12.06.2019 | 07h55


GONÇALO ANTUNES

Poço redentor

Passar pelo mundo, navegar profundamente, não é tarefa para principiantes

Não se tem um buraco tão profundo que o homem ou a mulher não possam chegar. Eles existem, e a razão é o caminho de volta, aliviados, pelo resgate.

Os abismos estão lá, oferecidos, a quem quiser neles submergir. Já neles, se aprende às vezes até mais rápido que as labaredas infernais dos relacionamentos humanos.

Passar pelo mundo, navegar profundamente, não é tarefa para principiantes. Exige paciência e muita disposição para a reflexão e luta interior.

Sapo escaldado não carrega escorpião nas costas em nenhuma travessia de riacho, ambos morrerão. O escorpião, apesar de conscientemente saber que afundará em face da morte do sapo, vai ferrá-lo, essa é a sua natureza.

Entre os humanos as coisas nem sempre são diferentes, apesar da razão, das ideias inatas, dos juízos ‘a priori’, haverá espaço para o exercício da substância que os revestem e os tornam iguais, os sentimentos, as paixões e os estados cerebrais a ditarem com todas as energias – tens necessidades. As variações são só atributos.

É no fundo do poço que emerge maior o instinto de sobrevivência, e será nele, também, com muito sofrimento, o surgimento da reflexão mais profunda – QUEM SOU!?

Não será o desgraçado a viajar disfarçado num mundo desavisado. Enquanto se está, estará sob vigília implacável e constante. Não está condenado a ser livre como quis Sartre (Existencialismo), a natureza humana é a sua condição de existência, precede a esta, dela não se abdica.

A existência, os caminhos percorridos e a percorrer, as escolhas, o ambiente, a alteridade, tudo servirá como um maço e o cinzel a debastar uma pedra embrutecida pela natureza de que é revestida.

Não se é inicialmente mau ou bom. Mas se tem em sua formação, enquanto ser no mundo, atributos a autorizar e facilitar a apreensão e fixação do que é mal ou bem. 

A vida é um jogo muito específico, dá ao vivente racional todas as cartas, reservando o curinga para ocasiões muitíssimas especiais, o fundo do poço, lugar comum das grandes batalhas. Jogar com ela exige mais que habilidades – paciência e disposição para apresentar cada carta no momento certo, e, acaso perdendo, resignar-se com o fundo do poço, que haverá de fazer-lhe redenção.  

O livre arbítrio, também apresentado por muitas religiões, e não poderia ser diferente dado o papel que representam, é a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, enquanto que a liberdade é o bom uso do livre arbítrio (Santo Agostinho).

Assim, Livre arbítrio e necessidade podem conduzir ou não para o fundo do poço. E por quê? Porque as concepções do mundo se orientam segundo as necessidades (liberdade como necessidade em Heidegger).

Porém, e a gosto de todos, nem tudo é motivo de desesperança, há sempre nesse poço, ainda que fundo, a já citada reflexão redentora.

É por aí...

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é juiz de Direito em Cuiabá. 

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