06.02.2019 | 08h29


EUSTÁQUIO RODRIGUES

Diário de um Prefeito

Hoje acordei com a agenda cheia. Pedi pra cozinheira (paga pela prefeitura) para trazer meu café na cama.

Admirado com o sucesso mundial do Diário de um Vereador, que virou best-seller, o prefeito da capital de São Gardenal, a grandiosa e calorenta Rivotrilândia, resolveu fazer o seu fofo e carinhoso diário.

Dia 1 – Segunda Feira

Hoje acordei com a agenda cheia. Pedi pra cozinheira (paga pela prefeitura) para trazer meu café na cama. Desjejum feito, mandei o motorista (pago pela prefeitura) trazer o Rolls Royce (carro oficial da prefeitura) para me levar ao Paço Municipal. Com o orçamento cada vez mais apertado, está sobrando menos dinheiro para bancar minhas mordomias. Chegando lá, reunião com o pessoal das empresas de ônibus, pois precisava acertar o “bereré” para a próxima eleição em troca do direcionamento da licitação para eles. Após essa reunião chata, mas necessária, vim pra casa descansar, afinal a semana está só começando.

Dia 2 – Terça Feira

Meu ritual de sempre: café na cama. Hoje tem reunião com o partido. Precisamos formar novas alianças, mas para isso preciso aumentar o número de cargos comissionados para caber todos os cabos eleitorais, parentes, concubinas e agregados. Com a criação de 2 novas secretarias inúteis e 1 empresa pública sem pé nem cabeça, resolvemos o problema. Criamos a Secretaria De Assuntos Estratégico Difusos e Operacionais e a Secretaria dos 1500 anos do Descobrimento, além da Empresa de Gestão Informatiza de Saúde Espacial. Por enquanto (e pra sempre) coisas que só vão ficar no papel e vão gerar 900 cargos comissionados.

Dia 3 – Quarta Feira

A cozinheira faltou e fiquei sem o café na cama. Disse que o filho pegou meningite, a nora pegou dengue e o neto chikungunya e quando foi ao Posto de Saúde da capital não tinha médico, nem enfermeiras, nem água e nem nada. Daí ela teve que ir pra cidade vizinha, Ritalina do Norte, ver se encontrava um Posto de Saúde funcionando. E eu lá tenho algo a ver com família dela? Que se explodam! Eu que não posso ficar sem café na cama. Já mandei demitir e chamar um cabo eleitoral como nova funcionária, de preferência sem filho pequeno e com laqueadura. Eita povo folgado! Dá uma mão e já quer um braço.

Dia 4 – Quinta Feira

Acordar com café na cama é tudo de bom. Hoje fui ao alfaiate renovar meus paletós. Os últimos que foram feitos tinham os bolsos muito rasos. Passei vergonha da última vez quando fui pegar minha mesada, com o dinheiro caindo no chão. Agora mandei fazer com vários bolsos internos e bem fundos. Depois, passei rápido na prefeitura para assinar a contratação dos cabos eleitorais para as novas secretarias. É ruim ir lá no meio da tarde. Um monte de pedintes, presidentes de bairro querendo reunião para reivindicar isso, aquilo, aquilo outro. Um saco! Entrei e saí pela porta secreta, aquela que os políticos têm e usam quando não querem ser vistos.

Dia 5 – Sexta Feira

Sextou! Hoje foi dia de Reunião dos Conchavos. O dia todo reunido com empresários e políticos para termos novas e excelentes ideias. Para o município? Claro que não! Para bolarmos novas maneiras de desviar dinheiro público, de modo que eu me perpetue no poder e eleja meus filhos e netos para cargos eletivos estratégicos. A prefeitura é ótima por isso. Com o conluio dos vereadores (exceto por uns 3 ou 4 barraqueiros), ninguém fiscaliza nada e posso fazer o que quiser com o orçamento municipal. Desde que divida o butim com os nobres representantes do povo rivotrilandiano.

Dia 6 – Sábado

Hoje é o dia mais chato de todos. De manhã tive que visitar meus currais eleitorais, apertar a mão do povo, abraçar (que nojo), pegar criança toda remelenta no colo, tomar garapa (que odeio) e comer as coisas mais extravagantes que conheço. À tarde fui na grande inauguração do Autódromo da capital – que ainda nem está asfaltado –, na inauguração do Centro Espacial para busca de ETs – que ainda está nas fundações – e na inauguração da rodovia SG 251 – que embora tenha 700km de extensão, inauguramos os primeiros 500m. Esse é o segredo, inaugure, ponha seu nome na placa, faça uma enorme propaganda, espere os votos e o resto que se dane.

Dia 7 – Domingo

Hoje teve o encontro da minha grande e nobre Família Odoleta Le Petit. Odeio também. É um monte de parente que, quando não está puxando o saco para conseguir um emprego, estão pedindo alguma coisa para depois puxarem meu saco. Mas tive que ir, porque só ali são 300 votos diretos e uns 2.000 votos indiretos. Então compensa o perrengue em troca dos votos desses iludidos, que pensam que ao terem um parente prefeito, isso lhes dará status e alguma vantagenzinha. Mal sabem eles que é com o seu dinheiro e às suas custas que mantenho meus privilégios, minhas mordomias e estou cada vez mais rico e o mais longe possível deles.

Eustáquio Rodrigues Filho – Cristão, Servidor Público e Escritor. Autor do livro “Um instante para sempre”. Instagram: @eustaquiojrf.

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