31.07.2020 | 10h24


OPINIÃO / ANA PAULA MORENO

Desabafo da neta de uma vítima da covid-19

Meu nome é Ana Paula e neste relato não entrarei no mérito do certo ou errado, sobre abertura ou fechamento do comércio, ou do fica em casa, tão pouco sobre protocolos e tratamentos profiláticos.

O objetivo deste desabafo é relatar uma triste experiência que eu e meus familiares vivemos nos últimos dias, a partir da internação do meu avô em um hospital particular de Cuiabá.

Meu avô, Benedito Asclepíades Moreno, tinha 98 anos, era capitão da reserva do Exército, homem íntegro e honrado, lúcido apesar da idade avançada, que amava viver e infelizmente foi infectado pelo novo Corona vírus.  Após o diagnóstico da doença, iniciou imediatamente o tratamento em casa com toda a assistência médica necessária e medicação do protocolo receitado pela médica que o acompanhava. Após 8 dias de tratamento, o quadro clínico dele piorou, sentindo falta de ar, o que nos levou a encaminhá-lo  a um  pronto atendimento de um hospital particular de nossa cidade. Na ocasião, o médico plantonista informou-nos sobre a gravidade da situação e indicou a imediata internação em uma UTI. A partir daí começa nosso drama familiar, pois não tínhamos mais acesso a ele e nem às INFORMAÇÕES sobre o tratamento intensivo, mesmo a equipe hospitalar nos assegurando que teríamos notícias do meu avô duas vezes ao dia, o que jamais ocorreu.

Passamos então a buscar informações com amigos, familiares, conhecidos e colegas de trabalho. Após muitas conversas com a administração do hospital, já no 5 dia de internação, o hospital iniciou  contato com  nossa família uma vez por dia, sempre com um texto pronto   ‘estável e sem alterações do quadro clinico’, quando na verdade as informações obtidas através de amigos eram que a equipe médica estaria diminuindo o oxigênio mecânico, com pressão arterial satisfatória e que apesar da gravidade, meu avô respondia muito bem ao tratamento.

O meu apelo neste momento é que a direção hospitalar de um modo geral se sensibilize com as famílias dos pacientes internados, pois não ter uma informação oficial e plausível sobre a evolução da doença, é uma verdadeira tortura para quem está do lado de fora.

 Tenho a consciência de que a rotina hospitalar neste período de pandemia, é muito complexa e desgastante para os profissionais da saúde, mas acredito que o respeito à informação e às famílias dos pacientes deva fazer parte dessa rotina de uma forma mais humanizada. É um direito das famílias!

 No dia 24 de julho, sexta-feira, recebemos a notícia de que meu avô continuava estável e sem alterações no quadro clinico. Esperançosos por boas notícias buscamos informações com o hospital no sábado, porém sem sucesso. No domingo (26), Dia dos Avós, por volta das 2 horas da tarde, recebemos a triste notícia do falecimento do meu avô.  Podem imaginar o choque que levamos com essa notícia intempestiva? O pior de tudo é que no sábado ele submeteu-se à hemodiálise com o agravamento do seu quadro clínico, o que  não fora informado à família. Se recebêssemos essa informação no sábado estaríamos cientes de sua piora e poderíamos  prepararmo-nos para esta que seria uma das piores notícias que poderíamos receber em nossas vidas. Na terça-feira (29), um dia após o sepultamento do meu avô, em meio à dor pela perda irreparável, recebemos uma ligação do mesmo hospital que dizia: - Informamos à família que o paciente Sr. Benedito Moreno continua estável e sem alterações no quadro clinico.

Que absurdo!

Onde está a humanidade?

Onde está o respeito?

Onde está a consideração?

Clamo aos gestores hospitalares que se atentem aos terríveis impactos sofridos pelas famílias dos pacientes internados com Covid -19, pela falta de atenção, de respeito e de informação durante a internação para o tratamento dessa terrível doença.

 Tenho certeza que este tipo de experiência não foi só a minha família quem vivenciou, pois muitas famílias estão vivendo o mesmo drama. Graças a Deus e aos cuidados hospitalares pessoas são curadas e voltam para as suas famílias, mas muitas não voltam.

As famílias dos pacientes merecem ser tratadas com mais respeito!

Ana Paula Preza Moreno

Os artigos assinados são de responsabilidade do autor, não apresentando, portanto, a opinião do site ReporterMT.











COMENTÁRIOS

Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Repórter MT. Clique aqui para denunciar um comentário.


Confira também nesta seção:

TV REPÓRTER

INFORME PUBLICITÁRIO