03.12.2011 | 09h43


JOSÉ ROBERTO TORERO

E o campeão será...



Quando bati à porta do maior dos haríolos, do nigromante mór, do harúspice supremo, ele gritou lá de dentro:

-Quem é? Se for cobrador, eu não estou.

-Sou eu, mestre, aquele jornalista da Folha.

-Prove. Faça o ritual do destrancamento de caminhos.

Passei duas notas de R$ 50 por baixo da porta, e logo ela se abria. No instante seguinte estávamos no seu

Templo de Vislumbração do Futuro, que os infiéis chamariam de quartinho de empregada, e nos sentávamos em posição de lótus.

-Pois bem, mestre, hoje eu gostaria de saber quem será o campeão brasileiro.

Ele passou as mãos sobre sua bola de cristal, que, para os não iniciados, pode parecer um simples lustre de plástico branco, e disse:

-Estou vendo..., estou vendo que o campeão será um time que não despediu seu técnico neste Brasileiro.

-Isso não quer dizer muita coisa, mestre. O Tite está desde o ano passado e o Ricardo Gomes só saiu por conta do AVC.

-Certo, certo... Bem, deixe-me olhar mais profundamente... Ah, sim, estou vendo que o campeão tem um centroavante que já jogou em Portugal.

-Ah, é o Liedson, claro! Se bem que o Élton jogou no Braga.

-Como é difícil agradar hoje em dia... Bem, deixe-me ver... Ah, claro, o campeão será um clube que recentemente teve o pior presidente de sua história.

-Hum..., empate de novo.

-Então posso lhe dizer que será o time em que joga um atacante baixinho e rápido.

-Willian ou Éder Luís?

-Bah... Assim está difícil, nobre foliculário. As duas equipes têm muito em comum.

-Mas eu preciso de uma resposta taxativa.

-Uma resposta direta, sem a brumosa névoa da incerteza, sem a leitosa nuvem da poesia para causar dúvida e ambiguidade?

-Sim.

-Vai lhe custar mais cinquentão.

Após colocar a nota dentro do turbante, Zé Cabala respirou fundo, pousou suavemente as duas mãos sobre sua bola de cristal de plástico e disse:

-Pois bem, meu caro, se é assim que você quer, sem pompa nem circunstância, eu lhe digo: o campeão do Brasileiro de 2011 será o Corinthians.

-Certeza?

-Absoluta.

-Se não for, o senhor me devolve o dinheiro?

Zé Cabala respondeu com uma gargalhada tão estrondosa que quase estourou meus tímpanos.

*José Roberto Torero escreveu 24 livros (como "O Chalaça" e "Pequenos Amores", vencedores do prêmio Jabuti), dez roteiros de curta-metragem (entre eles, "Uma História de Futebol", indicado ao Oscar em 2001), sete roteiros de longa-metragem (um deles, "Pelé Eterno", prêmio Città di Roma no Festival de Cannes de 2005) e roteiros para a TV (como a série "FDP", sobre a vida de um juiz de futebol, a ser veiculada a partir de março pela HBO).

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