09.06.2019 | 10h33


OPORTUNIDADE

Japão flexibiliza regras para imigrante e atrai brasileiros

País asiático quer atrair 345 mil estrangeiros em 5 anos. Alto desempregos no Brasil estimula novos decasséguis a buscar oportunidade



O desejo de garantir uma educação melhor para os dois filhos levou o casal Felipe e Ivelize Vicente a trocar o Brasil pelo Japão, para onde embarcam em junho. Designer, Felipe já garantiu o visto de permanência para toda a família. Vai encarar jornadas de trabalho que podem chegar a 45 horas semanais em uma fabricante de autopeças em Oyama, a cem quilômetros de Tóquio. O principal atrativo é o salário, de ao menos US$ 10 por hora, que Felipe espera ser suficiente para sustentar a família, já que não vai gastar nada com a educação de Lucas, de 5 anos, e Daniel, de quase 2.

A família não está sozinha. A busca de trabalho no Japão por parte dos brasileiros voltou a crescer em 2016, mas ganha novo fôlego agora com as novas regras de imigração que o país asiático adotou em abril. No fim de 2018, havia 197 mil brasileiros em cidades japonesas, os chamados decasséguis. É o quinto maior grupo de estrangeiros no país e o primeiro entre os ocidentais. O número ainda está longe do recorde de 317 mil de 2007, mas a tendência é de crescimento.

As novas regras permitem que esse caminho seja trilhado até por profissionais de baixa qualificação e sem ascendência japonesa. Antes as regras davam preferência a descendentes de segunda e terceira geração (filhos e netos de japoneses). Com a flexibilização, o governo japonês espera emitir 345 mil vistos de trabalho para estrangeiros de várias nacionalidades em cinco anos.

— Estamos seguros sobre essa opção. No Brasil se gasta muito para garantir uma educação de qualidade. Estamos indo para ficar até as crianças se formarem — diz Felipe, que não tinha ligação com o Japão até se casar com a bancária Ivelize, neta de japoneses, que também pretende trabalhar lá após a adaptação dos filhos.

População em queda

A carência de mão de obra no Japão, cuja população envelhece de forma acelerada, não é novidade, mas se agravou com as obras para as Olimpíadas de Tóquio, em 2020. O país perdeu um milhão de pessoas entre 2010 e 2015. A previsão é que a população atual de 127 milhões se reduza a 86,7 milhões em 2060.

— O problema de falta de mão de obra no Japão é crônico. No longo prazo, precisamos de trabalhadores estrangeiros. A tendência é aumentar o número de brasileiros — diz o cônsul-geral japonês em exercício em São Paulo, Akira Kusunoki, que recomenda aos interessados conhecer bem os hábitos do país, tradicionalmente fechado para estrangeiros, antes de tomar a decisão, o que facilita a adaptação.

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O fraco desempenho da economia e o alto desemprego no Brasil contribui para o êxodo rumo a terras japonesas. A Itiban, maior agência de recrutamento para o Japão, enviava de 150 a 200 brasileiros ao mês para o país asiático até o ano passado. Nesse ano, o número cresceu e chega a 300.

— A crise no Brasil e a recuperação mais lenta da economia explicam a maior procura. É diferente do passado. Hoje o brasileiro quer ir com a família e ficar mais tempo — diz Kleber Ariyoshi, diretor da Itiban.

Esses brasileiros vão para trabalhar de dez a doze horas por dia, ganhando entre US$ 10 e US$ 14 a hora, dependendo do ramo de atuação e região da empresa. A maior parte das oportunidades está em montadoras, fabricantes de autopeças, empresas de alimentos e de eletroeletrônicos. É importante falar japonês para também se candidatar a vagas em lojas de conveniência ou até no cuidado de idosos.

Ariyoshi conta que a cultura, a culinária e o tipo de trabalho — braçal e com longa jornada — são os fatores que mais podem dificultar a adaptação dos brasileiros. Alguns chegam a desistir quando se dão conta do que os espera. O custo de um processo como esse, que inclui visto e passagem, fica entre US$ 2,5 mil e US$ 3,3 mil e é financiado pela empreiteira (empresa no Japão que faz a intermediação com as indústrias). O pagamento, na maior parte dos casos, tem início no segundo mês, dividido em seis vezes por ano.

O designer Fábio Kenji, de 28 anos, já sabe o que esperar. Aos 13, fez um intercâmbio no Japão. Agora, decidiu voltar para trabalhar. A motivação foi o fim de um contrato de trabalho e o término de um relacionamento de 14 anos:

— Vou para trabalhar em fábrica, mas acredito que, estando lá, outras oportunidades podem surgir. Acho que vou me adaptar, mas quero ficar, no máximo, cinco anos.

Etiqueta japonesa

Para melhorar a adaptação dos brasileiros, o centro de apoio ao trabalhador da Bunkyo, associação de cultura japonesa de São Paulo, oferece palestras e cursos para esse público. Um dos professores é José Vanzelli. Ele conta que, diferente dos decasséguis pioneiros da década de 1990, os interessados na imigração hoje não possuem laços tão próximos com a cultura japonesa, mesmo os descendentes.

— O maior interesse deles é ter informações básicas de como se comportar. Entender a questão da hierarquia e hábitos do dia a dia. Querem ser aceitos — conta Vanzelli, logo após dar uma palestra em que explicava, entre outros temas, como inclinar o corpo de acordo com cada variação da tradicional saudação japonesa.

Foi a falta de emprego no Brasil que levou, há dois anos, o casal Tatiane Akemi Koseki de Almeida e José Gabriel de Almeida a ir para o Japão. Eles agora trabalham como inspetores de qualidade em uma empresa de automação, em Kyoto. O plano é juntar dinheiro para comprar uma casa no Brasil. Para isso, optaram pelo turno da madrugada — que tem pagamento adicional — e poupam integralmente um dos salários do casal.

— Eu já conhecia um pouco da cultura e falava japonês, então foi mais fácil. Já o trabalho, no começo, foi muito difícil. Nunca tinha trabalhado em fábrica — lembra Tatiane.

Com japonês bem básico, José Gabriel estranhou um pouco o país, particularmente a alimentação, as regras mais rígidas e o trânsito. O Japão adota a mão inglesa.

— Temos hora para ir no banheiro ou tomar água. É só no intervalo ou sob autorização. O inverno e o verão aqui também são bem rigorosos — diz.

O que é preciso saber antes de partir

Quem pode ir

Brasileiros não descendentes de japoneses podem pleitear visto de trabalho no Japão. É preciso ter entre 18 e 55 anos e já sair do Brasil contratado. Não é permitido levar família e há um prazo fixo de estadia. Filhos e netos de japoneses podem obter visto para toda a família, com opção de permanência. 

Condições de trabalho

A hora trabalhada varia de US$ 10 a US$ 14 na maior parte das vagas disponíveis para brasileiros. A carga horária é de cerca de 45 horas semanais (um pouco menos na indústria automobilística). As férias remuneradas são de dez dias, mas podem chegar a 20 com mais tempo de casa. 

Para onde vão os brasileiros

A maior parte dos imigrantes do Brasil para o Japão se concentra nas províncias de Aichi, Shizuoka e Mie. Nesses locais, é possível manter a convivência com outras famílias do Brasil e até encontrar mercados com produtos brasileiros, além de centros de apoio à comunidade. 

Moradia

Apesar da renda alta, os gastos fixos também são. Um dos principais pesos no bolso dos brasileiros que vivem no Japão é a moradia. Em cidades como Tóquio é possível encontrar opções de aluguel mensal a partir de US$ 300 por pessoa em bairros mais populares.

Filhos

A educação japonesa é de alta qualidade e gratuita. Para quem deseja que os filhos estudem em estabelecimentos com ensino de português, é preciso desembolsar cerca de US$ 400 ao mês, mas essa é uma opção disponível apenas em algumas regiões do país asiático.











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