04.07.2020 | 08h08


GERAL / LUTANDO PELA VIDA

Pais relatam busca por diagnóstico: 'foi desesperador e humilhante'

Carlos Gabriel tem apenas 6 anos e chegou a ter atendimento negado após desmaiar de dor; após dois meses veio o diagnóstico do câncer e o início do tratamento


DA REDAÇÃO

O menino o Carlos Gabriel Dall’Agnol Burgo descobriu o que é lutar pela vida com apenas 6 anos de idade. Foram necessários cerca de dois meses para ser diagnosticado com um câncer, período em que teve que lidar com dores intensas no intestino. Entradas e saídas de hospitais para receber medicamento direto na veia era a única forma de acalmar a dor, e ainda a humilhação de ter atendimento negado no Hospital Municipal de Cuiabá (HMC), onde a desculpa para as portas fechadas era de que o garoto não tinha risco de morte e a prioridade eram os pacientes infectados pela covid-19.

Gabriel foi diagnosticado com Doença de Hodgkin, que é um tipo de câncer que se origina no sistema linfático e ataca as células responsáveis pela imunidade e vasos que conduzem essas células através do corpo.

O conversou com os pais do ‘pequeno’, Carlos Donizete Burgos Franco e Juliana Dall’Agnol, que relataram todos os desafios, sofrimento e as dificuldades para conseguir atendimento médico e o diagnóstico durante a pandemia.

“Nossa luta começou em março, quando o Carlos Gabriel começou a apresentar umas dores em volta do umbigo e a perder peso. Ao passar pelo médico, no interior onde moramos, em Campo Novo do Parecis, e de acordo com os sintomas apresentados inicialmente, deduziu-se que pudesse ser vermes, giárdia, coisas que os remédios tradicionais não pegariam. Foram feitos exames, porém, logo começou a pandemia e as coisas começaram a ficar mais difíceis. Mas até ali estava tudo controlado, até então era apenas uma dor ao redor do umbigo”, lembra Juliana.

Após uma crise de dor intensa na região abdominal, no dia 7 de abril, o menino foi submetido a uma tomografia, já que nenhum remédio diminuia a dor. Com o exame, o médico verificou um espaçamento e uma grave infecção no intestino de Gabriel, momento em que a luta começou efetivamente, quando foi necessária a viagem até Cuiabá.

“Foi cortante ver meu filho naquela situação de dor e sem atendimento, foi desesperador e humilhante", relata a mãe de Gabriel.

Já na Capital, o menino teve outra crise de dor muito intensa, quando Juliana correu com o filho ao Hospital Municipal (HMC), em meio ao desespero de ver o filho desfalecer de dor, o hospital ainda negou atendimento e encaminhou a mulher com o filho à Policlínica do bairro Verdão.

De acordo com Juliana, o filho foi muito bem atendido na unidade de saúde, porém, segundo a pediatra, era no HMC que o menino precisaria ser atendido, já que na Policlínica não havia recursos para identificar o que Gabriel tinha.

A mãe foi encaminhada para a regulação para o atendimento no hospital e nesse momento veio a segunda decepção: o atendimento foi negado, pois após a explicação repassada ao HMC o caso de Gabriel foi considerado “sem risco de morte”.

“Foi cortante ver meu filho naquela situação de dor e sem atendimento, foi desesperador e humilhante. Liguei para o médico que nos atendeu em Tangará da Serra, muito prontamente, apesar de não ser a área dele, nos atendeu e voltamos para a cidade, onde fomos acolhidos, socorreram o meu filho e o devolveram para mim”, desabafou a mãe.

Os pais explicaram que depois desse triste episódio, voltaram para casa, onde por meios particulares e ajuda de amigos conseguiram marcar um médico gastroenterologista em Cuiabá, ainda sem saber o que o filho realmente tinha.

Em Cuiabá, já no final de abril, o médico solicitou uma endoscopia e uma colonoscopia, porém, devido à pandemia e todos os trabalhos reduzidos e o que tinha estava voltado para pacientes infectados pelo novo coronavírus, o menino só conseguiu fazer os exames no final do mês maio, cerca de 30 dias após a solicitação médica. Até este momento foram cerca de 60 dias lutando contra uma doença até então desconhecida, sem diagnóstico oficial e com Gabriel entrando e saindo de hospitais durante as fortes crises de dor, quando recebia medicação na veia para controlar a dor.

No dia dos exames, o médico que fez a colonoscopia e a endoscopia chamou Juliana para conversar e disse: ”Mãe, aqui não é uma questão gástrica, você vai ter que procurar um hematologista” e aí foi o primeiro alerta do que estava por vir, momento em que o desespero novamente tomou conta, não aceitando a explicação do médico.

RepórterMT

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Filho e pai durante as idas aos hospitais

Com o resultado em mãos, os pais levaram a criança para uma gastropediatra avaliar, confirmando o que o médico

“Nesse período o caso já tinha se agravado e, além das crises de dor, já apareciam nódulos no pescoço e na virilha", relata a mãe sobre os momentos de desespero.

anterior tinha falado. No entanto, a médica conseguiu encaminhamento para o menino no Hospital Júlio Müller, para uma melhor avaliação do caso.

“Nesse período o caso já tinha se agravado e, além das crises de dor, já apareciam nódulos no pescoço e na virilha. O pessoal do Júlio Müller nos acolheu de uma forma fantástica, deram confortou e por mais que já soubessem que viria uma caminhada difícil pela frente, nos abraçaram e eu não tenho palavras para agradecer todo o carinho que eles nos deram, principalmente no momento do diagnóstico, pois não é fácil dar esse tipo de notícia, que seu filho estava com um câncer”, contaram emocionados Carlos e Juliana.

Após o resultado da biópsia e confirmação do diagnóstico, mãe, pai e filho foram reencaminhados ao Hospital do Câncer. “Fomos muito bem acolhidos, são anjos que atendem aqui na pediatria do Hospital do Câncer, cuidando dos nossos pequenos com tanta dedicação e carinho”.

No hospital tudo foi explicado em detalhes aos pais, o que realmente tinha Gabriel e o que vinha pela frente. O câncer que o menino desenvolveu ataca os linfomas e enfraquece o sistema imunológico, entretanto, a primeira vitória, a doença não chegou ao sangue, o que poderia ter acontecido, principalmente devido à demora e dificuldade de chegar ao diagnóstico, mas “Graças a Deus”, o pequeno estava livre da leucemia, porém, a luta continua contra a Doença de Hodgkin.

“Agora estamos lutando contra esse câncer, toda quimioterapia que Gabriel faz tem suas reações colaterais, o que é normal nesse tipo de tratamento. Quando essas reações acontecem, meu filho tem que internar e receber transfusão de sangue porque a imunidade está muito baixa e como estamos utilizando sangue do hemocentro eles [equipe médica do hospital] solicitaram que nós fizéssemos esse ‘chamamento’ para que as pessoas venham doar, independente se é do grupo sanguíneo do Gabriel, pois a doação é bem vinda de todos os tipos, não é só ele [Gabriel] que está aqui e que precisa da ajuda, são várias mães e pais que estão aqui lutando pela vida de seus filhos”, relataram Carlos e Juliana, explicando um pouco do tratamento que o filhe tem feito no hospital e solicitando ajuda para que Gabriel e outras crianças não corram o risco de ter o tratamento interrompido por falta de sangue, exaltando a importância da doação, principalmente nesse período de isolamento social, quando o número de doadores diminui muito.

Após o pedido, Juliana fez um grande desabafo após relembrar tudo o que passou até o filho estar em tratamento no hospital. Quando, ainda sem saber que o filho tinha câncer, ver o menino sofrendo com dores intensas e ter atendimento negado, quando sem mesmo ter um diagnóstico ser considerado como um caso sem risco de morte e a criança estar com um câncer.

"A gente sabe a gravidade da covid, ok!, mas não podemos esquecer de todo o resto. Imagina vir nessa distância ‘louca’, com seu filho sentindo dor e ter o atendimento negado", desabafa Juliana

No papel de mãe, mulher e ser humano, Juliana chamou atenção para que embora a covid seja uma realidade e esteja causando uma pandemia, outras doenças não sejam esquecidas e pessoas morram por negligência.

“A gente sabe a gravidade da covid, ok!, mas não podemos esquecer de todo o resto. Principalmente em um estado onde todos os recursos médicos se concentram na Capital. Na minha cidade há médicos ótimos, mas não tem tratamento, temos que recorrer a Cuiabá. Agora imagina vir nessa distância ‘louca’, com seu filho sentindo dor e ter o atendimento negado. Não é fácil, somos seres humanos, pagamos impostos e não é barato. Se eu preciso do Estado é: ‘entra na fila, vamos ver, a hora que der eu te atendo”, não tem contrapartida. Cadê a dignidade, a honra, o respeito, o amor ao próximo. Se todo mundo pensasse em ‘Ser’ Humano nós não estaríamos como estamos hoje. A única coisa que tenho no coração é agradecimento a cada uma das pessoas que direta ou indiretamente está conosco nos pensamentos, nos auxiliando com uma palavra, com um carinho ou um simples gesto. Deus é maravilhoso em suas obras”, finaliza a mãe.

Quem quiser ajudar no tratamento do Carlos Gabriel e puder doar sangue basta procurar o Hospital do Câncer em Cuiabá, na avenida Historiador Rubens de Mendonça, a avenida do CPA, nº 5500, das 8h às 12h. Ou no Hospital Santa Casa, na Praça do Seminário, 141 -  bairro Bandeirantes. No momento da doação informar que é para o Carlos Gabriel Dall’Agnol Burgos.











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