11.06.2012 | 09h31


OPINIÃO / HELDER CALDEIRA

Liderança ‘internectual’



Recentemente, o escritor brasileiro Paulo Coelho publicou em seu blog um brilhante artigo sobre certo sistema falido de cultura e a ascensão das mídias digitais nesse início de século 21. O título e seu neologismo são absolutamente autoexplicativos: “O intelectual está morto. Viva o internectual!”. Um dos seus milhões de leitores-internautas – que assina apenas “Wilson R” – comentou: “No princípio, poucos escreviam para poucos; depois, poucos para muitos; hoje, muitos para muitos”. Perfeito! Chave de ouro.


A premissa do louvor entusiástico de Paulo Coelho aos “internectuais” é quase uma ode crítica ao número cada vez maior de supostos notáveis lamuriosos do mercado literário no Brasil e no mundo. No entanto, a mesma dinâmica pode ser aplicada a quase todos os nichos profissionais: o duelo feroz entre os antigos e os novos economistas, padeiros, jornalistas, mecânicos, escritores, médicos, etc. Em amplo aspecto, a era digital revolucionou não apenas os meios de produção, mas transformou completamente os mecanismos de divulgação, o potencial de publicidade.


Dito isso, que tal mirar o retrovisor? No tempo que a internet invadia e começava seu império, nasceu também a maior mentira já contada pelos “notáveis” de diversas áreas, disfarçada sob a pele de verdade suprema e democrática num universo cada vez mais capitalista: “há espaço profissional para todos no mundo atual”. Isso apenas soa afirmativa correta, mas trata-se de uma retumbante mentira. O mercado ainda é regido pelo baronato do século passado e é cada dia mais difícil selecionar ramos de trigo em meio à proliferação maciça de joio na blogosfera.


Tomemos como exemplo a arte de Paulo Coelho: escrever. Por hobby, dezenas de milhões escrevem todos os dias, tornando públicas suas letras nas redes sociais, sites pessoais, portais e afins. São lidos por alguns, criticados por poucos e, às vezes, até admirados. Para estes, há espaço de sobra na memória digital da humanidade. Mas, reitero: estamos falando de hobby. Quando o assunto é tornar-se um escritor profissional (conseguir uma editora, publicar seus livros, tê-los bem distribuídos, alcançar a mídia, conquistar mercado e vender o suficiente para sobreviver neste e deste ofício) a mentira do “espaço para todos” revela sua face mais cruel: o mercado não é um funil. É um cofre.


O mesmo acontece no jornalismo. A blogosfera está recheada de websites de jornalistas e sobram espaços nas redes sociais para o desenvolvimento das mais diversas pautas. Lá não existem linhas editoriais. O que determinará um maior ou menor número de visualizações é a capacidade de criar conexões virtuais, “curtidas” e “compartilhamentos”. Uma espécie de novo boca-a-boca: o clique-a-clique. Mas todo esse esforço na maioria das vezes significa renda-zero ou resultados próximos à nulidade.


Um jornalista que realmente tenha pretensões profissionais terá que encontrar uma forma de abrir o cofre, descobrir seu segredo. E mais: aberta a porta, o desafio será entrar, porque o ambiente está abarrotado e não cabe mais ninguém. Pra você entrar no cofre, alguém vai ter que sair. Pode parecer cruel e até antiético, mas essa é uma verdade lúcida do capitalismo real que vivemos. Subestimá-la ou enganar-se quanto sua imposição é suicídio. Observemos, grosso modo, fatos relativamente recentes na dita “grande mídia”: o jornalista William Waack só ascendeu ao posto de âncora do Jornal da Globo quando Ana Paula Padrão saiu da bancada em busca de outras paragens; Patrícia Poeta só assumiu o Jornal Nacional após a saída de Fátima Bernardes. Assim são os movimentos dentro do cofre.


Em suma, o “internectual”, saudado pelo nobre escritor, não é um fim. É um caminho. Este sim se agigantou e criou as mais amplas possibilidades nos mercados de trabalho. Mas que ninguém se engane: a liderança “internectual” não é sinônimo de sucesso ou reconhecimento profissional. É apenas um caminho mais barato e democrático de busca e publicidade. À porta do cofre e dentro dele, a batalha continua sangrenta e não há espaço para ingenuidades, piedades e contemporização. Tentar convencê-lo do contrário, por si só, já são armas nessa guerra. Como bem concluiu Paulo Coelho, “mãos à obra, porque qualquer sonho dá muito trabalho”.


*Helder Caldeira: escritor e jornalista político.

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