03.11.2019 | 07h55


OPINIÃO / ROSANA DE BARROS

Fita métrica para elas

O senso comum de que a roupa feminina tem significados, sobretudo em universo de predominância masculina.

Começar a relatar alguns fatos, às vezes, causa repulsa. Em outras situações, parece engodo. O sentimento atual é de mais força para buscar o enfrentamento em prol dos direitos humanos das mulheres. Fita métrica para vestidos e saias de mulheres? Conta outra...

Como queria estar narrando uma “estória”, porém, a história é real. Advogadas de Iguaba Grande, município do Rio de Janeiro, oferecem denuncia à corregedoria do Tribunal de Justiça daquele Estado, porquanto, a juíza da Comarca decidiu que só entrariam no Fórum local mulheres com trajes cinco centímetros acima do joelho. Seria muito cômico, se não fosse trágico...

A ordem daquele local, com foto de referência, ou melhor, de exemplo, na entrada do Fórum da Comarca de Iguaba GrandeRJ é a de que os seguranças devem ter consigo uma fita métrica para avaliar se as mulheres podem, ou não, transitar naquele lugar. Se estiverem com roupas acima do joelho em cinco centímetros, não podem por lá permanecer. 

Ao longo das décadas, as roupas femininas sempre foram motivo de expiação social. A preocupação com o vestir feminino é algo para render grandes comentários. E a criação e educação de filhos e filhas fazem com que as mulheres acabem sendo radicais quanto ao vestir de outras mulheres. 

No ambiente do Sistema de Justiça as vestes talares sempre foram obrigatórias. Inclusive, não muito tempo atrás, às mulheres das carreiras jurídicas o uso da saia e vestido se perfazia em obrigação. Aos homens os ternos, e às mulheres os tailleurs. Esse tipo de vestir fazia com que o gênero feminino usasse saia ou vestido, e casaquinho por cima. A quem sempre prestigiou? Quem sabe ao comércio? Aos gêneros feminino e masculino? 

Analisando racionalmente, a ninguém prestigiou ou favoreceu. Capacidade em nada tem a ver com a roupa que se usa. O vestir confortável, estar bem consigo mesma, estar confiante e feliz em desenvolver o trabalho que se presta a fazer é o que se deve analisar. 

O senso comum de que a roupa feminina tem significados, sobretudo em universo de predominância masculina ainda é realidade a ser enfrentada. Quantas mulheres se olham no espelho ao se arrumar para sair de casa e não mudam de roupa com medo de assédio? E quantas precisam falar firme e fazer “olhar de poucas amigas” para que não sejam confundidas?

Em 2016, durante uma campanha eleitoral em Mato Grosso, determinada autoridade explicando sobre propaganda política verbalizou uma pérola: “O assunto deve ser visto como um vestido de mulher, ou seja, nem tão curto que cause espanto, nem tão longo que nos cause tristeza.”

É... Como as mulheres “causam” neste universo tão patriarcal. A glória se faz, em uma sociedade pouco preocupada com o conteúdo, pelo exterior. O que é o interior, então? No caso de uma advogada que fizesse defesa perfeita, mas, que estivesse com saia acima do joelho em sete centímetros, e a outra em que a defesa fosse ruim e usasse a roupa abaixo do joelho?  

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual

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