16.05.2019 | 07h55


GONÇALO ANTUNES

Do ser, no ser não se esgota

O líder, por encarnar ideologia, valerá mais que a ética, que qualquer ética

O que é mais forte, a ética ou a ideologia? Qual sobrevive na alma humana por mais tempo? Há conflito interno para ensejar sopesamento entre ética e ideologia a amparar processos de escolhas? Explico.

Primeiramente, é necessário estabelecer que ética será tomada no sentido de ciência da conduta e, em sendo assim, como móvel a buscar a conduta humana mais aceita e previsível em determinada época.

E por ideologia, a situação de um Ser quanto às próprias sensações e ideias frente a aspectos econômicos, políticos e culturais, sendo o primeiro de maior relevância.

Estabelecidas as premissas básicas, condições se têm de adentrar mais reflexivamente sobre o interesse central deste artigo de jornal – quem vence, a ética ou a ideologia?

Sabe-se que ambas fundamentam condutas, mas o caminhar por elas nem sempre é trabalho fácil. Exemplifico.

Sou filiado a determinado partido político, torço pelo seu programa de governo e pelo meu líder maior, o que carrega consigo as esperanças de concretude dos estatutos partidários. Por outro lado, esse mesmo líder é considerado um fora da lei, ou mesmo alguém despreparado para governar e administrar a ‘res’ pública (coisa comum, de todos). Pronto, o conflito resta estabelecido, quem vence? 

A resposta talvez seja difícil, mas para encurtar o caminho, acrescento a necessidade (relações entre as pessoas e entre elas e as coisas), a dependência a determinados interesses. 

É perceptível que as pessoas não se servem da própria inteligência, buscando ‘per si’ um juízo crítico sem a ajuda do outro, do interesse. É a necessidade por alteridade, por diferença de pensamento a dar suporto dialético ao próprio juízo. É um quase testar ‘empiricamente’, ainda que no plano das ideias.  

A ideologia, aqui, transcende, e transcende para abraçar um conforto dialético trazido pela presença de um outro pensamento. Ela se torna mais forte, pois, a ética pode ser camuflada e até revalorizada, a ideologia não, é militante e penaliza, repele os contrários e ajunta os ‘iguais’, protegendo-os de indiferença e solidão.

Cada vez mais se precisa da tutela do outro. Essa é a maior necessidade, não importando a ética e conduta individual, mas o fazer parte de algo que seja maior que a individualidade considerada. 

O líder, por encarnar ideologia, valerá mais que a ética, que qualquer ética, que móvel e derrotada, deixará espaço para outra ética, jovem e mais vigorosa, estabelecedora de novas condutas. 

A filosofia atual exige um pensar sem certezas, visto que a essência do que penso em mim se cala enquanto a diferença existente no outro não for confrontada. E se do outro, o pensado não se revestir da altura crítica necessária?  Resultará em ideias paradoxais, além de incompletas, sem profundidade o suficiente para causar inquietações e angústias, premissas básicas para quaisquer novos paradigmas.

É por aí...

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é juiz em Cuiabá.

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