19.06.2017 | 08h07


ONOFRE RIBEIRO

Jorge Moreno

A morte de Moreno toca-me particularmente porque começamos juntos

Preferi não ir ao sepultamento de jornalista Jorge Moreno nesta quinta-feira em Cuiabá. Na verdade, depois que meu filho Marcelo morreu fiquei muito mole pra hospitais e velórios.

Mas não foi só por isso. Quis preservar a mesma imagem do amigo. Nos vimos em Cuiabá há cerca de um ano. Viemos de Brasília no mesmo avião e depois nos encontramos em Cuiabá e filosofamos bastante. Muito agradável. Ele era muito bom ouvinte. Bom falador também.

Gostaria de recordar nosso começo juntos no jornalismo. Eu já era repórter do caderno de Cidades do Jornal de Brasília, desde 1973. O editor Luiz Gutemberg levou da UnB uma geração de jovens repórteres ainda não formados. Em 1974.

Queria renovar uma mentalidade crítica no jornalismo morno de Brasília. Até então a maioria absoluta dos jornalistas no mercado eram não-graduados e tinham uma forma própria de ver as coisas, pelo ângulo muito pessoal e interpretativo. Gutemberg queria gente mais da notícia e dos bastidores.

Nessa leva entrou Jorge Moreno. Éramos repórteres do caderno de Cidade do jornal. Saíamos na mesma Kombi alaranjada percorrendo os lugares das nossas pautas. A Kombi nos recolhia ao final do dia. Na redação escrevíamos as nossas matérias. Quase todos os dias almoçávamos na cantina do jornal: arroz com ovo e pendurávamos na longa conta nem sempre quitada no fim do mês com Rafa o seu tolerante dono.

Mais ora, menos ora, pagávamos e ele sabia disso. Moreno era um desses. Gutemberg nos reunia duas vezes por semana na sua sala de editor do jornal pra nos ensinar a ver o jornalismo novo que pregava. Aos poucos o Jornal de Brasília tornou-se o jornal mais político e o mais lido da capital. Recordo-me do presidente Ernesto Geisel numa foto em que toma o seu café da manha lendo o Jornal de Brasília.

Gutemberg conseguiu formar a sua geração de jornalistas políticos. Entre eles cito três: Rubinho, Ijalmar e Moreno. Estive na política, mas por pouco tempo porque mudei-me pra Cuiabá. Moreno tinha um faro muito bom pras notícias. Daí o seu sucesso ao longo dos 40 anos a partir dali.

De minha parte apreendi a abordagem política e crítica de Gutemberg. A morte de Moreno toca-me particularmente porque começamos juntos e sempre que nos víamos, tínhamos do que lembrar daqueles bons tempos. Ou de conversas novas usando as mesmas percepções do distante 1974 em Brasília. Agora que ele voltou pra dormir na sua Cuiabá, estaremos próximos de novo. Também pretendo adormecer por aqui, na minha vez...

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso onofreribeiro@onofreribeiro.copm.br www.onofreribeiro.com.br

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