17.01.2012 | 09h34


OPINIÃO / JUREMIR MACHADO

A favor dos flanelinhas



Novo Hamburgo (RS) proibiu os flanelinhas. Vai botá-los na cadeia? Porto Alegre (RS) quer regulamentar a profissão de flanelinha. Dois enfoques, dois mundos. Novo Hamburgo é administrada pelo PT. Porto Alegre por PDT e PMDB. Os petistas, tradicionais defensores dos chamados, segundo o clichê, fracos e oprimidos, não deveriam ser os principais defensores dos “guardadores” de carros nas ruas? O problema é interessantemente complexo. Eu já fui contra os flanelinhas baseado na ideia pertinente de que a rua é um espaço público e ninguém pode, salvo o ente público, cobrar pelo uso do que é de todos. É um legalismo correto. A vida, porém, vai além dos legalismos formalistas, que podem ser corretos, mas não justos. Nem realistas.

O flanelinha é um produto da desigualdade.

Tentar reprimi-los é guerra perdida. Não imagino que exista possibilidade legal de prendê-los e de mantê-los na cadeia. Mesmo que houvesse essa possibilidade, seria injusto e imoral num país em que os crimes de verdade não geram grandes punições. Vai botar na cadeia um flanelinha enquanto o crime de colarinho branco corre solto? Vai criar uma brigada de caça ao flanelinha enquanto os grandes criminosos passeiam de jatinho? Fala sério! Proibir os flanelinhas é um legalismo idiota. E fadado ao rotundo fracasso. Os flanelinhas existem porque a sociedade não consegue dar-lhes outra perspectiva. Num país em que as altas taxas de juro fazem redistribuição de renda em favor dos banqueiros, flanelinha é mal menor. Melhor organizá-los. A contribuição dada pelos motoristas aos flanelinhas é uma modalidade de distribuição de renda. Ajuda a diminuir o conflito entre os desiguais.

Se eu fosse vereador, apresentaria um projeto de lei: acabar com as áreas azuis e entregar tudo para os flanelinhas. O dinheiro dado aos flanelinhas jamais é desviado do destino original. É uma modalidade de participação dos indivíduos no funcionamento da cidade. Democracia direta. Não é diferente das leis de incentivo à cultura em que o Estado abre mãos de impostos que são aplicados diretamente pelas empresas em obras e artistas escolhidos por elas. O flanelinha pode ser visto também como uma terceirização informal de serviços de estacionamento em vias públicas. Dispensa licitação, propina e burocracia, cria empregos, diminui a criminalidade e evita o inchaço do funcionalismo. O secretário César Buzatto quer legalizar os flanelinhas.

O flanelinha é duplamente útil: protege os carros de assaltantes e dele mesmo. Reafirmo: o flanelinha tem função social. Além disso, obriga o motorista a sair do seu egoísmo de classe e a colaborar com os mais desfavorecidos, gerando um sistema de solidariedade social informal, negociado e eficaz. O flanelinha faz parte da autogestão de uma cidade. Corta caminho. Se o Estado vai arrecadar para depois redistribuir como ajuda social, melhor ir direto ao ponto, ainda mais que se trata de uma ocupação, de um trabalho, com expediente, troca de turno, organização e segurança. Daí a minha nova campanha: deixem o pobre do flanelinha trabalhar em paz..

JUREMIR MACHADO DA SILVA é escritor, tradutor, jornalista, professor universitário e colunista do jornal Correio do Povo, onde o artigo foi originalmente publicado.

Os artigos assinados são de responsabilidade do autor, não apresentando, portanto, a opinião do site ReporterMT.











(1) COMENTÁRIOS

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Repórter MT. Clique aqui para denunciar um comentário.

Carlos Augusto Arashiro Assis.  20.01.12 11h01
Flanelinha não é nunca foi e nunca será profissão, ser a favor dessa pratica ilegal é um absurdo sem tamanho, não existe mal menor, mal é mal e deve ser combatido, um erro não justifica o outro, ser a favor de flanelinha é ser favor de uma corja de vagabundos que tem alergia de trabalho, extorquir e muitas vezes danificar o patrimonio e agredir moralmente e físicamente o cidadão honesto pagador de imposto é CRIME, a rua é pública ninguém tem o direito de constranger outrem EXIGINDO dinheiro dessa forma, qual garantia o flanelinha oferece? A de que ele próprio não danificará seu veículo? O senhor está extremamente equivocado na sua posição, dar dinheiro a flanelinha não é distribuir renda, a grande maioria deles são usuários de drogas, bandidos, com inúmeras passagem pela polícia, tem que ser muito ingenuo para achar que flanelinha ``protege`` alguma coisa. Não dá pra se adimitir sindrome de coitadinho em pleno século 21, flanelinha é atividade de vagabundo, quem quer vencer na vida não fica inventando desculpa e culpando tudo e todos para justificar os seus fracassos, se a pessoa quer algo tem que TRABALHAR E ESTUDAR e não extorquir, chantagiar e abusar covardemente de pessoas inocentes. Pobreza não é defeito, nem desculpa para ser mal caratér.

Responder

0
0

Confira também nesta seção:

TV REPÓRTER

INFORME PUBLICITÁRIO