11.02.2019 | 08h35


RENATO DE PAIVA PEREIRA

Homens e carros velhos

Eu sou ano 1947 e modelo 1947, mas toparia a troca por um modelo mais novo

Já foi anunciada no campo da ficção a possibilidade de, no futuro, transplantar o “software” que comanda o ser humano para outro corpo. Não seria transferir o cérebro ou os neurônios que têm existência física, mas a inteligência, os sentimentos, as emoções ou os algoritmos, que são imateriais como a programação de um computador.

Assim o “programa” instalado somente usaria a estrutura física disponível do novo corpo, da mesma forma que um sistema de informática (software) se vale dos computadores (hardwares) para expressar sua “vontade”.

Lembro-me desta possibilidade ouvindo um amigo da mesma idade dizer que não teria nenhum interesse nessa tecnologia, porque aos 70 anos, não se trocaria por um de 50. Segundo ele os homens velhos, tal como os carros antigos, são robustos e rendem muito mais que os atuais, principalmente em situações adversas. Um carro moderno, diz ele, não aguenta três anos rodando em estrada de terra.

Eu sou ano 1947 e modelo 1947, seguindo a comparação automobilística do meu amigo, mas, ao contrário dele, toparia prontamente a troca por um mais novo. Nem precisava ser fabricado em 1970 como o que meu colega septuagenário rejeita. Poderia ser ano 1955 com a manutenção em dia, sem, contudo, desconsiderar ofertas de mais antigos ou menos conservados. De repente poderia ser seduzido por um usado-velho 1950, mesmo que o motor já esteja rateando um pouco.

É preciso aceitar, para não limitar as possibilidades de troca, que meu chassi e suspensão já não estão muito bons e o motor, apesar de várias retíficas, apresenta sérios sinais de enfraquecimento.

Acrescente-se que, como todo mundo sabe, um motor tem limitadas possibilidades de receber recondicionamentos, ultrapassado este limite vai direto pro ferro velho.

Conhecendo o meu motor e suas várias retificações, estou mesmo disposto, para facilitar a troca, a estudar a possibilidade de pegar até um 1947 modelo 1948 que não esteja com a lataria muito detonada e que o motor ainda suporte uma ou duas reformas.

Pensando bem, para conseguir algum interessado 47/48 estou inclinado a voltar para o novo dono, dinheiro suficiente para custear por algum tempo os reparos inevitáveis.

Acho que já fiz exageradas concessões para me trocar por um mais novo. Mas como o interesse é grande de livrar-me dessa velha máquina, se a tecnologia do transplante prosperar antecipo minha última proposta, é pegar ou largar: aceito outro do mesmo modelo e ano, ou seja, fabricado em 1947, mesmo que já tenha virado o velocímetro umas dez vezes, mas que não tenha rodado muito em estrada de terra.

Só não dou garantia. Se esta máquina que hoje uso não suportar a configuração do novo software (não rodar o sistema), o que é quase certo, não aceito arrependimento, pois o negócio será feito com cláusula de irretratabilidade.

RENATO DE PAIVA PEREIRA é empresário e escritor

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