16.01.2015 | 14h47


BRASILEIRO TRAFICANTE

A última escolha: morrer em pé, sentado ou deitado

Indonésia nega pedido de Dilma para não executar brasileiro condenado por tráfico; execução deve acontecer neste fim de semama



Marco Archer Moreira foi condenado à morte na Indonésia por tráfico de drogas. O instrutor de voo tentou entrar no país com 13 quilos de cocaína escondidos no tubo de uma asa delta, que foram detectados pelo raio-x. Após constantes rejeições a pedidos de clemência ou permissão para cumprir pena no Brasil, o governo do país anunciou sua execução. Ela deve ocorrer por fuzilamento, junto com mais cinco pessoas, nesse domingo.

Marco tomou uma decisão errada, lá em 2003, quando resolveu cometer um crime num país onde todos sabem ser punido com a morte. Durante sua vida deve ter passado por infinitas decisões certas, erradas, mais ou menos, ou mesmo nada, sem significância. Na cadeia escutou muitos nãos e está sentindo na pele o que é a não-opção.

Ironicamente, ele poderá fazer uma última escolha: morrer deitado, sentado ou em pé. De qualquer forma terá seus olhos cobertos (por uma venda ou capuz). Por que dar a possibilidade dessa última escolha aos condenados? Fiquei refletindo sobre esse mistério e fui atrás de uma psicóloga.

Lúcia, 65, disse não conhecer nenhum estudo sobre isso. Mas por ser espiritualista, acredita ser mais confortável estar deitado, para facilitar o desprendimento do espírito. Ela acha que a sensação de cair deve tornar o impacto maior. “Em casos de morte violenta, a energia vital, que mantém o corpo grudado no espírito, não se dissolve imediatamente com um tiro. Ela vai se desfazendo lentamente até cortar o cordão. Essa morte súbita é dolorida. Na morte natural, esse cordão é rompido imediatamente. Por isso, estar deitado amenizaria o impacto, já que não há a queda brusca, nem a força da gravidade”, ela disse.

Essa resposta não me satisfez, mas não encontrei um conhecimento científico a respeito e fiquei grudada nesse dilema. Perguntei para amigos, que deram respostas variadas. Sueli, 70, preferiria morrer de pé, para encarar a situação de frente, com dignidade. Marcos e André, 33, também, e se possível olhando para o executor. Luiza, 28, já escolheria sentada, por ser uma posição que representa espera. Sara, 30, preferiria deitada, porque assim ela teria se feito deitar e ninguém mais. Para Luciana, 35, não importa a posição contanto que seja de costas. Uma amiga comentou que escolheria estar de pé e cuspiria no chão simbolizando seu nojo pela ignorância deles. A resposta dela gerou um debate sobre tráfico de drogas, vícios e pena de morte.

A maior parte das respostas que encontrei toca na questão do orgulho. Erguer a cabeça e encarar de frente ou mesmo no caso da Sara, que prefere ela mesma se colocar na posição deitada para que ninguém o faça. Existe a probabilidade de a queda não ser sentida, mas a ideia de cair não agrada muitos. Não há resposta boa, claro, e o enigma continua. De pé, sentada ou deitada? Caramba! Prefiro não morrer, dá?

Parece que no caso de Marco, não. Marco, torço para que consiga enviar sua mente a algum cenário que traga o mínimo de conforto. Se eu estivesse no seu lugar, acho que faria de tudo para visualizar o paraíso, uma cachoeira gelada em dia quente, com um banco natural de pedras aconchegantes, envolvendo o corpo como um abraço materno. Fecharia os olhos com certo orgulho sim e emanaria amor. Mas eu faria tudo isso, nem deitada, nem sentada, nem de pé. Ia pedir para rodopiar, para pelo menos assim deixar os soldadinhos um tanto zonzos, e na tontura de um pega-pega, morrer criança.

PEDIDO NEGADO

O governo da Indonésia rejeitou o apelo feito pela presidente Dilma Rousseff (PT), na manhã desta sexta-feira (16), para que os brasileiros Marcos Archer Cardoso Moreira e Rodrigo Gularte, não fossem executados. A presidente falou, por telefone, com o presidente da Indonésia, Joko Widodo.

A conversa entre Dilma e Widodo foi a mais recente tentativa do governo brasileiro de evitar a execução de Archer, prevista para este domingo (18), por fuzilamento.

Em nota, a presidente Dilma disse "lamentar profundamente a decisão do presidente Widodo de levar adiante a execução do brasileiro Marcos Archer".

Ontem, o Itamaraty divulgou uma nota oficial informando que o governo estava "acompanhando estreitamente"  o caso do brasileiro. Ainda segundo a nota, "o governo brasileiro continua mobilizado, acompanhando estreitamente o caso, e avalia todas as possibilidades de ação ainda abertas", dizia a nota.

Em 2005, os advogados de Archer fizeram um pedido de clemência ao governo indonésio, mas o pleito foi negado. Em 2012, o a presidente Dilma entregou uma carta ao governo do país pedindo que Archer não fosse morto.

Atualmente, há 64 presos por crimes relacionados a drogas ilícitas condenados à morte no país asiático.

Archer trabalhava como instrutor de voo livre e foi preso em agosto de 2003 após tentar entrar na Indonésia pelo aeroporto de Jacarta com 13,4 kg de cocaína escondidos em uma asa delta desmontada. Na Indonésia, tal crime é punido com pena de morte.

No telefonema de hoje, Dilma disse que o ordenamento jurídico brasileiro não comporta a pena de morte, e que seu "enfático apelo pessoal"  expressava o sentimento de toda a sociedade brasileira.

GOVERNO ESPERA ‘MILAGRE’

O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais Marco Aurélio Garcia disse, em entrevista coletiva nesta tarde, que a decisão da Indonésia joga uma "sombra nas relações" entre os dois países.

Para Garcia, apenas um "milagre" pode reverter a condenação de Archer. "Vamos esperar que um milagre possa reverter essa situação", afirmou.

Garcia disse que a conversa entre Dilma e Widodo foi a última medida cabível ao governo brasileiro para tentar impedir a execução de Archer. Garcia admitiu que houve dificuldades para que os dois mandatários conversassem sobre o tema. "Mas nós conseguimos falar com ele. Houve países que sequer conseguiram isso", afirmou.

 

O assessor disse que o governo estudará medidas diplomáticas a serem tomadas caso Archer seja executado.











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