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02.08.2020 | 09h24


NACIONAL / NO BANCO DA FRENTE

Motoristas arriscam suas vidas para manter os ônibus funcionando

Segunda categoria mais afetada pela pandemia de Covid-19, motoristas e cobradores arriscam suas vidas para manter o transporte urbano rodando na retomada econômica



Todos os dias, 400 mil motoristas e cobradores de ônibus urbanos deixam suas casas e famílias antes de o sol nascer para garantir o direito constitucional de ir e vir dos brasileiros. Muitas vezes, enfrentam condições precárias para não deixar que o Brasil pare nestes tempos de pandemia do novo coronavírus.

Enquanto a orientação geral é ficar em casa para conter o avanço da Covid-19, esses profissionais vestem o uniforme e vão para as ruas. Motoristas e cobradores se expõem diariamente à infecção que atingiu milhões de pessoas pelo mundo. Só no Brasil, o novo coronavírus ceifou 93.563 vidas – pais, mães, filhos, irmãos, avós, namorados, esposas, maridos – até o dia 1º de agosto, segundo dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

A maior parte dos funcionários de empresas de transporte urbano nunca viveu o isolamento imposto devido à Covid-19 – de acordo com pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a categoria tem 71% de chance de ser contaminada pelo vírus. A classe só perde no quesito risco de atuação para os profissionais da saúde, como médicos e enfermeiros.

Independentemente da aglomeração ou do perigo iminente, motoristas e cobradores carregam vidas todos os dias. Levam 200 milhões de brasileiros aos seus destinos em todo o país. Para exercer o ofício a eles designado, pagam o preço do trabalho com a própria saúde – a qualquer momento podem ser infectados pelo vírus.

São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal já enterraram mais de 94 motoristas e cobradores. Isolados em hospitais, esses profissionais que se contaminaram ao exercer o ofício diário morreram sozinhos em unidades de saúde espalhadas pelo país. Não puderam dar o último abraço em seus familiares.

 

Juvenal Borges da Silva trabalhou como motorista por 20 anos. Em seu último emprego, conduzia passageiros da São José, empresa que faz uma das linhas com o maior número de pessoas do Distrito Federal. Ele partia de Ceilândia e só finalizava a rota na Rodoviária do Plano Piloto.

 

Todos os dias acordava muito cedo, por volta de 4 horas da manhã, para iniciar a jornada. Mesmo com os decretos do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), que suspenderam diversas atividades na capital, Juvenal continuou a trabalhar. Levava quem não podia ficar em casa ao destino desejado. Sempre com o coletivo superlotado, ele não conseguia manter o distanciamento recomendado pelas autoridades.

Nos horários de pico, entre 6h e 8h, os passageiros ficam muito próximos uns dos outros. Mãos juntas segurando as barras de ferro, para não cair com o balançar do ônibus. Quem está sentado segura a bolsa de quem está em pé. As janelas, muitas vezes, não abrem. Estão emperradas. A ventilação é precária.

 

No início da pandemia, em meados de março e abril, a doença e as medidas de segurança ainda eram pouco conhecidas. Juvenal ia trabalhar com álcool em gel e, quando possível, fazia a higienização das mãos– à época, o uso da máscara não era obrigatório. Em maio de 2020, já seguindo as novas recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), e mesmo depois de a empresa adotar a limpeza sistemática dos ônibus, ele apresentou os primeiros sinais da Covid-19. A tosse persistente chamou a atenção.

“Ele acreditava que estava com uma gripe e, como não apresentava febre, não procurou ajuda médica. Quando começou a sentir falta de ar, decidiu se consultar em uma unidade de saúde. Realizou uma tomografia, que deu resultado ‘sugestivo para a Covid’. Isso era uma sexta-feira. Voltou para casa. No domingo, piorou e precisou ser internado. Dois dias depois estava na UTI. Após algumas semanas, recebemos uma ligação do hospital. Ele havia morrido”, relata a enfermeira Thalissa Geraldo da Silva, 30 anos, nora da vítima.

Diabético, Juvenal perdeu a batalha contra o novo coronavírus aos 52 anos. Deixou dois filhos, esposa, netos e uma família inteira com medo da gravidade da Covid-19. “Ele era um homem muito comprometido. Gostava de tirar férias, viajar, estar com os netos. Meu sogro faz muita falta”, conta Thalissa, que também é filha de motorista do transporte urbano da capital. “Ficamos preocupados todos os dias”, revela.

O caso de Juvenal não é isolado – por esse motivo, as situações vividas por ele tornaram-se alvo de estudo. O pesquisador Yuri Oliveira de Lima, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisou todas as profissões do Brasil a fim de entender os contextos e os riscos de cada uma durante a pandemia de Covid-19.

“Sem dúvidas, a saúde é a área mais afetada, pois esses profissionais estão na linha de frente no cuidado com os doentes. Porém, o setor de transporte é a segunda categoria com maior risco. Falamos de 60% a 65% de probabilidade de contágio quando é abordado o setor administrativo das empresas e de 71% para motoristas e cobradores”, ressaltou Yuri Oliveira, que é membro do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduaçãoe Pesquisa de Engenharia da UFRJ, ao Metrópoles.

O pesquisador frisa que a situação dos empregados de empresas de ônibus é complicada. “Não existe distanciamento dentro do transporte público. Essa interação entre passageiro, motorista e cobrador gera um risco maior para todo mundo”, analisa.

Mesmo com todos os cuidados das empresas em higienizar coletivos, fornecer equipamentos de proteção individual (EPI’s), como máscaras e luvas, a chance de contágio é alta. A partir do momento em que um local gera aglomeração de pessoas, ele se torna um ponto de risco.

Por outro lado, no entanto, é possível tomar providências para aumentar a segurança da comunidade que usa o transporte público no país. Segundo a infectologista Ana Helena Germoglio, do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), é necessário ampliar o número da frota para que haja distanciamento entre as pessoas. A médica ressalta que, apesar de muito importantes no combate ao vírus, as máscaras e a higienização, sozinhas, não eliminam totalmente a chance de contaminação.

A infectologista destaca ainda a importância do teste para condutores, uma vez que, além de correrem o risco de contágio, eles podem virar vetor de contaminação. “Cada vida perdida é uma família inteira em sofrimento. Ao primeiro sinal de infecção, seja tosse, febre, coriza, dor de garganta, perda do olfato e paladar, o profissional deve ser afastado. O tratamento precoce vai ajudá-lo a se recuperar e a não disseminar o vírus. Para cada diagnóstico de Covid-19, a probabilidade é de que outras três pessoas ao redor do infectado testem positivo para a doença”, frisa Ana Helena.

Leia a reportagem completa no site Metrópoles











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