelos mercados.

Mesmo que a eventual ajuda europeia à Espanha seja condicionada apenas a uma austeridade "light", ainda assim vale a observação de que o país entrará na "enfermaria" da Europa, para usar expressão de Mohamed El-Erian, um desses grandes gurus dos mercados, em artigo para o "FT".

Entrar na enfermaria não seria grave se houvesse saída, mas, completa Erian, os países supostamente beneficiados acabam virando "barata de motel" -fazem check-in, mas nunca fazem check-out, para usar a propaganda de um produto para acabar com as chamadas "roach motel".

O que a Europa precisa fazer é parar com essas gambiarras "e dizer que o euro é um projeto irreversível e não está em jogo", como afirmou o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, no dia em que a Espanha jogou a toalha e pediu socorro. Ou, posto de outra forma: ou a Europa acha que o euro foi um erro, uma opinião que vai ganhando adeptos crescentemente, e começa a desfazê-lo da forma mais organizada possível, ou, ao contrário, aprofunda a união monetária, começando pelo que está sendo chamado de "união bancária".

Seria um sistema de regras comuns para todos os bancos da zona do euro, supervisão comum e fundos comuns para garantir que os depositantes não sejam prejudicados pelas aventuras dos gestores.

Aliás, a Comissão Europeia está propondo, paralelamente, um mecanismo pelo qual serão as próprias entidades que pagam pelos estragos, em vez de socializar o prejuízo, jogando-o no colo dos Estados e/ou dos depositantes.

Nenhum dos dois caminhos é fácil. É cômodo ser palpiteiro remoto e sugerir que desfazer o euro seria um caminho de rosas.

Ao contrário, "um total colapso da eurozona poderia ter consequências devastadoras, com as economias europeias potencialmente encolhendo em porcentagens de dois dígitos", diz editorial do "FT".

Já o aprofundamento da união esbarra na desconfiança que o público europeu demonstra em relação às cessões de soberania, inexoravelmente ligadas ao projeto.

Talvez pelas dificuldades, a Europa prefere continuar tratando câncer com aspirina. É jogar dinheiro fora e aumentar a dor.

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