05.11.2019 | 08h27


GIANA BENATTO

Cuiabana entre peixe e manga

Cuiabá que era chamada Cidade Verde nos últimos anos não merece este nome.

Acabamos de almoçar em uma peixaria que adoro. Farta variedade de peixes, mojica de pintado, ventrechas, farofa de banana. Culinária local, simples e deliciosa. Mas, voltando pra casa vim pensando como meus netos verão Cuiabá.

O Rio Cuiabá morre cada dia mais desolado; está um nojo. Não há ponto na cidade onde possa ser visto sem que eu sinta dor no coração. Os córregos da cidade continuam depósitos de lixo, garrafas pet, geladeiras e restos de animais, sofás e outros dejetos indescritíveis. Os peixes que comemos nos restaurantes locais vêm de fora ou de tanques. O mercado do Porto tem uns exemplares lindos de pintados, peraputangas, pacus e tantos outros, mas, como boa parte dos cuiabanos e mato-grossenses estes peixes são “paus-rodados”, não tem nenhum de “tchapa e cruz”.

Cuiabá que era chamada Cidade Verde nos últimos anos não merece este nome. E para frente, acredito que a designação se perca de vez. O desmatamento urbano e a retirada dos canteiros que dividiam as avenidas principais da cidade enterraram bem fundo o resto do verde que havia. É preciso que a recuperemos dos últimos acontecimentos locais. Tanto pelas obras que a devastaram, como da especulação imobiliária que acaba dia pós dia com os imensos quintais antes tão característicos; seus cajueiros e mangueiras. Me parece que mais um pouco todo caju e manga que teremos na cidade serão importados do nordeste. Quando cheguei a Cuiabá, uma das coisas que mais me chamava atenção era haver mangueiras nas calçadas.

Uma árvore frondosa, com sombra farta e os mais variados tipos de manga. Hoje em dia não se vê mais tantos quintais “frutíferos”. Só cimento, reflorestamento de viveiros, árvores replantadas. Em muitos projetos residenciais ou prediais, primeiro arrancam as árvores locais para no fim da obra serem plantadas outras no mesmo lugar. Não consigo entender. E nas ruas, saem as mangueiras e cajueiros, para se plantar ficus, palmeiras ou outras plantas com flores, mas que não fazem boa sombra.

Havia um restaurante na cidade chamado Bosque, onde, entre outubro e março, era constante você estar jantando ou conversando com os amigos na parte externa e de repente ser atingido por uma enorme manga bourbon na cabeça. Era sempre uma aventura sentar lá. O progresso cobra um preço muito alto. Todos queremos qualidade de vida, ar condicionado, mobilidade urbana. Mas, no fundo e não tão fundo assim, precisamos de parques para caminhar, levar os filhos brincar, praças arborizadas e bem cuidadas para ver o tempo passar. Não adianta nada uma praça toda de cimento com brinquedos de ferro e concreto numa cidade com a temperatura como a nossa.

Precisamos ter o rio Cuiabá recuperado, para que não seja apenas recreação de quem não tem condições de buscar outra forma de lazer e que depois do banho do rio não tenha que ir para uma UPA tratar de “pereba” de pele. Precisamos que os ipês que estavam em suas primeiras florações e foram retirados dos canteiros, desde 2013, sejam devolvidos às avenidas. E que sejam plantadas muitas mais árvores. Não apenas palmeiras, que não dão sombra. Meus netos merecem conhecer uma Cuiabá com seus peixes e suas mangueiras.

Giana Benatto Ferreira é advogada, membro da Comissão do Direito do Idoso da OABMT

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