25.06.2019 | 08h36


MARCELO PORTOCARRERO

A aceitação da ignorância

Porque propor e regulamentar leis que nos submetem ao que é nossa obrigação?

Sabe aquele quadrado enorme com bordas amarelas e interior vermelho que o Corpo de Bombeiros exige sejam pintados/colados sob caixas/extintores de incêndio de parede e que a gente encontra em prédio públicos, comerciais e residenciais?

Pois é, todas as vezes que me deparo com uma daquelas coisas horríveis me vem à cabeça o descalabro intelectual em que nos metemos ao aceitar passivamente sermos tratados como incapazes funcionais a título de proteção contra nós mesmos.

Algo parecido aconteceu dias atrás em relação à polêmica das cadeirinhas para o transporte de crianças em veículos quando da aprovação de resolução do Conselho Nacional de Trânsito – Contran, sobre a utilização dos dispositivos de retenção (cadeirinha) para crianças de até 7 anos e meio.

Olhando pelo prisma das responsabilidades individuais vem em minha mente a seguinte questão: Se somos cientes de que cabe a nós cuidar para que nossas crianças e nós mesmos estejamos em segurança porque propor e regulamentar leis que nos submetem ao que é nossa obrigação?

Se os gestores públicos e políticos chegaram a conclusão de que somos incapazes ou inconsequentes não será uma lei, muito menos uma multa que irá modificar nosso comportamento em relação a isso, mas certamente procedimentos dessa natureza são a confirmação de que estamos nos dando atestados de ignorância.

Caso não tenham percebido, é assim que estamos sendo qualificados ou seja, como pessoas que não têm conhecimento, cultura, estudo, experiência ou prática. (como descrito nos dicionários em relação ao adjetivo ignorante).

É preciso saber diferenciar as situações em que se age “por” ignorância daquela em que se age “na” ignorância. Assim, se incorremos em erro de forma involuntária estamos agindo por ignorância devido à falta de conhecimento. Mas se o erro for cometido por falta de civilidade e de forma voluntária ele será cometido deliberadamente na ignorância.

Tanto na primeira como na segunda situação a ignorância pode ser eliminada através da oferta de conhecimento e pelo exemplo, o que se obtêm desde cedo na relação familiar entre pais e filhos, passando depois através de aulas teóricas e práticas de cidadania nas escolas e universidades.

O exemplo de que devemos respeitar o espaço e a opinião dos outros vem primeiro através da convivência com pais no dia a dia, onde se aprende que obter vantagem deve ser ensinado como uma ação que vem do mérito de dizer a verdade, fazer a coisa certa, de forma legal e respeitosa, mas nunca como resultado da safadeza, da falcatrua e da mentira.

As escolas precisam mostrar a importância do conhecimento como um dos fatores que levarão a redução das diferenças, a eliminação dos preconceitos, o alcance dos objetivos e principalmente na relevância do comportamento pacífico e construtivo que o ambiente de estudos precisa ter para levar adiante a missão de ensinar, de transmitir corretas noções de respeito ao próximo, de cidadania e de civismo.

Será que estamos perdendo o senso de responsabilidade ou sendo levados a submeter nossas vidas a uma espécie de síndrome de dependência punitiva para o ente público?

A ignorância não se combate com leis e decretos, muito menos com multas, ela é resultado da falta de informação e só poderá ser vencida pelo conhecimento. A adoção de politicas punitivas para substituir a ignorância ao contrário de reduzi-la acaba por confirma-la através da substituição de valores morais por regramentos legais que nada transmitem senão o conceito de que a punição bastará para a regularização do cotidiano, das relações humanas, da vida enfim.

Bertold Brecht, dramaturgo alemão, disse que a ignorância política é que gera o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio da empresas e multinacionais. Eu complementaria dizendo que a ignorância é a estratégia utilizada pelos políticos para manter a população desinformada e controlada através de leis e decretos que regulam a vida de modo a impedir que o conhecimento lhes remova os cabrestos.

Marcelo Augusto Portocarrero é engenheiro civil. 

Os artigos assinados são de responsabilidade do autor, não apresentando, portanto, a opinião do site ReporterMT.











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