20.01.2020 | 11h05


CERVEJA CONTAMINADA

Homem perdeu movimentos após tomar cerveja da Backer

O repórter Ricardo Mello teve acesso, com exclusividade, à cervejaria Backer para tentar entender em que parte do processo pode ter ocorrido a contaminação.



O Fantástico mostra o mistério que tomou conta do noticiário nesta semana. Como uma substância altamente tóxica foi parar em cervejas artesanais produzidas em Belo Horizonte? Quatro pessoas morreram, 15 foram internadas.

O repórter Ricardo Mello teve acesso, com exclusividade, à cervejaria Backer para tentar entender em que parte do processo pode ter ocorrido a contaminação.

“Meu marido é uma pessoa extremamente saudável, sempre foi praticante de atividade física diária, uma pessoa muito forte mesmo. E você vê ele ali numa cama de CTI, um sofrimento do outro mundo, não podendo mais falar, mexer, assim... E a família, uma impotência...”, desabafa Flávia Schayer Dias, mulher de Cristiano Assis Gomes.

O professor universitário Cristiano Mauro Assis Gomes, de 47 anos, é uma das 19 vítimas identificadas, até agora, de uma intoxicação grave provocada pelo consumo da cerveja Belorizontina.

Quatro das vítimas morreram, entre elas o pai da Camila, Paschoal Dermatini Filho, que tinha 55 anos. Até agora, é o único caso fatal de intoxicação que foi confirmado pelas investigações.

O marido dela, Luiz Felipe Teles Ribeiro, está internado em estado grave. Paschoal e Felipe também tomaram a Belorizontina quando a família se reuniu para celebrar o Natal.

“O meu pai, ele foi rápido... Era a hora dele. Em momento nenhum fiquei desesperada, ‘vai acontecer a mesma coisa com o Felipe’. Acho que são indivíduos diferentes, idades diferentes, históricos de vida diferentes que respondem de forma diferente”, desabafa Camila.

A intoxicação provoca sintomas como mal-estar e dores abdominais. Os rins começam a parar de funcionar e depois aparecem sintomas neurológicos: problemas na visão e paralisia facial, que pode aumentar e chegar ao corpo inteiro. Nos casos mais graves, a pessoa só respira com a ajuda de aparelhos.

Entre o Natal e as duas primeiras semanas deste ano, ninguém sabia o que estaria causando esses sintomas, e o número de casos aumentava.

Camila é farmacêutica. Ela decidiu investigar o caso e assim acabou conhecendo a Flávia, citada no começo dessa reportagem, comemorando a recuperação do marido. As duas começaram a trocar informações sobre o que as vítimas tinham comido e bebido no período de festas.

“Ele comeu japonês? Comprei no super... Não, não comemos. Eu tirei fotos de todos os produtos, mandei para ela... Não, nada compatível, nada. A única coisa era a cerveja em comum”, conta Flávia.

A suspeita sobre a cerveja aumentou quando a Flávia descobriu que uma terceira vítima, vizinho dela, também estava internada. “A pergunta que eu fiz foi: ‘ele tomou Belorizontina?’ O amigo dele falou assim: ‘Só foi encontrado Belorizontina na casa dele’”.

“O que ajudou muito o nosso trabalho foi a investigação epidemiológica feitas pelas famílias, que chegaram e foram enfáticas em falar que todos usaram a mesma cerveja”, destaca Marco Túlio Oliveira Tanure, neurologista clínico.

 

“A gente começou por conta própria a pesquisar casos clínicos compatíveis com eles, com os doentes. E aí, pesquisando esses casos clínicos é que a gente achou que o que tinha causado essa sintomatologia neles era o dietilenoglicol”, lembra Camila.

Quando a Camila foi à delegacia pela primeira vez, já trouxe as informações que tinha apurado. E isso acabou sendo fundamental: foi o ponto de partida da investigação.

A Vigilância Sanitária de Minas recolheu garrafas nas casas das famílias das vítimas e a perícia confirmou que estavam contaminadas com dietilenoglicol, uma substância altamente tóxica.

A cervejaria Backer, que produz a Belorizontina, diz que não usa essa substância, e sim uma outra, chamada monoetilenoglicol.

“O monoetilenoglicol é liberado, é um produto que é fiscalizado, inclusive não é um produto proibido”, diz Paula Lebbos, diretora de marketing da Backer.

O processo básico de fabricação de cerveja tem várias etapas. O ingrediente principal, normalmente o malte de cevada, passa por um processo de moagem e outro de cozimento. Depois, vem uma espécie de filtragem. O líquido, então, é fervido, vira o chamado "mosto", e recebe mais ingredientes. Depois é resfriado em um aparelho chamado trocador de calor, e a temperatura cai de noventa e seis graus para quinze. Como explica André Franken, diretor de uma cervejaria de São Paulo: “Nós estamos entre a parte quente, onde acontece a mistura dos ingredientes e a parte fria, onde tem os tanques de fermentação, onde vai realmente ser criada a cerveja pelas leveduras. Essas placas são como se fossem um sanduíche. De um lado passa a água fria, e de outro lado passa o mosto quente, então ele é resfriado através da placa”.

Algumas cervejarias usam substâncias que não deixam essa água congelar. O dietilenoglicol, que a cervejaria Backer garante não ter usado no seu processo de fabricação, tem essa função. Seu uso não é proibido, mas não é comum, porque existem opções mais seguras para o caso de uma contaminação.

“A gente aqui optou pelo etanol, grande parte das cervejarias artesanais utiliza o etanol por causa do preço. A vantagem que eu vejo é a questão de eu não ter problema caso ele venha a entrar em contato com o produto, ele não vai causar nenhum tipo de toxicidade no produto”, afirma o diretor de uma cervejaria.

A polícia ainda está investigando como o dietilenoglicol foi parar em 32 lotes de 10 cervejas produzidas pela Backer. Todos foram retirados do mercado.

O Ministério da Agricultura interditou a fábrica da Backer até o fim das investigações.

“A Backer, no ano passado, ela foi fiscalizada praticamente o ano inteiro, justamente pelo fato de a gente estar crescendo”, diz a diretora de marketing Paula Lebbos.

O Fantástico conseguiu entrar nas instalações da empresa. Em um setor funciona a penúltima etapa da fabricação das cervejas da Backer. No local é a fermentação e a maturação. O primeiro lote de cervejas que teve a contaminação identificada foi fermentado em um terceiro tanque mostrado na reportagem. Ele foi o primeiro a ser interditado pelos auditores do Ministério da Agricultura. Tanques que têm tipo de lacre verde e amarelo são os que têm cerveja dentro. Hoje, meio milhão de litros estão parados no local.

 

O estoque está cheio. Nenhuma garrafa de cerveja pode ser vendida. A fábrica tem 70 tanques de fermentação, 140 funcionários diretos, que se revezam trabalhando 24 horas por dia. Por causa dos lacres, ninguém pode andar pela linha de produção. A Backer produziu, no ano passado, cinco milhões de litros de cerveja para 18 de suas marcas. A Belorizontina representava 70% das vendas.

“Espero que as autoridades ajam com rapidez para que esse prejuízo não seja maior do que já é, e para as pessoas que já foram atingidas por esse triste fato”, diz a diretora de marketing da Backer.

Segundo os médicos, o tratamento das vítimas pode durar meses e pode haver sequelas. Mas as famílias estão confiantes.

“O Felipe continua lá. Todos os dias é um passinho de cada vez, cada dia é um progresso, mas é como se fosse uma escada mesmo, cada dia é um degrau. Eu acredito que ele vai sair dali do jeito que ele entrou: andando e conversando”, diz Camila.











COMENTÁRIOS

Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Repórter MT. Clique aqui para denunciar um comentário.

TV REPÓRTER

INFORME PUBLICITÁRIO