13.01.2012 | 09h29


OPINIÃO / HONÉIA VAZ

Jogo do Bicho e crimes além do sagrado



Saí de casa perto das 8h. Os 7 cavalos estavam arreados desde a noite. Desloquei-me por meia hora, mas sozinha. Cheguei em frente à casinha branca, jardim de rosas brancas, vermelhas e amarelas, em meio a quase uma primavera fora de temporada e persistente o ano inteiro. Pensei várias vezes como ia fazer. Bati à porta. Atendeu uma senhora aparentemente “boa gente”, fala delicada, cumprimentando costumeiramente, e mandando entrar. Serviu café. Pensei de novo como fazer e então saquei o que viria a ser um meio de ganhar dinheiro extra naquele dia. Falei à senhora do que se tratava. Ela, espantada, mal teve tempo de reagir...

...Antes que eu entregasse a ela o papelzinho com as dicas do jogo do bicho! Tirando todo o clima de ilegalidade, contravenção e agora a um passo de se tornar crime, esta mesma história real, em que eu sou a pessoa há 20 anos, poderia ser descrita de outra forma.

“Saí de cada às 8h, por que havia sonhado com 4 cavalos no telhado da casa e 3 embaixo (no jardim). No contexto do sonho, mentalmente havia uma voz que dizia que era o bicho da vez no jogo, e havia um entendimento mental de minha parte sobre isto, mas sem a visão de quem falava. Lembrei-me de uma senhora muito simpática, sempre sorridente a aguar as flores, residente no centro de Goiânia, caminho da casa do meu pai, e que mantinha uma plaquinha de banca de jogo do bicho. Passo lá e mostro a ela a anotação no papel. Ela ri espantada com a quantidade de cavalos, e ensina como distribuir o dinheiro “do primeiro ao quinto”, enfatizando que ia dar na cabeça e no segundo prêmio, segundo a arte do adivinhatório e da interpretação do sonho.


Viúva, dona Rosemeire era uma dona de casa, que pagava parte do material escolar de seus filhos com o pequeno dinheiro do jogo do bicho. Sempre sorridente, com uma mensagem positiva e de boa sorte na dica do dia, ela se traduz em apenas uma mãe de família honesta na ponta de um processo que pode ser igualmente idôneo, lembrando que os jogos no Brasil – Mega Sena, LotoFácil, Loteria Federal, entre outros, significam pequenas e divertidas apostas de cidadãos padrões. De acordo com o senhor Antônio, um nordestino residente em Cuiabá-MT, isto significa “fazer a fezinha”, com investimentos semanais (duas cartelinhas), no sonho de ser rico, sem deixar de ser um “muito trabalhador” desde os seus 8 anos, enfatiza ele.

Ou seja, é preciso separar uma coisa da outra, alhos de bugalhos, Jogo do Bicho de formação de quadrilha, banca de jogo de reduto de máfias - regulamentar, legalizar e monitorar, tornando este um canal de geração de emprego e renda e de tributação, o que é muito importante em um país como o Brasil, onde a cultura popular admite e usufrui esta alternativa de forma saudável. Os pequenos investimentos das apostas não significam rombos nas contas do orçamento familiar; e ao mesmo tempo, enquanto fonte de arrecadação para os cofres públicos pode ser revertida a fundos como o “de Combate à Pobreza”, “da Saúde”, da “Segurança”, entre outros. Sem contar que proibir é andar na contramão e forçar hábitos que não são de antemão nem criminosos nem perniciosos.

Sobre a criminalidade no entorno do Jogo do Bicho, há que se contextualizar outros parâmetros em que o objeto de estudo em si não é classificado de ilegal, mas há contravenção ou crime ou ilegalidades na organização. Vamos a um exemplo simples - “camelôs”. A questão é social, dizem alguns políticos. Concordo, pois há que se oportunizar a venda de itens em barracas para aqueles de situação desfavorecida na pirâmide social. No entanto, o comércio informal hoje pode ser avaliado, ao vivo e a cores, como contraventor e criminoso, com uma simples verificação in loco nas bancas de produtos - geralmente instaladas em locais proibidos (calçadas, praças, nas ruas, muitas vezes em frente a lojas que pagam caros alvarás e muitos impostos sobre seus produtos, perfazendo, portanto, a chamada concorrência desleal). E ainda que estas sejam realocadas para os shoppings populares, como vem acontecendo cada vez mais, há o crime de venda de produtos pirateados (um mercado que movimenta milhões de dólares no mundo todo e tem sérios desdobramentos). E os itens vendidos não contam com quaisquer garantias de qualidade e segurança (a exemplo do selo do Inmetro, entre outros que têm o objetivo de resguardar o consumidor – muitas vezes crianças – de riscos à saúde, à integridade física, etc.).

Futebol, loteria, projetos de políticas públicas, licitações para emprego de serviços e compra de mercadorias (públicas e privadas), verbas para ONGs, fabricação de simples anticoncepcionais, e até a produção de silicones (por uma empresa registrada, renomada, certamente com tecnologia e procedimentos certificados, que vende com nota fiscal e exporta para vários países) podem englobar ações criminosas – propina; corrupção; produção com materiais ilícitos ou inadequados para a saúde humana; falsificação que impõe riscos à vida (a exemplo da relativa a medicamentos); concorrência desleal e, por tal, falência de empresas (como aconteceu no caso das videolocadoras, devido à pirataria de DVDs e CDs); brigas de torcidas com resultantes mortes, etc.

Até no âmbito do “sagrado” temos casos como o do bispo Edir Macedo, acusado de charlatanismo, falsidade ideológica, importação fraudulenta de equipamentos e uso de documento público falso, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. E padres processados por crime de sedução de menor.

Ou seja, o jogo do bicho em si não é crime, no meu ponto de vista (acrescento aqui os cassinos). Mas há que se garantir que ele não seja fator negativo ou parte do crime, assim como várias outras atividades.

(*) HONÉIA VAZ é jornalista em Cuiabá-MT.

Os artigos assinados são de responsabilidade do autor, não apresentando, portanto, a opinião do site ReporterMT.











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