13.07.2020 | 11h01


NACIONAL / VENCEU A COVID-19

Brasileira é salva por método de ventilação que ela própria criou

Pneumologista da USP foi intubada e cuidada pelos médicos que ajudou a treinar.



Em meados de abril, o conceituado patologista da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Saldiva falava ao vivo na TV sobre a epidemia de Covid-19 quando não se conteve e começou a chorar em frente às câmeras.

"Naquela época, tinha gente negando a existência ou minimizando o impacto da doença, então fui dizer para as pessoas se cuidarem porque nós da saúde estávamos pagando um preço alto. Aí lembrei-me da Carmen e de outras pessoas queridas e me descontrolei um pouco", diz Saldiva, médico e professor com 40 anos de experiência, à BBC News Brasil.

Para muitos na comunidade de médicos atuando nos fronts de batalha contra a Covid-19 no país, o choro de Saldiva talvez dispensasse explicação.

A notícia da internação da pneumologista Carmen Valente Barbas circulara dentro e fora do Brasil, abalando a moral das tropas na guerra contra um inimigo pouco conhecido.

Isso porque a médica dos hospitais das Clínicas e Albert Einstein, pesquisadora e professora com 60 anos de idade e mais de 35 de carreira, é uma sumidade internacional em ventilação mecânica, usada no tratamento de casos graves de Covid-19.

Na reportagem a seguir, com depoimentos da própria Carmen Barbas e de colegas, confira a história de como uma mulher que dedicou a carreira a salvar vidas e formar médicos teve sua vida salva pelas técnicas que ajudou a criar - e pelos médicos que treinou.

Reconhecimento internacional

Filha do também pneumologista e ex-professor da Faculdade de Medicina da USP João Barbas Valente, Carmen seguiu os passos do pai. Ela se formou na USP e ali iniciou, em 1995, seu doutorado em ventilação mecânica.

Em 1998, um estudo clínico liderado por ela e pelo colega Marcelo Amato foi publicado na "New England Journal", revista científica americana de grande impacto.

Até então, as chances de um paciente com doença pulmonar aguda morrer ao receber ventilação mecânica eram altas.

Em sua pesquisa, Carmen e seu grupo levantaram a hipótese de que a própria ventilação pudesse estar danificando o pulmão dos pacientes.

"Estávamos estudando a ventilação mecânica em pacientes com Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo, a SDRA", diz Carmem à BBC News Brasil. "Na época, a mortalidade dessa síndrome era 70%, então, todo mundo que trabalhava em terapia intensiva ficava desanimado, porque você ventilava o paciente e 70% deles morriam."

Naquele tempo, explica, pacientes com a síndrome eram ventilados com o mesmo volume corrente - o volume de ar que entra e sai do pulmão durante a ventilação mecânica - usado em cirurgias.

"Numa cirurgia, quando você faz uma anestesia geral, você intuba e ventila o paciente. Só que o pulmão lesado pela SDRA tem uma complacência mais baixa, ele é mais duro. Quando você colocava volume corrente alto, isso gerava pressões muito altas no sistema respiratório e acabava lesando mais o pulmão."

Carmen e seu grupo passaram a ventilar esses pacientes com um volume corrente mais baixo, entre outros ajustes.

Ao final do estudo clínico, o número de mortes entre pacientes tratados com a nova técnica caiu para 40%. Em 2000, um grande estudo americano confirmou, também na New England Journal, que a abordagem do grupo da USP era muito melhor.

Desde então, o índice de mortes de pacientes com SDRA caiu ainda mais, para 30%. E a equipe liderada por Carmen e Amato ganhou voz internacional, ajudando a transformar a ventilação mecânica no mundo.

A técnica é conhecida hoje como Ventilação Protetora Pulmonar.

"Carmen e sua equipe são um dos líderes na comunidade global (de intensivistas e pneumologistas)", diz à BBC News Brasil o italiano Paolo Pelosi, médico intensivista e professor da Universidade de Gênova, na Itália, colega e amigo da médica há 20 anos.

O tratamento de pacientes em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) é complexo, então são necessárias várias estratégias diferentes, explica.

"A técnica proposta por Carmen é parte de um conjunto de abordagens discutidas e aplicadas no mundo."

O que Carmen talvez jamais esperasse é que um dia seria salva por essa técnica.

Chegada do coronavírus

Em março de 2020, médicos brasileiros começavam a se dar conta de que o novo coronavírus era realmente perigoso.

"Estudando vírus desde muitos anos, a gente vê que esse novo vírus é muito diferente, muito agressivo, sobrevive em temperaturas muito altas, o que não é normal para vírus respiratórios", diz Carmen.

Ela conta que chegou até a escrever um artigo para a Sociedade Paulista de Terapia Intensiva esclarecendo a população sobre o coronavírus.

Por sua idade, e por ser hipertensa, Carmen estava no grupo de risco.

"Estava tomando todas as medidas preventivas, atendendo pacientes de máscara, não deixando eles chegarem muito perto. Com colegas, fui uma das primeiras a dizer, 'não chega perto, vamos manter distância'. Parei de beijar os colegas, de dar a mão para os pacientes, sempre com o álcool gel pendurado na bolsa."

Os primeiros sintomas apareceram no dia 19 de março.

"Comecei a ter um pouquinho de dor de garganta, um pouquinho de tosse, uma dor no corpo bastante importante."

Ela não estava cuidando de pacientes com coronavírus. Mas começou a ficar muito cansada.

"Qualquer coisa que eu fazia era uma fadiga absurda. 'Tem alguma coisa estranha acontecendo', eu falei."

Carmen foi ao hospital pedir para ser testada. Sem os sintomas clássicos - não tinha febre nem oxigenação baixa - teve de insistir. O teste foi feito no dia 23. O resultado chegou no dia 27: a médica contraíra a Covid-19.

"Vi no computador, positivo. Telefonei para os colegas pedindo para ser internada porque eu estava muito cansada."

Dilema na UTI

Carmen foi para o hospital Albert Einstein, onde trabalha há mais de 30 anos como intensivista. Inicialmente, seu estado não era crítico, então foi encaminhada à enfermaria. Mas como é comum em pacientes com Covid-19, seu quadro se agravou rapidamente.

"Fui internada no dia 27 à noite. Dia 29 de manhã já me levaram para a UTI e me intubaram porque eu estava com um quadro de insuficiência respiratória grave."

Ela tinha dedicado a carreira aos pacientes, ao ensino e à ciência. Agora, Carmen confiava sua própria vida à técnica que ajudara a desenvolver e aos médicos que treinara.

"Fui para a UTI. Os colegas já estavam todos lá, pessoas conhecidas", lembra Carmen.

"Quando você está se sentindo mal, quer aliviar aquilo. Eu estava tão desconfortável, com tanta falta de ar, que na hora que fui anestesiada, aquilo me aliviou."

Antes de "apagar", diz, ouviu as palavras da anestesista Roseny Rodrigues:

"Pode ficar sossegada porque vamos cuidar muito bem da senhora."

Na liderança da equipe que iria intubar e cuidar da ventilação mecânica de Carmen estava um ex-aluno de doutorado da médica, o intensivista e clínico geral carioca Gustavo Faissol Janot. Ele trabalha com Carmen há 16 anos.

"A Carmen sempre foi nossa grande mentora. Vê-la doente, com necessidade de intubação, foi um dos momentos mais difíceis, senão o mais difícil, da minha carreira", diz Janot à BBC Brasil.

A pressão sobre ele foi tão grande que Janot decidiu sair da sala.

"Nesse momento, dada minha proximidade com ela, pedi para não estar presente na intubação", diz.

"Quando você tem envolvimento emocional com a pessoa, tende a evitar fazer procedimentos invasivos porque isso pode mudar a forma como você faz o procedimento e colocar o paciente em risco", explica.

Roseny Rodrigues assumiu a tarefa.

Feita a intubação, Janot retornou à UTI.

Agora, segundo os preceitos da Ventilação Protetora Pulmonar, era preciso ajustar o respirador para ventilar gentilmente o pulmão da paciente - evitando danos para o órgão - e monitorar cuidadosamente seu progresso, 24 horas por dia.

Foi difícil dormir naquela noite, lembra Janot.

"Meu pensamento não saía da UTI. Às 3 da manhã, acordei e dei um pulo da cama. Eu tinha sonhado com a Carmen dizendo, 'vai checar meus exames, não vai me deixar'. Então fui ao computador checar os exames da madrugada."











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