13.07.2020 | 07h39


NACIONAL / SAÚDE MENTAL

Incerteza sobre isolamento social traz impactos para a saúde mental

Especialistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que falta de uma coordenação nacional de combate à Covid-19 confundiu população



Municípios de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Pernambuco e também o Distrito Federal precisaram recuar em seus processos de reabertura após observar que a liberação de serviços não essenciais gerou aglomerações. Especialistas apontam, com preocupação, a possibilidade de um novo endurecimento das medidas de distanciamento, caso os números de contaminações e óbitos pela Covid-19 subam nas próximas semanas.

A necessidade de voltar atrás não aconteceu só no Brasil, que passou de 72 mil mortos pela Covid-19 no último domingo, mas em outros países, como China e Estados Unidos. O processo de abre e fecha pode causar ainda mais confusão entre as pessoas, que já estão sofrendo os impactos mentais de viverem sob confinamento por quatro meses.

Até ontem, o país contava 1.866.176 infectados e 72.151 mortos pelo coronavírus, segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa formado por O GLOBO, Extra, G1, Folha de S.Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo.

Estudos realizados no Brasil e em várias partes do mundo indicam o aumento do nível de ansiedade como o principal efeito sobre a saúde mental causado pela quarentena. Uma linha telefônica de emergência para pessoas em sofrimento emocional registrou aumento de mais de 1.000% em abril em comparação ao mesmo período do ano passado, nos EUA, segundo o Washington Post.

Toda situação nova representa um tipo de estresse. No início da pandemia, tudo era muito novo, as incertezas eram maiores. A falta de adaptação é o que leva a transtornos mentais, a esse excesso de ansiedade. Existe também a questão das diferenças individuais, algumas pessoas sofrem muito, e outras não sofrem nada. As pessoas que têm uma capacidade maior de se ajustar a novas situações provavelmente vão sofrer menos os impactos mentais da pandemia — afirma Deborah Suchecki, professora do departamento de Psicobiologia da Unifesp.

Falta de coordenação

Especialistas em saúde mental ouvidos pelo GLOBO foram unânimes em apontar a falta de uma coordenação nacional de combate ao novo coronavírus como um dos principais motivos que levaram as pessoas a se sentirem confusas com a possibilidade de reabertura.

No Brasil, cada estado e município pode decidir como combater a pandemia. A falta de uma diretriz federal fez com que regiões entrassem e saíssem da quarentena em momentos diferentes. As recomendações de saúde, muitas vezes contraditórias, criam ainda mais incertezas.

— Informações conflitantes podem gerar um estado de desamparo nas pessoas, fazendo com que não confiem mais nas notícias oficiais. Isso é algo que prejudica muito a orientação da população. Se existisse um processo mais ordenado de comunicação do governo, provavelmente as pessoas teriam mais segurança ao buscar informações para orientar seus próprios comportamentos e suas medidas de proteção. Essa descoordenação pode ter impacto no aumento eventual de ansiedade, principalmente por conta da incerteza em relação ao enfrentamento da doença no retorno às atividades normais — pondera Ronaldo Pilati, professor de Psicologia Social da UnB.

Pior para os mais jovens

Priscila Correia, de 37 anos, conta estar angustiada e por vezes confusa com a reabertura. Ela está dentro de casa há mais de cem dias e sente medo de sair por causa dos filhos e da avó, de 93 anos.

Já Fabiano Barcellos, de 40 anos, diz ser ansioso e “muito da rua”. Sua rotina de contato com muitas pessoas foi freada pela pandemia. Apesar de afirmar que neste período de isolamento aprendeu a lidar um pouco com a ansiedade e a impaciência, continua incomodado por não saber quando a reclusão vai terminar.

— O maior problema do ansioso é não saber quando isso terá fim.

O possível retorno às aulas presenciais dos filhos é o que tem preocupado Aline Borba, de 41 anos. Mãe de Ana Carolina, 10, estudante do 6º ano, e de Matheus, 14, aluno do 9º ano, ela não sabe o que vai fazer quando o colégio deles reabrir: como o primogênito tem diabetes do tipo 1, faz parte do grupo de risco da Covid-19.

— Eu estou apavorada com a reabertura das escolas. Meu filho não quer voltar a estudar presencialmente durante a pandemia de jeito nenhum. Ele está com tanto medo que nem do quarto sai direito. Já Ana Carolina está com medo de voltar às aulas, porém sofrendo muito com esse isolamento. Diz que sente falta das pessoas e do contato humano, e que a situação está fazendo muito mal a ela, não vê a hora de tudo isso acabar.

 

De acordo com Guilherme Polanczyk, professor de psiquiatria da infância e adolescência da Faculdade de Medicina da USP, é esperado que as pessoas mais jovens tenham mais dificuldade de lidar com uma situação de isolamento social.

— Há crianças que não estão se importando com a situação, mas temos aquelas que estão preocupadas. Essa perspectiva de sair, de começar de novo as aulas, de estar num grupo social novamente, de enfrentar o mundo lá fora, de correr o risco da contaminação, gera ansiedade para eles. Mesmo ainda não tendo saído de casa, só a perspectiva de (sair) já gera ansiedade. Outra coisa é que não sabemos como as escolas vão lidar com toda essa situação, o que também deixa os pais ansiosos — afirma o médico, que desenvolve uma pesquisa para avaliar a saúde mental de crianças e adolescentes durante a pandemia.

Para amenizar os níveis de estresse e ansiedade, Suchecki sugere que as pessoas busquem alguma maneira de relaxar e que a massagem, neste caso, pode ser uma boa opção. Até mesmo quem está enfrentando sozinho a quarentena pode se automassagear, pressionando áreas do corpo como ombros, pescoço e braços.

— Quando recebemos um abraço, o corpo libera um hormônio chamado ocitocina, que atua reduzindo a atividade de uma estrutura no cérebro que é reativa a emoções negativas, chamada de amígdala cerebelosa. A ocitocina é liberada com o toque, então, a automassagem pode ajudar muito no controle da ansiedade.











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